“Só porque eu sou crioulo?”, Waltel disse ao ouvir o apelido dado por Vinicius | Plural
16 jan 2019 - 0h00

“Só porque eu sou crioulo?”, Waltel disse ao ouvir o apelido dado por Vinicius

No terceiro trecho da biografia de Waltel Branco publicada pelo Plural, Felippe Anibal conta como o músico conheceu Garoto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

Por Felippe Anibal

Aos poucos, Waltel passou a ir mais e mais ao Rio de Janeiro. Ficava por curtos períodos – uma ou duas semanas –, chegava a tocar em bares e boates de menor expressão e voltava a Curitiba. Até em puteirinhos sem o menor prestígio o violonista chegou a se apresentar para defender um cachê mixo que lhe ajudasse a bancar as despesas de viagem. Nessas incursões de tiro curto, ficava hospedado na casa de dona Tereza, uma pensão familiar perto do Posto 6, entre Copacabana e o Leme.

Era uma fase em que o músico ainda tateava o próprio caminho, procurando encontrar seu rumo. Tentava começar a ampliar sua rede, se fazer mostrar aos poucos. Sempre dava um jeito de conversar com Radamés Gnattali – já aos 48 anos de idade – que assumia ares quase de um padrinho de Waltel. O maestro encorajava o jovem violonista a ficar de vez no Rio, já que, uma vez fixado, seria mais fácil conseguir uma colocação. Gnattali costumava a aconselhar:

“Ninguém se mantém em pé por muito tempo, enquanto tem um pé em cada canoa, rapaz.”

“Mas tem que ser um passo de cada vez”, respondia Waltel.

Leia o primeiro trecho da biografia publicados no Plural:

A relação quase paternal que Radamés mantinha com o jovem não ficava só na conversa. Em uma dessas incursões ao Rio, no início de 1954, Waltel foi despertado em uma manhã de sábado por uma buzina insistente. Pela janela da pensão de dona Tereza, viu que Gnattali e sua esposa, Vera, lhe acenavam do carro. “Vamos, rapaz! Vamos”, gritava o maestro. Sem entender muito bem o que se passava, Waltel lavou o rosto às pressas, meteu um paletó no corpo e embarcou. Em pouco tempo, estavam na estrada. Pouco mais de cem quilômetros adiante, chegavam ao destino: um sítio, localizado às margens do Rio Piabanha, no município de Areal.

A propriedade pertencia a Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, que já esperava pelos visitantes. “Este é o rapaz de quem lhe falei”, disse Radamés. Waltel mal podia acreditar. Tinha Garoto como uma de suas maiores referências, tanto por seu virtuosismo, quanto pela versatilidade – dominava o violão, banjo, cavaquinho, guitarra elétrica, bandolim, guitarra havaiana e guitarra portuguesa.

Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto.

O “rapaz” admirava o multi-instrumentista consagrado não só por causa de composições que se tornaram sucessos retumbantes, como o dobrado “São Paulo Quatrocentão” (em parceria com Chiquinho do Acordeon e que vendeu mais de 700 mil cópias), mas também pelas celebradas apresentações de Garoto na Rádio Nacional – onde, inclusive, integrou a orquestra do programa “Um milhão de melodias”, que era regida por Radamés.

O que mais fascinava Waltel, por sua vez, era o Trio Surdina, formado por Garoto, Chiquinho do Acordeon e Fafá Lemos e que, no ano anterior, havia sido eleito como melhor conjunto instrumental do país, pelas revistas “Carioca” e “A Noite Ilustrada”. O jovem conhecia e tocava de cor tudo que o trio havia gravado, desde o primeiro sucesso, “Baião caçula” (Mário Genari Filho), a “Duas contas” (Garoto) e “Reloginho da vovó” (Garoto) – esta última, registre-se, viria a ser apontada por alguns críticos como “pré-Bossa Nova”).

