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Mortes causadas pela PM paranaense passam por reprodução simulada

Na quinta-feira (5), foi realizada em Cornélio Procópio a reconstituição da abordagem policial que resultou na morte de Gustavo Pontes; na terça-feira, será a vez de simular a perseguição que terminou com dois outros jovens mortos em Londrina

Mortes causadas pela PM paranaense passam por reprodução simulada
Gustavo, de 23 anos, morto pela PM de Londrina. Foto: Arquivo pessoal
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A Polícia Civil realizou nesta quinta-feira (5), em Cornélio Procópio, a reconstituição da morte de Gustavo Vinícius Pontes, de 23 anos, baleado por policiais militares em 28 de agosto de 2025. A diligência contou com a participação do Ministério Público e de testemunhas que presenciaram a ação policial.

Segundo o advogado da família, Alexandre Aquino, a simulação foi baseada principalmente no relato de duas testemunhas que moram no mesmo terreno onde ocorreu o episódio. Para ele, os depoimentos reforçam a versão de que o jovem foi executado. “Na verdade, não foi a reconstrução de um confronto. Foi a reconstrução de um assassinato”, afirmou o advogado. Gustavo recebeu 23 tiros.

Testemunha relata que jovem se rendeu

De acordo com Aquino, uma das testemunhas, que mora no mesmo quintal da vítima, relatou ter visto quando policiais chegaram ao local à procura de outro homem, alvo de um mandado judicial.

Segundo o depoimento, os agentes perguntaram pela pessoa procurada e foram informados de que ela morava na casa da frente do terreno. Em seguida, teriam se dirigido até a residência onde Gustavo morava com a companheira.

A testemunha afirmou que viu quando os policiais arrombaram a porta da casa. “O Gustavo estava deitado. Ele levantou e colocou as mãos na cabeça. Perguntaram se ele tinha arma e ele disse que não. Depois os policiais entraram, fecharam a porta e ela só ouviu vários tiros”, relatou Aquino.

Ainda segundo o advogado, quando a testemunha entrou na casa após os disparos, o jovem já estava morto.

A versão da Polícia

A versão oficial apresentada pela Polícia Militar é bem diferente. Segundo o Boletim de Ocorrência (BO) preenchido pelos quatro policiais que participaram da ação, a equipe foi até o endereço — um terreno com três residências — para cumprir um mandado de busca e apreensão criminal na casa da frente.

De acordo com o relato, durante o procedimento os policiais teriam visto uma pessoa na janela da casa dos fundos. Ao notar a presença da equipe, esse indivíduo teria corrido para dentro do imóvel. Diante da atitude considerada suspeita, parte dos policiais se dirigiu até a casa e teria feito a abordagem na porta.

Ainda segundo o BO, um dos PMs afirmou ter visto, pela janela, que o homem — identificado posteriormente como Gustavo — estava com uma arma de fogo na cintura. Na sequência, um dos policiais teria arrombado a porta do imóvel e se deparado com o jovem, que, conforme a versão registrada no documento, teria sacado a arma.

Para “cessar a injusta agressão”, como descreve o boletim, os policiais efetuaram disparos contra ele.

O documento também relata que, após a chegada da perícia, o perito criminal teria encontrado no local uma pistola e porções de maconha, que foram apreendidas.

Segundo o advogado da família de Gustavo, a testemunha afirmou durante a reconstituição que não viu qualquer arma na casa. “O delegado perguntou diretamente se ela viu o Gustavo armado e ela respondeu que não. Disse que ele não andava armado e que sempre foi respeitoso”, contou

Policiais não compareceram à reconstituição

Os policiais investigados foram convidados pela Polícia Civil a participar da reconstituição, mas não compareceram. Segundo o advogado, isso é permitido pela legislação, já que eles são alvo da investigação. “Eles foram convidados, mas como investigados não são obrigados a produzir provas contra eles mesmos”, explicou.

De acordo com o advogado, Gustavo Vinícius Pontes trabalhava como açougueiro em um supermercado da cidade e não possuía antecedentes criminais.

No dia da morte, segundo a defesa da família, ele estava em casa porque se encontrava afastado do trabalho por atestado médico devido a dores nas costas.

A investigação da Polícia Civil sobre o caso segue em andamento. A reportagem tentou contato com o delegado Luciano Purcino, mas a informação dada na delegacia é de que ele só poderia atender na próxima semana.

Em Londrina, reprodução simulada não será no local das mortes

Uma nova reprodução simulada dos fatos envolvendo mortes causadas por policiais militares no Paraná está marcada para a próxima terça-feira (10), em Londrina. A diligência faz parte da investigação sobre a morte dos jovens Anderbal Campos Bernardo Júnior, de 21 anos, e Willian Jones Faramilio da Silva Júnior, de 18, baleados pela Polícia Militar em 6 de maio de 2022, nas proximidades da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Familiares das vítimas acompanham o caso com expectativa de que a reconstituição ajude a esclarecer a dinâmica da ação policial. Há, porém, questionamentos sobre o local escolhido para a diligência, que foi marcada para ser realizada no Autódromo da cidade.

Haydee Melo, tia de Willian e integrante do Movimento Justiça por Almas – Mães de Luto em Luta, afirma que, apesar disso, o delegado do caso volte atrás e faça a diligência no local da abordagem, às margens da PR-445. “A nossa expectativa é de que realmente a reconstituição pudesse acontecer no local do fato. Até segunda-feira ainda tem tempo de mudar, porque daí é só a questão de alterar o local”, afirmou. “Se ela acontecer lá no autódromo, a gente acredita que vai atrapalhar em alguns quesitos, algumas perguntas primordiais. Se não conseguirem fazer uma reprodução em outra data no local de origem, essas perguntas vão ficar no ar”, complementa.

Apesar das críticas, a representante do movimento diz manter expectativa positiva em relação ao avanço da investigação, especialmente pela participação de um novo perito no caso.

“Agora a gente tem um novo perito constituído dentro do inquérito, o doutor Eduardo Lanos. Ele vem de São Paulo para essa reconstituição e acredito que, com o conhecimento dele, a gente pode ter um avanço considerável, mesmo que seja fora do local”, disse.

Haydee também criticou o argumento de que a reconstituição não poderia ocorrer no local das mortes por razões de segurança. “É um deboche para a gente. Eles são policiais e se dizem ameaçados dentro da própria cidade onde trabalham e são autoridade. Imagina nós, que somos a população comum”, declarou.

A reportagem não conseguiu falar com o delegado que cuida do caso.

Lei mais sobre as mortes dos jovens clicando aqui.

Nelson Bortolin

Nelson Bortolin

Jornalista, um dos fundadores da Rede Lume de Jornalismo, de Londrina

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