18 jan 2021 - 8h24

Onze afetos e alguns efeitos: Caetano Galindo estreia na poesia

Onze Poemas, editado pela Arte e Letra, reúne textos de duas décadas

Caetano Waldrigues Galindo circula no boca a boca sobretudo como tradutor, especificamente tradutor de prosa. Mas, bem sabemos, as coisas são mais sutis e complicadas, sempre. Como tradutor de prosa, ele já cansou de traduzir aquilo que eu mais chamo de poesia, vide Ulysses, de James Joyce (tradução quixotesca e genial da qual participei como fiel e orgulhoso Sancho Pança ao verter o longo estudo introdutório), Graça infinita, de David Foster Wallace, Vício inerente, de Thomas Pynchon, e por aí vai; pra não falar dos momentos em que traduziu poesia-poesia, como uma antologia do romeno Lucian Blaga, ou a poesia completa de Paul Auster, para ficarmos só em dois exemplos.

Pois bem, o Galindo também é prosador de mão cheia, autor dos contos de Ensaio sobre o entendimento humano, premiado pela Biblioteca Pública do Paraná, que posteriormente acabou saindo ampliado e revisto como Sobre os canibais, em 2019. Então, este homem que acompanho como tradutor e prosador (e colega e amigo (e eventual parceiro de canção)), enfim, ele é poeta. Bissexto, ao que tudo indica, porque acaba de estrear agora, com 47 anos, neste livro estranho e bonito, Onze poemas, editado pela Arte e Letra, que reúne poemas de duas décadas, entre 1999 e 2019.

Nesta estreia aparentemente singela, Caetano passa por uma série de formas (até fôrmas, como o soneto, mas penso aqui as formas como coisas fluidas) que revelam sua virtuose na linguagem, coisa que já dava pra perceber na prosa e nas traduções. E isso engloba até uma mão pesadíssima na paronomásia, como no texto em prosa de abertura (extra-onze), que cito por inteiro:

Se calo, pois me calha ser somente atalho, avio um mas que em mim cabia. Ou falo se me falo, em mim, semente: recolho a mim, amém, a minha via (retalho: ou dois, cisalho a minha frente) atalho. Talho. Ou dois. A via. Avia. Tresmalho a ferro (em fim meu erro) quente (retardo, tarde, tardo e re(torquia).?): ser falho, sou tolo, sou ser, me incauto, enquanto há saltos no encanto que escolho e colho no entanto o que em não me salto. Ver parco, ser dolo. Me fardo em meu olho…

Sou, quando. Pois me ralho ao que me pauto,

[o itálico é do original]

Prosa que é poema, bem certo. Que pode, por sua vez, contrastar com a penúltima peça do livro “Poema de amor #1”, de um gosto brejeiro e singelo que quase não se vê nestas raias de blasé em que vivemos:

Num sei cumé queu póssu ti dizê,
Mais sei qui ocê é bunita pa xuxu!
Nem cus ipissilôni ô dabliú
Eu sei palavra pra ti discrevê.

Só quéru tisplicá qui ai lóvi iú
I ispéru qui cê possa mintendê,
Qui nem qui a gênti intêndi sem sabê
Us riu, as frô i a vóiz duirapuru!!!

Cê é minha frô, meu riu, meu passarim,
I túdu nêssi múndu sem portêra,
Sem êra ô bêra i sem nem tê mais fim.

Eu… Sem você… Eu pêrcu as istribêra!
Rosinha, vem ficá juntim di mim,
Francisco Bento Sousa, a vida intera!

Num gosto de soneto que quase invoca o patois ítalo-brasileiro de Juó Bananère (pseudônimo de Alexandre Ribeiro Marcondes Machado) sob a égide de Chico Bento, criatura dos quadrinhos de Maurício de Souza.

Nessa linha de vertigem de vozes, o livro conta com a peça longa, complexa, em mais de 50 partes, intitulada “Per speculum in aenigmate (a segunda linha, abaixo)”, que cita no título 1 Coríntios, 13:12em sua versão latina na tradução da Vulgata de São Jerônimo; um poema que demanda retornos e retornos de leitura em suas perguntas e em sua metafísica especular. Aliás, o recurso constante à citação (São Paulo, Joyce, Schiller, Bach etc.), à intertextualidade (por exemplo, “Ishmael”, em clara alusão a Moby Dick é o primeiro poema) e à colagem, por vezes, pode exaurir o leitor, por seu peso excessivo; mas esse é o Galindo pensador, homem atravessado de letras e outras vidas, vozes alheias como as quais explicitamente se constrói e prepara pequenas pérolas, como o soneto “SMS”, verdadeira piroctecnia verbal conformada de afeto amoroso:

Escrevo, ou quero, ou só quimera obtusa,
Assim amara, mais que mera musa,
Que, doce, dá-se, dócil, por que aduza
A mim a minha mira, a mão profusa.

Se falo, falho, há falta, enfim, confusa
Habita-me uma voz, que então abusa,
Invade, vem, atroz, por que reduza
A vida a entalhe, falta, fresta oclusa.

Não leio ou lavro a língua que seduza,
Não sobra simples, seca, semifusa
De música, palavra, que conduza.

Destrilho, espelho rumos rumo à eclusa,
Se doce, dócil dou-me ao que me induza
A réu sem rei num rio que me recusa.

Outro exemplo dessa fusão entre afeto e efeito se realiza no alucinante palíndromo:

sou nós. sou do pós-nós, sou
nosso uso do posso: unos.

Que, para funcionar, precisa ser lido de cabeça para baixo e de trás para frente, assim, sendo múltiplos e sendo uno: unos. Nesses movimentos e citações que faço, espero que já esteja claro pra quem lê: este é, apesar do título muito contido, um livro de afeições intensas, quase sempre um livro de amor, por vezes desbragado, por vezes enviezado, por vezes mesmo vago, porém nunca o jogo literário está ali sem um sumo forte que o peça. É lingua viva, que só existe no convívio com os outros.

A verdade, afinal, é que é mais um livro que admiro, de uma pessoa que admiro (omitir o óbvio, por óbvio, seria mentir), de um escritor múltiplo que, a cada dia, mais admiro. Coincidência que seja, saiu pela Arte e Letra, com uma capa sóbria e certeira de Sandro Valdrighi, num projeto fino do Thiago Tizzot, que é também um editor e livreiro que de cá mais e mais admiro. Admirável livrinho este, que, sem apresentações, textos de orelha ou quarta capa que o alcem demais, cabe e não cabe na palma da mão.

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2 comentários sobre “Onze afetos e alguns efeitos: Caetano Galindo estreia na poesia

  1. Guilherme: bem que você usou o advérbio na frase “estreia aparentemente singela”. Nós, colegas, sabemos que a linguagem do Caetano não é singela nem em e-mail interpares! E é sempre uma delícia. Agradeço as amostras grátis oferecidas nesse seu texto muito à altura do resenhado, como sói acontecer em tudo que você escreve.
    Abraço

  2. Grande, imenso Caetano Galindo:

    Num sei cumé queu póssu ti dizê,
    Mais sei qui ocê é bunito pa xuxu!

    Será que os estudantes da UFPR sabem o privilégio que tem?

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