A tarde se estenderia em uma roda de choro, que teria Garoto e Waltel ao violão, Radamés à flauta e Furinha ao clarinete. Nos momentos mais instigantes, os instrumentos de sopro segurariam a onda para que Waltel e Garoto se sucedessem em uma espécie de duelo musical de improviso – inclusive sobre o repertório do Trio Surdina. Quando soube que o jovem morava em Curitiba, Garoto lembrou de uma temporada que passou na cidade, em 1946, quando se apresentou no Cassino do Ahú e no Círculo Militar.

O instrumentista gostou tanto de sua estadia na capital paranaense que a passagem lhe rendeu uma série de composições, entre as quais “Chorinho do Ahú”, “Por quem os sinos dobram” e uma valsa dedicada a Curitiba. Perguntou, ainda, por amigos que fez na época, como Zé Maria e Odilon, com quem costumava passear pela Rua XV. A prosa e a afinidade musical fizeram com que Garoto se afeiçoasse a Waltel, tanto que, no dia seguinte, fez questão de que Gnatalli convidasse o jovem para nova roda de choro, desta vez no sítio de Radamés, que ficava exatamente ao lado. Nesta ocasião, José Vasconcelos se juntaria ao grupo. De tanto ouvir o maestro se referir a Waltel como “rapaz”, Garoto passou a fazer uma piada recorrente: “A gente poderia formar um duo: Garoto e Rapaz”, dizia.

Waltel mal podia acreditar. Tinha Garoto como uma de suas maiores referências, tanto por seu virtuosismo, quanto pela versatilidade

Nos primeiros meses de 1954, Garoto viria a compor alguns choros justamente naquelas reuniões. Entre eles, estão “Isqueiro teimoso”, “O que é isto? Francamente!”, “Banho de sauna” e “Lampião de querosene”, além de “Nisso, pelaram a horta” – este, dedicado a Vera Gnatalli. Waltel contaria que em todas as vezes seguintes que foi ao Rio se encontraria com Garoto. Isso até maio do ano seguinte, quando o multi-instrumentista morreria, vítima de um ataque cardíaco, quando articulava uma excursão pela Europa. Waltel viria a homenagear o amigo com o choro “Saudade do Garoto”.

No Rio, um incêndio trágico

Três meses depois da morte de Garoto, Waltel fez mais uma dessas viagens ao Rio, mais uma vez na tentativa de preparar terreno para uma mudança em definitivo. Desta vez, contudo, foi testemunha de uma tragédia da qual jamais se esqueceria. O músico havia passado a tarde daquele domingo, 14 de agosto, na praia de Copacabana e voltava à pensão pouco depois de o sol ter se posto. Da Avenida Atlântica, era possível ver uma densa fumaça preta que saía de um dos prédios e uma aglomeração de pessoas que acorreram na tentativa de ajudar de alguma forma ou que simplesmente pararam, curiosas, diante do incêndio.

Leia o segundo trecho publicado pelo Plural:

Chegando mais perto, Waltel viu que o que ardia em chamas era o Vogue, aquele hotel luxuoso, cuja boate o fascinara. Um dos populares informou que, já com o incêndio consumindo o edifício, algumas pessoas que estavam no térreo e nos patamares inferiores conseguiram escapar. Um dos que se salvaram, um homem de abastado bigode, ainda estava por ali. Era o baterista Dom Um Romão, que teve que saltar do primeiro andar para sair do Vogue. Waltel chegou a conversar brevemente com ele: se estava tudo bem, se queria um copo de água. Anos depois, trabalhariam juntos.

Pouco depois, chegariam os bombeiros. Incontáveis carros e caminhões seriam destacados para tentar debelar o fogo e resgatar os hóspedes que ainda estavam no prédio de 12 andares. De quando em quando, um deles aparecia a uma das janelas do 10º andar e punha metade do corpo para fora. Era o jovem cantor norte-americano Warren Hayes. Após a explosão de uma caldeira, o hotel estremeceu e três homens que estavam acuados pelas chamas saltaram quase ao mesmo tempo. Entre eles, estava Hayes. Os outros dois eram o jornalista e relações públicas do Vogue, Raul Martins, e o belga André van Rijswir. Todos morreram.

