Mulheres que concorrem a cargos públicos ou já ocupam espaços de poder são o principal alvo das ofensas políticas no país, segundo a pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil, feita pelas organizações Terra de Direitos e Justiça Global. Já os homens cisgênero estão envolvidos na maior parte dos casos de violência física, até por ocuparem a maior parcela dos cargos públicos e das candidaturas.
O ambiente virtual foi o principal meio utilizado para ataques a mulheres em 2024: foram 107 casos no ano passado, ou 39,05% do total. Outros 65 casos foram registrados em parlamentos, em prefeituras ou nos locais de atuação das mulheres (23,72% das ocorrências); e 35 ocorreram em ambientes externos (12,77%).
Foram identificadas ameaças de morte, ameaças a familiares, intimidações e agressões de cunho racista ou machista, além de violência de teor sexual. Vinte e três mulheres que ocupam cargos públicos foram alvo desse tipo de violência no ano passado: 14 vereadoras, quatro deputadas estaduais, quatro prefeitas e uma deputada federal.
Entre a violência de cunho sexual foram identificados ataques à honra, com manipulação de imagens para associar a vítimas a sites e conteúdos adultos através de deepfake, e assédio físico, casos em que as mulheres foram acariciadas e beijadas por outros parlamentares, sem consentimento. Também foram registradas 19 ameaças de estupro, incluindo “estupro corretivo”.

Uma das vítimas desse tipo de violência no ano passado foi a deputada federal Carol Dartora (PT-PR), que até o início de novembro do ano passado havia recebido 43 mensagens com ameaças de morte desde o início de seu mandato, em 2023. No último e-mail, o remetente ameaçou “derramar gasolina” no corpo da parlamentar e colocar fogo. “Quero sentir o cheiro da sua carne queimando e o seus gritos de horror”, dizia a mensagem.

“Chamou atenção que, entre os casos de ameaça de estupro corretivo, todos os casos envolviam parlamentares mulheres, com mensagens enviadas tanto para os e-mails institucionais quanto para os e-mails pessoais das vítimas”, concluem as pesquisadoras responsáveis pelo levantamento. “Os dados indicam ataques orquestrados, com um padrão recorrente nas ameaças. Parlamentares progressistas e LGBTQIAP+ foram alvo frequente dessas agressões, enviadas tanto para seus e-mails institucionais quanto pessoais”.

Violência em alta
Os dados gerais mostram que o número de casos de violência política e eleitoral disparou no ano passado. Foram registradas 558 ocorrências no país, com 27 assassinatos, além de 129 atentados, 224 ameaças, 71 agressões, 81 casos de ofensa, 16 tentativas de criminalização e dez invasões de espaços ou eventos públicos como tentativa de intimidação.
Os números chamam mais atenção quando comparados a dados de anos anteriores. Na última eleição municipal antes da de 2024, em 2020, foram 214 ocorrências de violência política. Em 2022, foram contabilizados 291 casos, e 131 em 2023. O número de atentados (129) foi o maior da série histórica iniciada em 2016 e mais que dobrou em relação a 2022, quando foram relatados 109 casos. Já o número de mortes caiu em relação à eleição de 2020: há quatro anos, foram 40 assassinatos no país.