Com nossos pais, nos mudamos para lá há vinte e cinco anos. A porção Fanchin do nosso sangue, por parte da avó materna, falou alto e nos entrosamos bem com a italianada. Morei com os pais na casa de Santa Felicidade, até que a deixei para viver no Rio. Depois, filho nem tão pródigo quanto o preconceito por vezes fez pensar, retornado à cidade, passei a residir num apartamento mais central.
Curitiba(s) são diversas, como se sabe. E a casa da mãe é sempre insuperável. Ainda mais aquela que da varanda permite contemplar grandes bosques, verdadeira reserva verde, com quantidade significativa de pinheiros. Deus ajude que a área se mantenha preservada.
Santa Felicidade está no alto da colina que nos primórdios acolheu colonos vindos do Velho Mundo. Por décadas foi região de chácaras que até não muito tempo atrás despontavam na paisagem. Está tomada agora (que a especulação imobiliária avança à jato) por corpulentos condomínios, digamos, hermeticamente fechados.
A casa da minha mãe, por sorte, é uma casa de rua, entre vias paralelas cujas casas também são de rua — umas mais simples, outras pomposas. E era por ali mesmo na vizinhança que existia um galo — tenor dos tenores. Símbolo de priscas eras, resistente às transformações do bairro, o galo seguiu incansavelmente, sabe-se lá por quanto tempo, anunciando as manhãs. Atualmente, agora que não mais amanheço em meu quarto de outrora, não posso confirmar se nosso talentoso vizinho ainda habita esse plano.
E assim chego na parte em que, desde o começo, gostava de chegar: o Papa que me perdoe (e, com sua benevolência, como haveria de não fazê-lo?), mas nas madrugas do 25 de dezembro a minha Missa do Galo era rezada não pelo Sumo Pontífice e sim por aquele galináceo dos arrabaldes.
E esse meu sentimento não é de todo despropositado não, afinal de contas o sentido da Santa Missa de Natal não é o de que o galo, justamente, é aquele que anuncia a chegada não só de um novo dia, mas de um novo tempo na história da salvação da humanidade? A tradição católica diz isso mesmo, que na noite do Natal o nascimento de Jesus é anunciado com as melodias de um genuíno Garnisé.
Sei, de todo modo, que “um galo sozinho não tece uma manhã” e que o poema de João Cabral (em que está o verso lapidar), é metáfora que nada tem a ver propriamente com a Missa do Galo. Mas que a poesia nos permita certas apropriações e associações são duas de suas qualidades.
Daí que sem querer dar uma de herege (nem com João Cabral nem com a Santíssima Igreja), gostaria de afirmar que naquelas manhãs de 25 de dezembro, na paz da Santa Felicidade, era eu próprio um galo irmão do galo cantor das cercanias e, juntos, púnhamos a tecer nossa Missa, convertendo aquela porção de território em Vaticano, sendo a casa de minha mãe nada mais nada menos que a Basílica de São Pedro.