De seu apartamento no 8º andar e de onde não conseguia sair, João Dantas Ribeiro, viu tudo. Dantinhas – como era conhecido – era um homem da noite, frequentador dos locais mais requintados e morava no Vogue havia apenas três dias. Conforme relatou posteriormente ao repórter Joel Silveira, da revista Manchete, ele pensou em escrever uma carta de despedida aos familiares e atirá-la pela janela, porque pensou que iria morrer. Abandonou a ideia, no entanto, e decidiu que tentaria se salvar. Para isso, umedeceu lençóis e fez uma “teresa”, que atou no braço de ferro da veneziana. Seu plano era chegar à escada Magirus dos bombeiros, que chegava só ao sexto andar.

O sangue frio de Dantinhas foi tamanho que ele vestiu terno e gravata e, antes de se pendurar janela afora, ainda espetou caprichosamente um alfinete de pérola na lapela do paletó. Antes de se agarrar à “teresa”, viu que o pano não alcançava a ponta da Magirus. Angustiado, engoliu seco. Precisava descer de outro modo.  Gritou então ao bombeiro que estava no último degrau da escada, pedindo que lhe jogasse uma corda. Só na quinta tentativa é que Dantinhas conseguiu segurá-la e, então, pôde atá-la à veneziana.

O incêndio da Vogue.

“Escorreguei então por ela, lentamente, lentamente, até alcançar a ponta da escada e, logo depois, inacreditavelmente vivo, o chão. O pesadelo que já durava duas horas (dois séculos!), parecia, enfim, terminado”, narrou Dantinhas à Manchete.

Waltel chegou tarde da noite à pensão, mas não pôde dormir. No dia seguinte, leria sobre a tragédia nos jornais cariocas. O Diário Carioca trazia impressionantes fotos do instante em que Hayes, após ter se atirado da janela, voava em direção ao chão. Os bombeiros haviam encontrado ainda o corpo do casal Waldemar e Glorinha Schiller, carbonizados em uma banheira. Eles tinham se casado três meses antes. No meio musical, os colegas de Waltel sacramentavam: o fim do Vogue era também o fim de uma era.

A rádio e o convívio com as estrelas

Um ano depois – no segundo semestre de 1956 – Waltel desembarcaria novamente no Rio, mas, desta vez, iria para ficar. Levava consigo apenas uma mala de mão, um violão – também Di Giorgio, que substituíra o instrumento confiscado no Uruguai – e, talvez o mais importante, os contatos de Radamés Gnatalli. Na carteira do jovem, havia cruzeiros em quantidade suficiente para manter-se por não mais que uma semana. Por isso, precisou fazer um acordo com dona Tereza, para pagar a hospedagem ao fim do mês – e não adiantar o pagamento, como era praxe. De cara, foi procurar pelo maestro. “Rompi o cordão umbilical. Agora, ‘tô com o pé numa canoa só”, disse Waltel.

Diferentemente do que previam uns poucos colegas de Curitiba – que, como se quisessem lhe agourar a sorte, repetiam que Gnattali estaria “cozinhando” o rapaz, o renomado regente da Rádio Nacional trouxe o forasteiro para debaixo de sua batuta: garantiu que trabalho haveria. Para Waltel, era um ótimo presságio, que se confirmou já na semana seguinte, quando passou a ser escalado para as primeiras gravações como violonista e guitarrista, por indicação de Radamés. As gravações eram para trabalhos pequenos, sem expressão, é verdade. Mas, por outro lado, garantiriam algum dinheiro e dava a oportunidade de Waltel começar a “fazer nome”.

Também graças à intervenção do maestro, Waltel passou a prestar os primeiros trabalhos à Rádio Nacional. Não começou como músico contratado, mas recebendo um cachê a cada convocação. No princípio, quase se deslumbrou com as dimensões da Nacional, em que tudo parecia colossal – principalmente em comparação, por exemplo, com a PRB-2 de Curitiba. Entretanto não houve tempo para se impressionar tanto, nem com os sete estúdios, nem com os batalhões de instrumentistas. Havia produções constantes, de modo que a rádio não parava.

