Sidónio Muralha, o poeta viajante que aportou em Curitiba | Jornal Plural
29 jul 2020 - 9h52

Sidónio Muralha, o poeta viajante que aportou em Curitiba

Helen Butler Muralha, viúva do escritor português, fala sobre a fundação que cuida do legado de 35 livros de prosa e poesia para adultos e crianças

Este pandêmico 29 de julho marca os cem anos de nascimento do poeta e ficcionista português Sidónio Muralha, morto em 1982. Seu legado inclui 35 livros de prosa e poesia, 15 deles escritos para crianças.

Nascido em 1920, o lisboeta Pedro Sidónio de Araújo Muralha viveu 62 anos de uma jornada intensa, que incluiu ter seu nome na lista dos neorrealistas portugueses de primeira geração; um exílio de 17 anos no então Congo Belga, durante a ditadura de Salazar; um casamento que (teve início por procuração e) lhe propiciou uma família com quatro filhos; viagens por mais de 20 países; residência no Brasil onde fundou uma editora de livros infantis; e, após o falecimento de sua primeira esposa, um amor profundo por uma médica obstetra curitibana, que o fez passar seus últimos anos na capital paranaense.

Muralha de livros: formato retangular das obras infantis editadas pela Giroflé lembra caixas de lápis de cor. (Foto: Jaqueline Conte)

 “Tu que foste a minha vida, sê a vida em minha morte.” Esse trecho final de um poema de amor inédito de Sidónio Muralha parece profético. Sua memória e seu trabalho na literatura seriam mantidos vivos pela vida e pelas ações de sua segunda esposa, Helen Anne Butler Muralha, com quem o escritor foi casado por um período curto e intenso de quase cinco anos, entre 1978 e 1982.

Em 1988, seis anos após a morte do poeta, Helen (hoje com 89 anos) se uniu a amigos e familiares para criar a fundação que leva o nome do escritor. A instituição funciona na casa onde a médica nasceu, na avenida Westphalen, no bairro Rebouças, e realiza um trabalho incessante na divulgação da obra do poeta e na promoção de atividades culturais variadas. É o que diz Helen Butler Muralha, na entrevista a seguir.

Sidónio fez parte da primeira geração do neorrealismo português, corrente literária que começa em Portugal em 1930, com preocupação social e contrária ao Estado Novo, de Antônio Salazar. Em que seu trabalho artístico influenciou na sua vida prática? E por que ele costuma ser chamado de “poeta viajante”?

Como poeta e escritor, Sidónio engajou-se ativamente contra a ditadura vigente, chegando a ser carregado em triunfo pela avenida da Liberdade, em Lisboa, ao conseguir o segundo lugar em um concurso de poesia. Desta forma, incomodando o governo, ele e o grande amigo Alexandre Cabral, a fim de não serem presos e torturados pela PIDE [Polícia Internacional e de Defesa do Estado], resolveram sair de Portugal, aceitando oferta de emprego na Unilever Internacional. E assim foram para o Congo Belga, onde chegou ao cargo de diretor-geral para aquela região, mediante cursos de administração e organização financeira. Lá permaneceu até o movimento de independência, quando auxiliou ativamente na evacuação dos moradores, incluindo seus empregados negros. Há uma entrevista em que Sidónio dá o tom: “Poesia e Organização podem salvar o mundo. Com disciplina, economia de meios, ordenação harmoniosa de ideias e emoções, poesia e organização se confundem”. Pela sua atividade no Congo, ele realizou inúmeras viagens pela Europa, pela própria África e mesmo pelo Brasil; e tendo que controlar equipes de organização, viajou muito. Talvez por isso seja chamado de poeta viajante. Ele mesmo se considerava um “português cidadão do mundo”. 

Helen Butler Muralha, em primeiro plano, durante um piquenique literário, em 14 de março: o primeiro evento para marcar o centenário de Sidónio. (Foto: Jaqueline Conte)

Na literatura infantil, Sidónio tinha especial predileção por falar dos animais. Talvez a maioria dos poemas infantis dele trate de pássaros e bichos. Ele brincava com a linguagem sempre com muito humor, ironia, muitas figuras de linguagem e até nonsense. Foi um dos pioneiros da literatura infantil sem compromissos didáticos, sem ser um mecanismo de introjeção de valores morais, como era grande parte da produção da época. Isso pressupõe que ele via as crianças de uma forma diferente. É isso mesmo? Qual era a relação dele com as crianças e com a produção literária destinada a elas?

