Menina dos olhos de Greca, Vale do Pinhão tem muita propaganda e pouco dinheiro | Jornal Plural
19 jul 2020 - 9h19

Menina dos olhos de Greca, Vale do Pinhão tem muita propaganda e pouco dinheiro

Apoio da prefeitura a empresas se resume a cursos e apresentação a possíveis investidores privados. Fundo de financiamento nunca saiu do papel

O programa que se transformou na menina dos olhos de Rafael Greca (DEM) tem nome, propaganda e muito autoelogio. Só não tem dinheiro. O Vale do Pinhão, criado para incentivar o ambiente de startups em Curitiba, poderia ser um instrumento útil para fomentar a economia da cidade neste momento de pandemia e crise. No entanto, os recursos prometidos nunca chegaram a nenhuma empresa, e hoje a ajuda se resume a cursos à distância e apresentação de projetos a potenciais investidores privados.

Impulsionado pela presença de alguns “cases de sucesso”, o ecossistema local ganhou na gestão de Greca nome – Vale do Pinhão – e a promessa de um fundo de R$ 10 milhões para financiar pesquisa e desenvolvimento. Porém o mandato do prefeito chegou ao último ano sem que o valor tenha saído do papel.

Lançado como ideia em 2017, no início da gestão de Greca, o projeto de financiar pesquisa e desenvolvimento de startups foi previsto na Lei de Incentivos à Inovação (LEI Nº 15.324 de 09 de novembro de 2018), promulgada em 2018. O texto previa o fomento do ecossistema e indicava que a criação do fundo dependia de lei específica, que foi enviada à Câmara em 2019 e promulgada em novembro daquele ano.

Art. 2º O Fundo Municipal de Inovação, a ser objeto de lei específica, constituir-se-á como meio de fomento ao desenvolvimento do Ecossistema de Empreendedorismo e Inovação de Curitiba, para o financiamento dos instrumentos de estímulo à construção de ambientes especializados e cooperativos de inovação e à inovação nas empresas, conforme estabelecidos nos Nas Seções II, III e IV deste Capítulo.

Lei Municipal 15.324 de 2018

Mas a promulgação da lei é apenas um passo burocrático. O fundo só passará a existir quando houver recursos e ele for regulamentado por decreto. Ainda no fim de 2019 o prefeito enviou uma emenda ao orçamento para a Câmara estabelecendo um aporte inicial de R$ 3,5 milhões saído do orçamento da cidade, um valor muito aquém dos R$ 10 milhões prometidos inicialmente, mas que ainda não se materializaram.

Os R$ 3,5 milhões sairiam do orçamento regular das Secretarias. Com a mensagem do prefeito aprovada na Câmara, o que aconteceu foi a criação da dotação orçamentária, algo como uma conta bancária, que deverá receber os recursos e a autorização de transferência de valores previstos no orçamento da cidade de outras contas para a do fundo. Mas na prática, a própria Agência Curitiba, responsável pelo programa Vale do Pinhão, admite que nenhum valor efetivamente está à disposição das startups.

Ao Plural, a Agência informou que a previsão é que isso venha a ser definido no segundo semestre. Enquanto isso, startups da cidade que estão sob pressão por conta da pandemia recebem dois tipos de ajuda da prefeitura: cursos à distância e eventos, como a apresentação de “pitches” a potenciais mentores e investidores. Mas nada de recursos financeiros.

Para Rafael Tortato, coordenador de Startups Estadual do Sebrae, a formação de empreendedores é parte importante do ambiente startup. “A gente ouve muito que não há financiadores, mas muitas vezes o que acontece é que não há projetos”, diz. O Sebrae, diz ele, está trabalhando na formação de ambos para que conversas entre empreendedores e financiadores evoluam, o que, reconhece, acontece pouco ainda por aqui.

Ou seja, as startups apresentam seus projetos em sessões de Pitch, mas poucas vezes isso evolui, de fato, para contratos de financiamento.

Comemoração controversa

Recentemente, a prefeitura comemorou do Vale do Pinhão no Top 100 Emerging Ecosystem Ranking, produzido por uma startup americana especializada em coletar e analisar dados sobre ecossistemas de startups. A notícia mereceu manchete no site da prefeitura, posts em destaque nas redes sociais do município e divulgação para os meios de comunicação locais, alguns dos quais reproduziram ou repercutiram o material.

“Curitiba integra ranking de ecossistemas de startups mais promissores do mundo”, dizia o destaque na página da Prefeitura no Facebook, que tem quase um milhão de seguidores. O texto que acompanha a postagem ia mais longe: “Estamos no Top 100 do relatório como um dos ecossistemas de startups mais promissores do mundo”.

No entanto, a comemoração depende de uma visão bastante controversa do ranking. Primeiro, na lista, Curitiba é citada como emergente, não como promissora. A tradução bondosa é uma licença poética da atual administração. Além disso, o “Top 100” a que a comunicação do prefeito se refere é um ranking secundário, que só aparece depois dos verdadeiros 40 primeiros lugares. E nesse ranking secundário, Curitiba aparece em um dos últimos lugares. O ranking principal, com 40 ecossistemas, só tem uma cidade brasileira, São Paulo, em 30º lugar. 