No começo, Waltel integraria, como violonista ou guitarrista, o time que executava passagens (uma espécie de interlúdio, que amarra as cenas de uma radionovela), jingles publicitários e efeitos (músicas incidentais), além de prefixos e sufixos (temas que funcionavam como abertura e encerramento de programas). Como o tempo era escasso, praticamente não havia ensaio. Na maioria das vezes, mal as partituras chegavam, corria-se o olho pelo papel, colocava-o no stand e esperava-se os sinais do regente para tocar. Por isso, músicos fluentes como Waltel eram tão demandados – conforme havia observado Radamés, no primeiro encontro entre os dois.

Assim, o “novato” logo deixou a incerteza das escalações em que tapava buraco, para ser efetivado como músico da Nacional. De uma hora para outra, se viu convivendo com os melhores maestros da república, como Gustavo “Guaraná” de Carvalho, Lindolfo Gaya, Alceo Bocchino e Lyrio Panicali, e com instrumentistas da estirpe de Dilermando Reis, Fafá Lemos, Luiz Bonfá e Zé Menezes. Além de estabelecer uma relação bastante próxima com Radamés, Waltel se tornaria grande amigo de outro craque da batuta: César Guerra-Peixe.

Não tardou para que Waltel conquistasse a confiança dos maestros e passasse a ser chamado para fazer parte das orquestras que davam respaldo aos programas de auditório. Ali, o violonista pôde ter a noção exata do fenômeno que era a Rádio Nacional. Em regra, as apresentações começavam às quatro da tarde. Por isso, desde às duas, os músicos já permaneciam a postos. Havia tempo para passar o repertório uma única vez com os respectivos cantores, antes do início do “pra valer”. As filas que se formavam diante do edifício “A Noite” – onde ficava a rádio – eram indício de quão disputados eram os programas.

Quando a luz vermelha se acendia, indicando que o programava estava no ar, e os cantores adentravam o palco, as fãs enlouquecidas que lotavam os auditórios faziam um alarido ensurdecedor, a ponto de os músicos mal conseguirem ouvir o que tocavam. A histeria chegava a patamares estratosféricos e algumas das tietes desmaiavam e faziam menção de rasgar as próprias roupas. A comoção talvez explicasse o que o Ibope havia apontado no ano anterior: que a Rádio Nacional era líder absoluta, com 42,5% de audiência. E quem provocava tanto frisson? Astros como Francisco Alves, Marlene, Emilinha Borba, Ary Barroso e Cauby Peixoto (este, chegou a receber mais de três mil cartas de fãs em um único mês).

Era época em que reinava absoluto o samba-canção, com suas doses cavalares de romantismo em tom intimista – quase confessional –, feito para que os casais dançassem coladinhos, e cuja letra, no mais das vezes, tratava de amores devassados e doloridas separações. A essa altura, também, começava a ganhar força um novo jeito de cantar mais sussurrado – “moderno” –, que teve Dick Farney como um de seus desbravadores. Eram tempos de rivalidades, principalmente entre as cantoras de rádio.

No mais das vezes, as disputas eram criadas pelas próprias emissoras e propagadas em revistas especializadas, em uma espécie de golpe de marketing para alavancar a popularidade das estrelas. Nesta esteira, digna de nota foi a “rivalidade” entre Dick Farney e Lúcio Alves. As aspas decorrem do fato de que os dois eram amigos e jamais travaram qualquer concorrência. O embate era fruto de seus respectivos fã-clubes. Ao membro do grupo de admiradores de Dick, era proibido admitir que ouvia Lucio. E vice-versa. Em 1956, entretanto, a pendenga já estava sepultada havia dois anos, desde que os cantores gravaram em dueto “Tereza da praia” (de Tom Jobim e Billy Blanco), um samba que poderia ser considerado pré-Bossa Nova. Waltel assistia a tudo de perto. Para ele, era uma virada e tanto. Estava tocando e/ou convivendo com estrelas que pouco tempo atrás apenas ouvia do rádio, cantando as mesmas canções. Nem por isso, no entanto, deixaria se afetar.

