“Ninguém avisou que iam nos tirar de lá com força policial, porque não queriam que a mídia soubesse. Fomos saber ontem à noite, não pudemos nem nos preparar. Só fizemos uma reunião e dissemos pra ninguém resistir, porque senão eles iam fazer covardia como fizeram no Caiuá”, contou Geremias de Oliveira Custódio, uma das lideranças da ocupação Nova Guaporé, que ficava na Cidade Industrial de Curitiba (CIC).
Juliana Almendro Teixeira, que vive na ocupação ao lado, a 29 de Março, tentou ajudar os vizinhos e acompanhou de perto o drama do despejo das mil pessoas que viviam ali desde outubro. “Os policiais chegaram às 5h da manhã, mas estavam escondidos. Perto das 6h, começou a sair homem de todo canto, entraram por trás da Sanepar. Eram uns 400 a 500, veio até a cavalaria”, falou.
Segundo ela, a polícia foi “pacífica”, mas as cenas foram lamentáveis mesmo assim. “Durante a ação as crianças estavam com fome, não tinha como fazer mamá pras menores. Aí queriam levar as mães pra um abrigo, mas elas não queriam ir porque tudo o que tinham estava ali. O povo com sede, na frente da Sanepar, e não tinha nem água pra tomar.”
“Estão falando que CRAS, FAS estão ajudando… Mentira, ninguém apareceu”, lamentou Geremias. Ambos disseram ao Plural que só a Ordem dos Advogados do Brasil, a Defensoria Pública e políticos como Goura e a professora Josete prestaram algum auxílio, além de outros advogados parceiros.

Os dois também afirmaram que as famílias tiveram pouco tempo para tirar seus pertences de casa e muitas perderam o pouco que tinham. “Eles fizeram barreiras. Só deixavam sair, mas não deixavam entrar. Então as pessoas queriam ajudar, os caminhões queriam entrar pra tirar as coisas, mas não dava. Ficou tudo no meio da rua”, descreveu Juliana em uma ligação de telefone, perto das 22h. “Até agora tem gente carregando os caminhões. Com a chuva, deve ter molhado tudo.”
Geremias revelou que a mudança forçada foi para outra ocupação, agora no Campo Comprido. “Quem quis vir, veio. Estamos acampados aqui. O direito de moradia é direito do povo, né? Com essa pandemia muita gente ficou desempregada, muita gente passando necessidade, e acolhemos quem precisava. O pessoal já tinha até enfeitado as casinhas lá, sabe? Agora o Natal vai ser horrível. Espero que, pelo menos, não nos tirem daqui.”

“Falta de planejamento grosseira ou falta de humanidade”
O deputado estadual Goura Nataraj disse que ficou sabendo do despejo ontem, durante uma sessão da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), quando recebeu mensagens de advogados que acompanham a situação das ocupações de Curitiba. “Imediatamente encaminhei para o presidente da Comissão de Direitos Humanos, Tadeu Veneri, que fez o anúncio em sessão, chamando a atenção do presidente da Alep para o fato de que enviaria um ofício às autoridades pedindo que isso não ocorresse.”
“O ofício foi enviado, mas hoje de manhã eu acordei com várias mensagens me dizendo que a reintegração estava ocorrendo”, contou à reportagem. “Às 7h28 eu falei com o presidente da FAS, que me respondeu às 8h07 dizendo que estavam encaminhando equipes para o local. Ou seja, o despejo já estava ocorrendo sem a presença da assistência social.”
Goura chegou ao local por volta das 9h30 e ficou lá até a hora do almoço, tentando contatar as autoridades. Falou com Ney Leprevost, que prometeu ajuda da Secretaria da Justiça, Família e Trabalho do Paraná (Sejuf), mas o lembrou de que a responsabilidade seria do Superintendente Geral de Diálogo e Interação Social do Governo do Estado do Paraná, Mauro Rockenbach. “O Mauro não retornou nenhuma ligação ou mensagem, até agora estou esperando.”
Já na ocupação, Goura falou que encontrou apenas duas servidoras da FAS presentes para atender 311 famílias. “A situação era de desespero entre os moradores. Muitas crianças vendo o trator passar por cima das casas; houve um foco de incêndio em alguns barracos, que quase se alastrou pra uma situação de incêndio florestal, mas foi contido. Não havia comida nem água.”