Sidónio teve uma curiosidade pelas crianças que era recíproca. Em ambientes diversos, elas corriam para ele, ao olharem pela janela traseira de um carro, elas acenavam para ele, que era sempre meu carona. Uma frase dele sintetiza o seu propósito: “Sempre me interessei pelas crianças e dou tudo o que tenho de melhor para dar, quando escrevo para elas. Que moldem um futuro que nos possa resgatar dos muitos erros que cometemos”. Dirigia-se à musicalidade, aos trocadilhos, para que a criança recebesse um conto infantil como um balão para ser lançado ao ar e com ele brincar.

No Brasil, com outros dois portugueses – o escritor Fernando Correia da Silva e o pintor Fernando Lemos –, Muralha criou a Giroflé, considerada uma das primeiras editoras do Brasil dedicadas a livros infantis, responsável por lançar inclusive “Ou isto ou aquilo”, de Cecília Meireles. A senhora poderia contar um pouco dessa história?

Ao sair do Congo, Sidónio recebeu da empresa Unilever uma indenização e resolveu investir o dinheiro na criação de uma editora destinada à renovação da literatura infantil. O foco seria em livros, jogos, brinquedos, cinema… O público-alvo seriam as crianças e os jovens. O nome Giroflé deriva de uma dança de roda francesa antiga, inspirada numa flor. Chegaram a publicar “A televisão da bicharada”, do próprio Sidónio, ilustrado por Fernando Lemos, companheiro e idealizador nesta jornada, ganhando o 1º prêmio na 2ª Bienal do Livro de São Paulo. Ainda “Psiu”, de Gerda Brentani, “O sindicato dos burros”, de Fernando Silva, “A arca do senhor Noé”, de Guilherme Figueiredo, e a primeira edição de “Ou isto ou aquilo”, de Cecília Meireles. O formato retangular dos livros lembrava as caixas de lápis de cor. Pela orientação de Fanny Abramovich, coletaram-se desenhos de crianças da rede escolar de São Paulo formando-se coleções de postais em estojos para presente. Com o envolvimento de escritores, artistas plásticos, psicólogos, pedagogos, adesão de alunos de arquitetura, nasceu em 1961 a editora, com todo o empenho em cumprir seus propósitos. Porém, em 1964, surgiu um Ato Institucional [n. 5] que começou a trazer expectativas sombrias, acrescidas a manobras de empresas fortes no mercado para dificultar a chegada das edições da Giroflé às livrarias. A fim de evitar a falência, esvaíram-se os dólares aportados por Sidónio e assim terminou a empreitada.

A senhora é uma das médicas obstetras com mais tempo de atividade no Paraná. Formou-se em 1954, pela UFPR, e até os 82 anos ainda fazia partos. Suspendeu o atendimento em consultório só em março deste ano, em função da pandemia de coronavírus. Com uma vida sempre tão movimentada, o que a levou a criar a Fundação Sidónio Muralha e quem participou desse processo?

Chegando a essa fase da vida, posso concluir que tudo tem origem em uma cadeia de acontecimentos que nem sempre nos parece harmoniosa. Na época de ginásio, conheci Ondina de Souza, uma figura peculiar em Curitiba por se envolver em todos os acontecimento culturais da cidade e que se tornou, também, amiga de Sidónio. Logo após a morte de Sidónio, ela sugeriu que eu fizesse um movimento, através de uma lista de assinaturas, o que não foi difícil, para dar o nome dele a uma biblioteca da Fundação Cultural de Curitiba, o que aconteceu em 29 de julho de 1983. Como orientadora, Maria Angela Monteiro Raio exerceu uma atividade intensa e proveitosa nesse espaço e, para mim, parecia que Sidónio não havia morrido, apenas  trocado de casa. Portanto, para mim foi muito difícil saber que a biblioteca seria desativada em função de um projeto de cadastramento de crianças de rua desenvolvido pela esposa do prefeito atual na cidade e com o pretexto de que, devido a rachaduras, o prédio poderia ter problemas sérios. Nessa ocasião, renovou-se a minha dor de dezembro de 1982, mas, graças à sugestão de Maria Angela, tal como a Fênix, surgiu a Fundação Sidónio Muralha, entidade que tem como instituidores Eduardo Wagner de Sousa, Maria Beatriz Muralha de Sousa e Mario Jorge d’Almeida Muralha.

A fachada da Fundação Sidónio Muralha, na rua Desembargador Westphalen, 1.014, no Rebouças. (Foto: Cláudio Sehnem)

Que trabalhos a fundação desenvolve hoje?