“Quando ele vinha a Curitiba visitar a família, a gente perguntava, ficava querendo saber como eram as coisas na [Rádio] Nacional, no Rio, como era tal artista, se era tudo aquilo mesmo. O Waltel sempre minimizava, dizia que era normal, que era como aqui, só que maior. E ele achava normal mesmo. Nunca se sentia mais que ninguém por estar lá. Não tinha deslumbre. Ele sempre dizia: ‘Se você for [ao Rio], vai se dar bem também’. É claro que ele tinha a dimensão do que era a Nacional, mas nunca vi estufar o peito para tirar onda disso”, lembraria o amigo e pianista Gebran Sabbag.

Na boemia, a disputa com os puristas

Assim como seus colegas de Rádio Nacional, após o expediente, Waltel passou a deixar o violão repousando e passou a frequentar um circuito de bares no centro do Rio. Como as emissoras de rádio, as redações de jornais e as repartições públicas ficavam por ali, os botequins concentravam uma categoria especial de boêmios, formada por jornalistas, escritores, intelectuais e, é claro, cantores e instrumentistas. As mesas reuniam figuras como Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Antonio Maria; o radialista Haroldo Barbosa; e colegas famosos, como Silvio Caldas, Aracy de Almeida, Dolores Duran, Ary Barroso, entre uma legião de outros.

Waltel não se considerava boêmio por um único motivo: não bebia. Enquanto seus colegas de botequim entornavam copo atrás de copo – fosse de cerveja ou uísque –, o violonista não tinha o menor pudor em bebericar um copo de guaraná e comer pastel. Na degustação do petisco, aliás, quase sempre tinha a companhia ilustre de Pixinguinha, que não era de resistir ao tira-gosto – principalmente, se fosse de carne moída com ovo cozido. No mais, Waltel não cedia ao assédio de uns, como Antonio Maria, que sempre insistiam por um brinde e não deixava de se impressionar com a “sede” voraz de Dolores. “Ela bebe como um homem!”, espantava-se. Também não acedeu à moda do cigarro, em que homens e mulheres aderiram em massa, à guisa de parecerem mais elegantes. Não foi seu histórico de problemas pulmonares na infância que fez com que Waltel permanecesse distante do tabaco, mas uma razão muito mais prosaica: “Esse negócio é fedido paca”, justificava. O cheiro também o fez ficar longe de outro tipo de fumo, cujo consumo começava a aumentar em algumas rodas de músico: a maconha.

Dos bares da região, Waltel tinha predileção pelo Vermelhinho, que ficava em frente à sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a dois quilômetros da Nacional. Foi ali, sentado a uma das cadeiras de palhinha, que ele teve intermináveis discussões sobre jazz com o jornalista Lucio Rangel e com o sobrinho deste, o também jornalista Sergio Porto (que escrevia também sob o pseudônimo Stanislaw Ponte Preta). Os cronistas eram puristas: defendiam que o verdadeiro jazz era aquele criado pelos músicos negros do Delta do Mississipi, qual Louis Armstrong e King Oliver. Fiéis às origens deste estilo, os dois abominavam o saxofone – porque o instrumento não fazia parte da primeira formação do jazz. Também execravam orquestras, como a de Benny Goodman, que faziam uso de arranjos escritos – no mais das vezes, escritos e compostos por brancos. Também viam com reservas os conjuntos e orquestras de jazz que faziam sucesso comercial e a integração de músicos brancos.

Stanislaw Ponte Preta: um purista do jazz.

Para Waltel, tudo isso era besteira. Argumentava que a música, seja qual for, sempre evolui e que não se pode ficar preso ao passado. O que deve ser determinante é a qualidade, não outros elementos. Se a incorporação de novos instrumentos – como o saxofone – fosse para agregar ao estilo, que estes fossem bem-vindos. Waltel também não entendia a segregação racial que Rangel e Porto apregoavam, segundo a qual somente jazzistas negros é que poderiam se dedicar ao estilo. “E desde quando música tem cor?”, devolvia o guitarrista e violonista (convém ressaltar) negro. Os jornalistas ainda eram veementemente contra o bebop, uma corrente do jazz que tinha Dizzy Gillespie como um de seus grandes expoentes. Para Lucio e Sergio, aquele som causava ojeriza: consideram-no como lixo musical. Meio que para esquentar a discussão, Waltel defendia a corrente e, a título de gozar os amigos, dizia: “E eu ainda vou tocar com o Dizzy Gillespie. Anotem aí”. O músico não tinha ideia, mas a profecia viria a se cumprir anos mais tarde.

