Charge em tempos de desgoverno: artista da Ponta Grossa é premiado no Salão do Humor de Piracicaba - Jornal Plural
7 out 2021 - 18h11

Charge em tempos de desgoverno: artista da Ponta Grossa é premiado no Salão do Humor de Piracicaba

O ponta-grossense Dinho Lacoski foi premiado na categoria Charge com uma obra crítica ao governo Bolsonaro

*Por Sebastião Natalio, jornalista, artista visual

O ponta-grossense Cláudio Fernando Lascoski, o Dinho Lascoski, faz parte daquele grupo de artistas locais que levam o nome da Princesa a paragens distantes. O designer, desapegado de festivais, salões, eventos de artes, participou pela primeira vez do Salão do Humor de Piracicaba, em sua 48º edição. Levou o prêmio Charge, retratando o presidente Jair Bolsonaro em um dos seus diários discursos de ódio, rodeado de desentupidores de vasos sanitários, representando microfones. 

“O grande bostejador” poderia ser o título da obra. O verbo intransitivo “bostejar” nunca foi tão aplicado na política brasileira, apesar de nunca termos visto tantos “bostejadores” quanto nesse período pelo qual estamos atravessando. 

O vencedor do Salão foi o turco Oguz Gorel, que papou o Grande Troféu Zélio de Ouro e o prêmio Cartum, com a obra Ovelha Negra, que mostra uma ovelha negra sobressaindo às demais, batendo panela –situação que, também, bastante se aplica ao Brasil atual. Para quem nunca ouviu falar do Salão do Humor de Piracicaba, que comemora 50 anos, por ele já passaram nomes como Millôr Fernandes, Ziraldo, Jaguar, Zélio e Henfil, entre tantos outros artistas do humor gráfico nacional. 

A repercussão da charge de Lascoski, assim que publicada, foi instantânea, alcançando gente do mundo todo. Foram mais de 11 mil curtidas só na página do Instagram do artista, com milhares de compartilhamentos. Entre alguns políticos opositores a Bolsonaro, principalmente da esquerda, que contribuíram na repercussão da imagem estão Sâmia Bomfim (Psol-SP), Chico Alencar (Psol-RJ) e Manuela D’ávila (PCdoB). 

Dinho se sente recompensado pelas milhares de republicações, que já vinham ocorrendo com outras charges suas. Uma delas, também bastante replicada, inclusive por famosos, mostra o presidente como um agente contaminador por defender tratamentos ineficazes, não investir em vacina, e o não uso da máscara, sendo entrevistado por um jornalista e seu câmera, paramentados com macacões e máscaras de alta proteção contra agentes patológicos.

Esta charge ganhou espaço no Le Monde Diplomatique Brasil, em julho de 2020, com texto do também ponta-grossense, o jornalista e ativista cultural Ben-Hur Demeneck.  

“Essa arte repercutiu bastante já no instante em que publiquei, e de tempos em tempos, ela volta a circular, mostrando que, infelizmente, os ataques a jornalistas (principalmente mulheres) continuam”, ressalta. “Claro que tem aquela parte que critica ou xinga nos campos de comentários, mas assim como sinto orgulhoso de chamar atenção de pessoas que admiro, sinto orgulho em incomodar aqueles que discordam, o objetivo é esse mesmo”. 

Sobre a repercussão na família Bolsonaro, Dinho desconhece o que eles pensam. Por enquanto, nenhum processo? “(Risos) Nada de processos, apenas bolsonaristas chorando e esperneando, mas é bem nítido que diminuiu muito o número de defensores do bozo. Alguns pularam do barco e outros voltaram a se esconder no armário. Imagina como deve ser difícil a vida de quem tenta defender esse governo”, afirma Lascoski. 

Sobre o prêmio, ele ressalta que é muito importante para a carreira de um artista visual. “Eu ficaria feliz de recebê-lo em qualquer época da vida, mas talvez a felicidade seja até um pouco maior numa época como essa, porque contrasta com todas as outras notícias ruins e me deixa mais esperançoso”, diz. 

Humor político 

A linha política do humor, desde tempos imemoriais, rendem excelentes ideias para o artista ilustrador. Bolsonaro, com suas tacanhices, permite um humor ácido, fora do comum, a exemplo de Trump ou Hitler. Algumas situações devem apavorar um pouco o ilustrador, que precisa ter um caminho bem definido do que representar. Dinho conta que quando começou essa série de ilustrações, não tinha a intenção de retratar diretamente qualquer figura política, mas aconteceu naturalmente, pelas condições críticas do momento, movido pela indignação e revolta. Segundo ele, é difícil não falar sobre, já que a situação afeta diretamente nossas vidas e humor, por isso, foi praticamente instintivo ilustrar essa figura grotesca.

Bolsonaro é uma criatura, digamos, “diferenciada” na política, desde que o Brasil é Brasil. Um dos piores acontecimentos, sejamos claros. Para o humorista, o chargista, ou qualquer artista, interpretá-lo deve ser trabalho inglório. É de se imaginar que os chargistas que descreviam Hitler tivessem sentimentos de repulsa pelo personagem, por exemplo. É se pensar que outros sentimentos, além da ironia, precisam ser mobilizados. 

“Raiva, repulsa, desprezo, indignação e revolta são alguns dos principais sentimentos despertados antes de iniciar uma ilustração sobre esse ser repugnante. Difícil é ficar indiferente com tanta incompetência e planos desumanos desse genocida. A arte acaba sendo útil pra mim, além de um meio de denúncia como comentamos antes, também é uma forma pra eu desabafar”, diz o artista, que acredita na charge com um veículo de denúncia. 

Dinho parafraseia uma das tiras de André Dahmer, uma das suas inspirações, que diz: “Um país bom para um chargista trabalhar é um país ruim para viver”. Ele acredita que a arte, em geral, se torna mais necessária em tempos obscuros, seja pela denúncia, pela informação, ou para rir e aliviar um pouco as coisas. “A charge política põe o dedo na ferida, escancara os absurdos e ajuda a espalhar as informações, então acredito que sim, ela é um meio de denúncia”, acrescenta. 

Dinho trabalha profissionalmente há pouco mais de dez anos com arte. Muito como designer e diretor de arte em agências de publicidade, com ilustrações para anúncios. Em 2019, ele iniciou essa série de ilustrações independentes e com viés mais ativista. Ele acredita que tem tido uma resposta muito positiva desde as primeiras publicações. 

Sobre suas inspirações ele as considera bem distintas, sendo a mais clara Banksy, artista britânico, ativista das ruas que trabalha com stencil. Entre outras, estão o pintor norte-americano Edward Hooper, o já citado André Dahmer, desenhista brasileiro, e do espanhol Joan Cornellà. 

Dinho fez parte de um time de ponta-grossenses finalistas do prêmio Angoulême, na França, com o fanzine coletivo Maidan, encabeçado por Ben-Hur. Em Maidan, o designer ilustrou um texto do irmão, Elias Lascoski. “Tenho orgulho de ter feito parte desse time, com um monte de gente talentosa. Mas na verdade, o prêmio Internacional de Piracicaba foi o primeiro concurso que eu me inscrevi na vida, pretendo participar mais vezes daqui pra frente”, finaliza. 

Como visitar o Salão: https://salaointernacionaldehumor.com.br/salao-do-humor/

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