A fundação detém e administra os direitos autorais das obras e realiza ações e projetos de incentivo à leitura. Também funciona na sede da fundação a Biblioteca Helena Kolody, com livros infantis, e a biblioteca da Sala Sidónio Muralha, com livros para adultos. Esses espaços são (exceto no período da pandemia) abertos ao público, no horário de funcionamento da instituição, de terça a sexta-feira, das 8h às 12 horas. Qualquer cidadão pode se cadastrar e retirar livros. A fundação também é espaço para outras atividades culturais. Nela se reúnem mensalmente o Grupo Leto de Curitiba, que reúne imigrantes da Letônia, a fim de preservar a cultura desse povo, meus ascendentes, inclusive. E também a Camerata Ars Nova, coro que pesquisa e divulga obras sobretudo de música antiga, da Polifonia (século IX) ao Barroco (séc. XVII). Atualmente, o trabalho da Fundação está focado nas atividades relacionadas ao centenário de Sidónio. Em 14 de março, logo antes do distanciamento social, realizamos um Piquenique Literário, com contação de histórias e brincadeiras literárias a partir das obras dele.

A pandemia atrapalhou as comemorações do centenário? Que ações estão sendo pensadas para marcar a data?

Atrapalhou porque prevíamos realizar outros eventos presenciais, incluindo uma grande exposição na Biblioteca Pública do Paraná e colóquios no Brasil e em Portugal. Com a pandemia, optamos por transferir os eventos maiores para o ano que vem. Neste ano, em parceria com a BPP e colaboradores voluntários, estamos divulgando poemas de Sidónio em pequenos vídeos, nas redes sociais da BPP e da Fundação, a fim de que a população possa se aproximar mais de sua obra. Também haverá outras atividades virtuais, como lives e o lançamento do novo site da fundação e de perfis nas redes sociais.

Apesar de uma produção considerável para adultos, Sidónio é mais conhecido pela produção para crianças. No Brasil, sete de seus livros infantis continuam sendo editados, pela editora Global, mas a poesia e a prosa adultas dele, apesar da qualidade, não são mais publicadas aqui e, ao que consta, nem em Portugal. É objetivo da fundação resgatar a produção adulta de Sidónio?

Estamos com o projeto de reeditar um livro com a obra completa de poesia. Este livro foi publicado em Portugal em 2002, pela intermediação do irmão, Fernando Muralha. E agora, com o interesse e a disposição de outros colaboradores, pretendemos levar adiante esse propósito.

Existem trabalhos inéditos dele? Há intenção de publicá-los?

Sidónio me considerava “secretária arquivista” e, como tal, encontrei bastante material inédito que poderia ser publicado, mas isso mereceria uma análise muito cuidadosa. Ele criticava muito as publicações póstumas, como no caso de Pablo Neruda, que, segundo ele, corriam o risco de comprometer a obra do escritor.

Quais eram, na sua opinião, as características mais marcantes de Sidónio Muralha, enquanto pessoa e enquanto autor, e qual é o seu grande legado?

A poesia de Sidónio merece ser lida porque, como ele mesmo dizia: “Escrever é participar. É uma forma de alertar as consciências, tentar construir um mundo mais decente e mais limpo. Calar é ser conivente”. Ele também dizia: “É preciso muita coragem para dizer sempre a verdade, de maneira apaixonada e sincera, defender o que é justo, doa a quem doer”.

Live

Nesta quarta-feira (29), às 19 horas, as Trilhas Literárias fazem um tributo ao poeta Sidónio Muralha, com Jaqueline Conte e Tatjane Garcia, no Facebook.

Atrás dos muros altos com garrafas partidas
bem atrás das grades do silêncio imposto
as crianças de olhos de espanto e de medo transidas
as crianças vendidas alugadas perseguidas
olham os poetas com lágrimas no rosto.

Olham os poetas as crianças das vielas
mas não pedem cançonetas mas não pedem baladas
o que elas pedem é que gritemos por elas
as crianças sem livros e sem janelas
as crianças dos versos que são como pedradas.

“Os olhos das crianças”, de Sidónio Muralha. Publicado em “Obras completas do poeta”. Lisboa: Universitária, 2002, p. 97.
Se puder, assine o Plural. Você pode escolher o valor que quer pagar. Isso faz muita diferença para nós: ser financiados por leitoras e leitores. As assinaturas nos mantêm funcionando com uma equipe que hoje tem oito pessoas e dezenas de colaboradores. Somos um jornal que cobre Curitiba em meio aos obstáculos da pandemia e fazemos isso com reportagens objetivas, textos de opinião e de cultura, charges e crônicas. Obrigado pela leitura.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Notícias