Uma cena em especial chamou sua atenção. “A gente estava saindo e uma família estava chegando. Era um casal e provavelmente a mãe de um deles, uma senhora de idade. Eles ficaram desesperados porque estavam no hospital e voltaram pra casa naquela situação - não existia mais a casa.”
“A FAS disse que as famílias não concordaram em ir para os abrigos, mas é óbvio. Ela não está preparada para esse tipo de situação, há uma incompetência de planejamento. Existem abrigos masculinos e femininos, uma família vai querer se separar nessas circunstâncias, com crianças? Elas vão querer ficar numa precariedade diferente, não na precariedade pública”, avaliou o deputado.
“O governo joga pra prefeitura, a prefeitura pro governo e ficou a Deus dará. Mesmo sendo uma ocupação recente, de pouco mais de três meses, está invisível aos olhos do poder público. Ou é uma falta de planejamento grosseira, ou falta de humanidade. Acho que são as duas coisas”, concluiu.
Empurra-empurra
Rafael Greca se manifestou via Twitter dizendo que a área não pertence à Prefeitura de Curitiba. “É particular (herdeiros de João Knaut). A reintegração de posse e a ordem de despejo foi dada pela Justiça do Estado e cumprida pela Polícia Militar. Portanto, a negociação não coube à Prefeitura e as informações devem ser dadas pelo Governo do Estado.”
Ao Plural, Rockenbach respondeu o seguinte: “Bem, essa reintegração é com a Justiça Estadual. Não é uma ação do Governo do Estado. A Justiça, por força de lei, solicita força policial. A Comissão Estadual de Assuntos e Conflitos Fundiários, de atribuição do estado, só tem atuação em ações em áreas rurais.”
Fernando Antonio Prazeres, desembargador do Tribunal de Justiça e presidente da Comissão de Mediação de Conflitos Fundiários, afirmou à reportagem que foi avisado “em cima da hora” e não teve como intervir. “No âmbito processual, não sei como vai ficar, vou analisar os recursos, se a propriedade é mesmo de quem diz que é… Agora estamos acompanhando o destino dessas famílias, pra onde elas vão, porque pelo que vi no processo e hoje de manhã, a grande maioria é de haitianos.”
Os dirigentes da ocupação disseram ao Plural que somente 100 das mil pessoas despejadas são haitianas.
Segundo Prazeres, esses moradores já estavam numa ocupação em Almirante Tamandaré. “São itinerantes, saem de uma ocupação pra outra, são despejados… E daí a Comissão se preocupa justamente com isso. Não adianta solucionar um problema pontual e criar outros tantos. Temos que resolver a causa disso. Porque esse povo está itinerante, é importante saber a origem e tentar achar um destino para abrigar esse pessoal de forma definitiva ou provisória, pra fazer um encaminhamento futuro. O que não dá é pra ficar permitindo invasão atrás de invasão, assim a gente não chega a lugar nenhum.”
Por enquanto, o desembargador não sabe qual será o rumo ofertado às famílias. “Vamos conversar com Araucária e Curitiba. Vamos ver se a gente consegue que os serviços sociais desses municípios nos deem algum caminho, porque nós mesmos não temos um local específico agora.”
Ajuda
Depois que Goura publicou sobre a situação nas redes sociais, muitas pessoas ofereceram ajuda. As arrecadações serão feitas até o dia 23/12 na OAB Paraná (Rua Brasílio Moura, 253. Telefone: 41 99999-9816).
A defensora pública Olenka Lins, coordenadora do Núcleo Itinerante das Questões Fundiárias e Urbanísticas (NUFURB), também se manifestou dizendo que está, desde o início, fazendo a defesa dos ocupantes. “Em sua maioria, são vulneráveis e desprovidos de praticamente tudo o que é necessário para uma vida digna. Tentamos, assim, evitar que se chegasse à grave situação que todos viram, sobretudo, em tempos de pandemia e principalmente porque não havia plano de realocação.”
A profissional completou que segue tentando reverter a situação. “Neste momento, a preocupação é com o destino das famílias e todo o esforço tem sido para se impedir que a realidade fique ainda pior para todas essas famílias.”
Por meio de nota, a Fundação de Ação Social (FAS) comunicou que muitas das famílias já são atendidas pelo Centro de Referência da Assistência Social (Cras) Corbélia, por morarem na região da Cidade Industrial. “O restante vive em Araucária, na Região Metropolitana e, por isso, a assistência social daquele município também acompanhou a ação, assim como o Conselho Tutelar.”
“Nenhuma família aceitou acolhimento nas unidades municipais de Curitiba, onde podem ter acesso à alimentação, higiene, local para dormir. A FAS encaminhou as famílias para atendimento em Cras, onde serão avaliadas as necessidades de cada uma. Apenas 6 famílias decidiram voltar para suas casas, mas falaram da dificuldade de alimentação. Para elas, a FAS irá liberar crédito alimentar, que tem valor de R$ 70,00 para compra nos Armazéns da Família”, finalizou.