O novo ranking da Genome, a própria startup explica, é resultado da ampliação do número de cidades estudadas pelo grupo e indica a avaliação só de quatro dos seis itens do ranking original. Desses, Curitiba – que está na faixa 91 a 100 do ranking – só pontuou bem em performance – nota 7 de 10. Nos itens financiamento, talento e dimensão do mercado as notas ficaram entre 1 e 2.

“Our ranking this year goes beyond the top ecosystems to include “Emerging Ecosystems” — the next 100 ecosystems after the top ones”

“Nosso ranking este ano vai além dos top ecossistemas para incluir “ecossistemas emergentes” – os próximos 100 ecossistemas depois dos principais”. 

No relatório, a Genome explica o que são Ecossistemas “emergentes”

Conexão Sebrae

A chegada de Curitiba à lista também acontece depois que a Genome conheceu a cidade ao vir participar do programa de startups do Sebrae na cidade. Segundo Rafael Tortato, a empresa tem um contrato com o Sebrae, cuja metodologia de análise de startups forneceria uma “régua universal” de avaliação.

É um “processo recente”, explica. O próprio Sebrae acompanha e avalia os ecossistemas de startups em todo o Paraná. Um relatório da entidade de 2019 aponta a existência de 1.032 startups nas seis regiões do estado, 164 delas na capital.

A avaliação da Genome, no entanto, se limitou a Curitiba, como explicou ao Plural Arnóbio Morelix, Chief Innovation Officer da empresa. O trabalho da Genome, além de produzir rankings de ecossistemas, é “melhorar a performance de ecossistemas de startups”. No site, a instituição aponta como um dos serviços fornecidos atrair atenção e recursos internacionais para ecossistemas locais. 

“Excite local and global audiences with broad exposure of your startup ecosystem and its highlights”.

“Empolgue o público local e global com ampla exposição do seu ecossistema de startups e seus destaques”.

Em seu site, a Genome oferta serviços para governos

Em Curitiba, além do Fundo de R$ 10 milhões que, na prática, não existe, a Genome encontrou outros indícios de sucesso, como o Ebanx, uma das mais novas startups unicórnio do país – ou seja, uma empresa cuja avaliação de mercado passou de um bilhão de dólares. O Ebanx foi criado em 2012. Em entrevista ao Plural, Arnóbio Morelix admite que o Ebanx, que não foi gerado no Vale do Pinhão, foi importante para a nota da cidade.

A realidade das outras startups da cidade, no entanto, é bastante diferente. O próprio Sebrae, no relatório de 2019, indica que das 1.036 startups analisadas na ocasião, 46% estavam ainda nas fases de descoberta e validação. E só 86 declararam ter recebido investimentos, num total de R$ 818,50 milhões.

Um ambiente promissor, o relatório da Genome informa, tem financiamento disponível especialmente nas fases iniciais, quando a ideia ainda não tem resultados capazes de atrair a atenção de fundos privados. É aí que entraria a importância de um fundo estatal de investimento em pesquisa, caso do INOVA VP, nome dado ao projeto da prefeitura.

Cidade inteligente

Prefeitura comemora no Facebook posição no ranking.

Mas afinal, qual a relevância de um ranking e de alguns posts em rede social sobre um projeto da prefeitura? Em 2020, o prefeito Rafael Greca encerra seu segundo mandato como prefeito (ele já administrou a cidade entre 1993 e 1996) como candidato favorito na eleição municipal.

Nos quatro anos, uma das bandeiras dele foi justamente ter trazido para Curitiba o título de “cidade inteligente”, conquista que ele comemorou inclusive em uma citação publicada pela Genome, no relatório sobre ecossistemas de startups.

“Pinhão Valley has put Curitiba among the 6 smartest cities in the world and included it in the Smart21, the index of most intelligent communities. Innovation moves us forward” – Rafael Greca, Mayor of Curitiba

“O Vale do Pinhão pôs Curitiba entre as 6 cidades mais inteligentes do mundo e a incluiu no Smart21, índice das comunidades mais inteligentes. A inovação nos move” – Rafael Greca, prefeito de Curitiba

Greca destaca o título de “cidade inteligente” no relatório da Genome

A evolução tecnológica prometida certamente seria uma grande vantagem neste momento desafiador, ajudando a cidade reelaborar sua vocação econômica, reduzindo os efeitos nefastos da pandemia de Covid-19 na economia.

Segundo o Sebrae, a maior parte das startups de Curitiba são justamente das áreas de educação e saúde, estratégicas neste momento. Mas apesar de ser uma “cidade inteligente”, a capital fez pouco para incluir o ecossistema a estratégia de enfrentamento da pandemia.

Para Tortato, a situação das startups na crise é variada. Há quem tenha se adaptado rapidamente à nova realidade. Outras empresas, especialmente as que dependem de laboratórios e recursos de universidades, que estão fechadas, ainda tentam se reorganizar.

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