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Crônicas Cultura destaque

Lia – Capítulo 9

Escrito por Caetano Galindo
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Onde finalmente ouvimos a opinião de outra pessoa sobre essa tal de “Lia”

Oi?

[…]

Lembro. Lembro sim. Claro que lembro. Imagina.

Afinal eu passei não foi um, não foi nem dois, mas foi bem é uns quatro anos, quase, trabalhando lá no prédio. Quase quatro. Edifício Itajubá. Gente fina. Trabalho bom. E eu lembro bem dessa aí. Mulher bonita, assim, altiva. Espertigada. A gente lembrava dessa dona quando via nem que fosse uma vez. 

Mas o negócio é que pra trabalhar assim nesses prédio mais finos, ou pra trabalhar, ponto, nesse ramo nosso de zeladoria, você aprende meio que a ver sem enxergar, sabe como? Ver sem enxergar? Não dá pra você ficar espiando a vida das pessoas que te pagam. Porque elas precisam da privacidade lá delas. Você tem que meio que ser assim invisível, sabe como? Você limpa bem, tira tudo que for feio do caminho, mas se der você nem aparece pra elas. E muito menos fica parada de olho em cada moça senhora que entra no prédio. Por mais que seja altiva, a dita. E chamativa. E por mais que entrasse e saísse to-da-ho-ra. Pra quem não morava lá nem nada. 

Mas não era coisa minha ficar assuntando dos porquês, sabe como? Que essa dona Lia ficava indo lá no Itajubá… Eu fazia o meu serviço e nem por isso. Percebia. Sabia quem era. Beeem direitinho. Ah, sabia. Mas a minha era mais essa de ficar olhando sem ver. E aí vendo sem enxergar de verdade. Se tanto.

[…]

Ah, claro. Que você acaba vendo coisa aqui, coisa ali. E essas coisas daqui e dali que vão te dando uma ideia mais ou menos de quem que é a pessoa. Uma história, sabe como? Mas outro negócio que a gente aprende na marra nisso de trabalhar pros granfinos é que mesmo quando você se distrai e vê, e enxerga o que viu, assim reto e sem contorno, você guarda as tuas ideias, você fica com as tuas impressões pra você mesma. Opa! Foi deslize! Foi meio assim sem querer, sabe como? E não tem porquê e nem dá vantagem de você sair mencionando o que você acha que entendeu das história dos outros. Assim. Dos motivo de uma senhora ficar passando o tempo todo no prédio. Entrando no apartamento dum morador ca-sa-do. Ótima pessoa, o seu Laércio. Encontrei ainda esses dias na feira. 

Não tenho nada que ficar especulando da vida dele nem de ninguém. E mesmo que ficasse eu não ia sair falando o meus especulos por aí. Assim que você faz o teu nome nesse nosso ramo de zeladoria, aí.

[…]

Olha, se eu tiver que falar eu vou ter que falar que sim. Porque era só quando a dona Zilá não tava. Só quando ele tava sozinho. E não era assim visitinha de quinze minutos não. Era bem bem mais. Era meio de chamar atenção, sabe como? Por mais que eu fizesse a minha força pra não enxergar porque eu era invisível e tudo. Um entra e sai danado.

[…]

Durou acho que uns dois ano. Pelo menos até eu sair lá do Itajubá, por causa de umas intrigasda moça… da outra moça que dividia os andar comigo. Se não fosse por isso acho que eu estava lá até hoje. Estava fazendo o meu nome, já. Estava me cuidando. Puta vaca, aquela lá. Desculpa. 

Mas foi isso, então, até onde eu possa dizer pro senhor. Nem que eu não quisesse ver, sabe? Porque era direto. E era na cara dura. Na cara de todo mundo.

[…]

É. E aí você vai meio que juntando os fiozinho e começa a prestar atenção na tal da pessoa. Moça altiva. Ainda mais pra mim que sou assim baixota. Porque depois que você percebeu, nem que seja sem querer, depois que você chamou a atenção pra ela, você começa a ir juntando os fio, e aí vai montando uma historinha, nem que seja só tua, e que você não conte pra ninguém. E com essa tua dona Lina foi assim. Por isso que eu posso dizer que conheço ela bem. 

Aquela cara de dissimulada. Aquele jeito de fingir que não via a gente. Aquela pose de rata peluda andando pelos canto escondida porque sabia que estava fazendo coisa errada, errada, errada!, mas ao mesmo tempo pisando que nem se fosse a rainha do Itajubá. Uma cara de você-nem-me-olhe. Não sei. Não parecia boa coisa, ela. Não tinha nada que a ver com o seu Laércio. E muito-muitíssimo menos com a boazinha da dona Zilá.

[…]

Não. É claro que eu não posso saber-saber, assim. Mas a gente não é cega, né? E a gente viveu umas coisa nessa vida. E aí você aprende a ver quem é quem, quem se faz de quê, quem quer se passar, quer ser mais do que é. Essas coisa. E o nariz empinado dessa zinhazinha não me enganou nem um segundo. Isso eu te digo. Que eu sou boa nisso de avalinhar as pessoa. Da primeira vez que eu vi, já. É da pessoa. Tá nela. É uma coisa que não lava. Que não sai. Da única vez que ela apareceu no prédio arrastando aquele filhinho dela já deu pra ver a pitoja na cara do menino novinho daquele jeito, benza Deus.

[…]

Não?

[…]

Mas então essa Lia não era a do olhão azul?

Sobre o autor

Caetano Galindo

Caetano W. Galindo é professor de linguística na UFPR e tradutor. Autor de "Sim, eu digo sim: uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce" e de "Sobre os Canibais" (contos, no prelo)

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