Um boêmio que não bebe

Pelas mãos – ou melhor, pelos copos – dos colegas da Nacional, por essa época, Waltel foi pela primeira vez à Casa Villarino, também no Centro. Reduto de uma fauna vasta de boêmios, o espaço lhe chamava a atenção por suas particularidades. Assim que se chegava ao lugar, este parecia se tratar de uma mercearia. Já de fora, era possível ver as caixas de frutas e os peixes expostos. Só quem chegasse ao fundo é que encontraria suas poucas mesas, ocupadas por gente do quilate do cronista Paulo Mendes Campos e de Dorival Caymmi, entornando doses cavalares de uísque, principalmente Black Label.

Para Waltel, o purismo de Stanislaw Ponte Preta era besteira. Argumentava que a música, seja qual for, sempre evolui e que não se pode ficar preso ao passado

Waltel não chegou a ser propriamente um frequentador assíduo, mas, vez ou outra, se deixava arrastar até o Villarino pela turma da Rádio – notadamente, por Dolores Duran, que, de tão habituè, soava como se fosse parte da decoração da casa. Foi naquelas mesas que o violonista conheceu outras figuras que sempre davam as caras por ali. Um deles era certo pianista conhecido por Tom Jobim, que ainda vivia “apostando corrida com o aluguel”, embora já tivesse trocado a rotina de varar a madrugada, tocando em boates, para ser arranjador da gravadora Continental e, posteriormente, da Odeon. A essa altura, Tom já havia composto “Teresa da praia”, com Billy Blanco, e, mais que isso, havia sacramentado sua parceria com Vinicius de Moraes, com o “Orfeu da Conceição”.

“Eu ainda vou tocar com o Dizzy Gillespie. Anotem aí”. O músico não tinha ideia, mas a profecia viria a se cumprir anos mais tarde.

O Villarino, aliás, foi o local em que Tom e Vinicius selaram sua parceria – embora já se conhecessem antes. Também foi na casa que Waltel entrou para o seleto rol de amigos do poeta-embaixador, que acabara de retornar de Paris. Assim que o instrumentista lhe foi apresentado, Vinicius achou graça do modo afável do rapaz e achou por bem lhe botar um apelido: Bola Sete. “Só porque eu sou crioulo!?”, reagiu Waltel. Por fim, o próprio Vinicius concluiu que o epíteto causaria confusão, já que havia outro Bola Sete – o também violonista, que tinha por nome de batismo Djalma de Andrade e que também era do time da Rádio Nacional. Não se sabe se no mesmo dia, mas o poeta viria a coroar Waltel com outro codinome, justamente pelo fino-trato e educação que dispensava aos amigos. “Monsieur Blanc. Com esse ar de nobreza, esse crioulo só pode ser francês”, cravou Vinicius.

No Vermelhinho, no Villarino e em seus congêneres, os boêmios permaneciam até por volta das nove horas da noite. Depois, esticavam até Copacabana, onde emendavam em outros bares e boates. Alguns músicos da Rádio da Nacional chegavam a varar a madrugada e iam trabalhar virados no dia seguinte. Waltel não. Fazia questão de dormir, nem que fossem umas poucas horas, para se apresentar bem. Para ele, era providencial morar em Copacabana. Quando a turma já estava alta pelo excesso de scoth, o músico abstêmio costumava sair à francesa e caminhar até a pensão de dona Tereza. Quando os colegas de boemia davam pela falta dele, Waltel já estava no quarto sono. Adiante, quando era cobrado pelos companheiros, se fazia de bobo. “Eu me despedi de vocês, sim. Vocês é que estavam bêbados e nem viram”.

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