Sicupira – Vida e gols de um craque chamado Barcímio
24 set 2020 - 14h57

O jogador de futebol que deu autoestima para o curitibano

Na biografia de Barcímio Sicupira Júnior, herói do Athletico, o jornalista Sandro Moser narra uma parte importante da história de Curitiba

O Santos tem Pelé. O Botafogo, Garrincha. E o Athletico Paranaense tem Sicupira, um desses personagens grandes demais para ficar só no campo de futebol.

A narrativa sobre a vida de Sicupira, o craque da camisa 8, é também uma parte importante da história de Curitiba e o jornalista Sandro Moser constrói esse argumento com uma prosa elegante e bem-humorada no livro “Sicupira – Vida e gols de um craque chamado Barcímio”.

O lançamento da biografia terá pompa e o próprio Barcímio Sicupira Júnior, de 76 anos, em um drive-in na Pedreira Paulo Leminski.

Metáfora

No Brasil, o futebol nunca é só futebol. Ele é uma experiência artística, religiosa, social… É uma baita metáfora. Nesse contexto, a ascensão de Sicupira nos anos 1960 significa algo que vai além do esporte.

Fazendo gols espetaculares entre 1957 e 1975, Barcímio e seu bigode levantaram a autoestima do curitibano. Tanto que torcidas rivais da cidade chegaram a se reunir para torcer por ele quando disputava partidas decisivas vestindo a camisa de times paulistas como o Corinthians de Rivellino.

Sicupira começou a carreira profissional no Atlético Ferroviário, de Curitiba, em 1957. Antes de completar 20 anos, estava tabelando com Garrincha no Botafogo do Rio de Janeiro. “Parecia um sonho, e era”, escreve o biógrafo.

Depois, ele passou uma temporada no Botafogo de Ribeirão Preto, onde conseguiu fazer um pé-de-meia, depois voltou a viver no Alto da XV e passou a defender o Athletico.

Chegou a ser emprestado para alguns times, como foi o caso com o Corinthians, mas ficou no rubro-negro até o fim.

Um homem e seu tempo

Sicupira tirou de letra a revolução dos costumes nos anos 1960 e até antecipou certas tendências. É um homem vaidoso, que sempre gostou de se vestir bem, algo raro 50 anos atrás.

“[O livro] é a saga de um personagem marcante da cidade, que serve para contar, no fundo, a história da própria cidade, que foi se transformando ao longo dos anos”, diz Moser, que teve acesso a figuras como Gérson, Rivellino e Galvão Bueno, todos com coisas para contar a respeito de Sicupira.

Hoje, o ex-jogador e atual comentarista de futebol prefere ver os outros correrem. “Eu já dei duas voltas ao mundo correndo em campo, não me peça para fazer exercícios”, diz.

Sicupira, ontem e hoje. (Foto: Jonathan Campos (GRPCOM/Divulgação)

Impagável

A estrutura do livro intercala o texto de Moser – feito de frases curtas e ágeis – com depoimentos de Sicupira reunidos ao longo de meses de entrevistas. As melhores aspas são impagáveis (e, infelizmente, impublicáveis).

Fica evidente que uma das conexões entre o biógrafo e o biografado é o senso de humor. Moser é o público ideal para Sicupira e a admiração dele pelo craque é um dos combustíveis do livro.

A ideia de fazer uma biografia é antiga, mas o escritor conta que Sicupira dizia, brincando: “Não quero fazer livro porque o biografado morre um dia depois do lançamento”.

Depois de ter sobrevivido a tanta coisa (úlcera, trombose, embolia, pneumonia etc.), ele deve ter perdido o medo de morrer vítima de uma biografia.

Moser era e é amigo do filho do ex-jogador e logo se viu convivendo também com Sicupira, compartilhando histórias e garrafas de vinho.

Quando a ideia do livro foi aprovada pelo homem a ser biografado, a família voltou a falar com o jornalista, que disse sim imediatamente.

(Nota: eu e Moser trabalhamos juntos na “Gazeta do Povo” e fui um dos leitores no processo de revisão do livro. Ele é atleticano, por supuesto, e eu não sou nada – meu interesse por futebol é antropológico.)

O jornalista Sandro Moser, autor da biografia “Sicupira”. (Foto: Thais Glowacki/Divulgação)

Nelson Rodrigues

Ler a biografia é como bater um papo com Sicupira, mas com checagem de fatos. Moser procura fazer por Curitiba e pelo futebol paranaense o que as crônicas de Nelson Rodrigues (1912-1980) fizeram pelo Rio de Janeiro e o futebol brasileiro.

Em 30 de janeiro de 1964, Rodrigues chegou a escrever uma crônica sobre o boleiro paranaense, “Um craque chamado Sicupira”, que é reproduzida na íntegra pelo livro.

O autor de “A menina sem estrela” ficou interessado no jovem de 19 anos que fez um gol de bicicleta espetacular, do qual só tinha ouvido falar.

“Foi uma cambalhota, ou meia-cambalhota. Sicupira tornou-se leve, diáfano, incorpóreo. E iluminou o jogo com uma bicicleta imortal. Foi uma dessas bolas irresistíveis e funestas. O goleiro inimigo nem viu por onde ela entrou. Era o gol, era a vitória, era o título”, escreveu Rodrigues.

Herói

Numa parte melancólica do livro, Moser fala sobre como o Athletico jamais fez uma despedida para o seu maior goleador (foram 158 gols em oito anos com a camisa do clube).

Sicupira não é de se acabrunhar e disse à imprensa, na época, que deixaria o esporte profissional para disputar um campeonato de futebol de praia no time do lava-rápido Vovô Lalá contra o Bagrão de Paranaguá e o Engana a Si Próprio FC.

Por fim, quando o clube decidiu fazer uma homenagem, batizou o bicicletário da Arena da Baixada com o nome dele (porque a bicicleta era uma de suas jogadas características).

No entanto, para a torcida, Sicupira sempre foi um herói. E às vezes heróis também precisam ser defendidos.

A biografia

“Sicupira – Vida e gols de um craque chamado Barcímio”, de Sandro Moser. Editora Banquinho, 368 páginas, R$ 60.

O livro começa a ser vendido no dia 4 de outubro nas redes sociais de Sicupira, na Amazon e em pontos de venda espalhados pela cidade. 

O lançamento será no dia 3 de outubro (sábado), ao meio-dia, no Planeta Drive-In (R. João Gava, 970, Abranches), na Pedreira Paulo Leminski.

Os ingressos para o lançamento custam R$ 60 por carro com até quatro pessoas. O valor inclui uma cópia do livro autografada por Sicupira (cópias avulsas serão vendidas por R$ 60).

No evento, Sicupira vai lembrar momentos da carreira registrados em áudio e vídeo no telão do drive-in, com o público nos carros.

A ideia de fazer o lançamento na Pedreira dá mais segurança para todo mundo – inclusive para o ex-jogador de 76 anos – em meio às restrições impostas pela pandemia.

(Colaborou Matheus Koga.)

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