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Minha madrinha Lygia

A advogada Isabel Gomes fala dos sentimentos pela madrinha famosa que pouco conheceu: a escritora Lygia Fagundes Telles

Minha madrinha Lygia
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Já comentei algumas vezes que fui uma menina feiosa… E não, não adianta me contestarem pra me induzir a mostrar fotos, porque a lei garante que “ninguém é obrigado a fazer prova contra si”. Portanto, só acreditem: Ninguém mentiria sobre isso.

Voltando. Claro que ninguém me falava isso, mas eu percebia. Sobretudo pelos elogios dirigidos às minhas irmãs, que não se estendiam a mim.

Porém, um fato, particularmente, confirmava minha percepção. Meu pai dizia que minha madrinha era feia, que não sabia como meu padrinho se casara com ela, e na sequência, distraidamente, comentava que eu era parecida com ela.

O lado bom é que eu ouvia que ela era advogada e muito inteligente, e me consolava imaginando que, talvez, também nisso fôssemos parecidas.

Quis o destino que não fôssemos próximas. O meu padrinho, um jurista e professor importante, era cliente comercial e amigo do meu pai, de onde veio o convite para o meu batismo. Ela uma jovem procuradora do Estado, que se iniciava nas letras.

Muito cedo eles se separaram e, dado que os laços de amizade eram com ele, houve um natural afastamento entre ela e minha família –que se estendeu por toda a vida, razão pela qual nunca a menciono.

A minha madrinha faleceu nesse domingo (3). Uma pessoa conhecida internacionalmente e que, apesar de ter me batizado, pessoalmente, foi uma desconhecida para mim.

Por mais que, pelo distanciamento entre nós, sua passagem pudesse me ser indiferente, sou católica, creio no parentesco espiritual e passei o dia pensando nisso e tentando lidar com um sentimento que nem sei definir…

Fui procurar meu Batistério (como para me certificar que ela foi mesmo minha madrinha) e os livros, dela e dele.

E, embora a obra dela seja muito mais extensa do que a dele, foi o trecho da autobiografia do padrinho, na qual ele refere, apenas sutilmente, a separação entre eles, que me marcou: “ Anos de 1964, 65, 66… Anos de chumbo para o Brasil, anos de trevas para mim”.

Para mim, só a história dos meus padrinhos.

R.I.P. Lygia Fagundes Telles.

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