4 ago 2020 - 19h54

“O corpo é nosso!” procura explicar o machismo e o racismo brasileiros

Documentário em cartaz no Telecine Play mistura ficção com entrevistas, e tem imagens de arquivo impressionantes

“O corpo é nosso!” é um documentário com uma missão: explicar o machismo e o racismo entranhados na sociedade brasileira.

A diretora Theresa Jessouroun lança mão de um recurso curioso para ilustrar os temas discutidos pelos especialistas ouvidos no documentário, que está em cartaz no Telecine Play. Ela cria uma pequena ficção – um filme dentro do filme.

Assim o ator Renato Góes interpreta um repórter (branco, hétero, de família rica) que trabalha para um grande jornal do Rio de Janeiro. O editor manda o repórter fazer uma pauta que explique “os feminismos”. Ambos parecem achar graça do plural.

“É isso mesmo”, diz o editor. “Não é um só. São vários feminismos.”

O repórter tenta se livrar da pauta. “Mas eu sou homem!”, diz. “Por isso mesmo”, rebate o editor. E assim, a contragosto, o filhinho de papai que passou um ano em Londres para aprender inglês antes de ir para a universidade assume o primeiro compromisso da pauta: cobrir um baile funk (como exemplo de lugar em que a mulher faz o que quer com o próprio corpo).

A reportagem do jornal fictício dentro do filme é motivada pela série de protestos reais que ocorreram em várias cidades brasileiras anos atrás, conhecida como a “Marcha das Vadias”. Quem participou dessas manifestações brigava por várias questões – como o respeito pela mulher e a igualdade de direitos.

Denúncias

O nome do documentário vem, justamente, de palavras de ordem usadas nessas marchas. “O corpo é nosso!” é uma frase ligada a questões como a legalização do aborto e a denúncia de violências sofridas por muitas mulheres (o filme destaca o caso da jovem carioca de 16 anos que foi estuprada por pelo menos 30 homens).

No baile funk, o repórter acaba encontrando uma mulher negra (Roberta Rodrigues) que havia trabalhado na casa de seus pais anos antes como empregada. Acontece que os dois, na época, eram adolescentes. E o piá acabou transando com a menina, que engravidou e desapareceu. Por isso ele foi mandado para Londres estudar inglês.

Roberta Rodrigues e Renato Góes: atores em uma pequena ficção dentro do documentário.

Enquanto isso, no Brasil, a jovem teve de se virar para criar sozinha a filha do patrão, sem qualquer tipo de ajuda financeira. Quando o repórter descobre que tem uma filha com a ex-empregada negra e pobre, e que seus pais esconderam a história toda, ele desperta para os problemas da sociedade brasileira.

Por meio dessa história, o documentário procura ilustrar as desigualdades assombrosas entre brancos e negros, mulheres e homens, ricos e pobres.

IMS

Na parte de não ficção, Jessouroun entrevista historiadoras, antropólogas, líderes negras, funkeiras e conta com imagens de arquivo impressionantes – parte delas é do acervo do Instituto Moreira Salles (IMS).

Alguns registros mostram vídeos de marchinhas antigas de carnaval com letras que diziam coisas como: “Beber é bom, dinheiro também é. Tudo é bom, mas bom mesmo é mulher”.

Objeto

De acordo com o filme, o processo que transformou o corpo feminino em objeto  começou nos desfiles de carnaval do Rio de Janeiro dos anos 1930, e atravessou as décadas ao som do samba até desembocar no funk.

Do ponto de vista histórico, é fascinante perceber como a tensão sexual do funk já existia no maxixe da virada do século 19 para o 20.

O único problema do filme é que ele, na parte da ficção sobre o repórter que cai na real, soa didático demais. Mas talvez o didatismo seja necessário para explicar uma situação que nem sequer é reconhecida no país.

Documentário

“O corpo é nosso!” está em cartaz no Telecine Play.

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