— Você… você é mais bonita. A minha filha… A minha filha, ela era bonita. Quando nasceu ela era linda. Linda, linda, linda mesmo. Uma coisinha. Mas aí com a vida, com a vida, né… Com tudo que foi acontecendo com a vida dela, a menina foi ficando mais bruta, mais… mais assim meio quadrada, sabe. Uma coisa mais pesada. Acho que eu nem reconhecia mais a menina ali naquela coisa que a Lia foi virando com a vida. Foi ficando feia. Virando a cara. Nem me conhecia mais. Não era assim bonita que nem você, nem por dentro. Não tinha esse cuidado todo. Não tem. Ela deve estar por aí. Cuidando da vida. Ela é nova ainda. Eu que era velho quando ela nasceu. Ela é nova ainda. Deve ter a tua idade até. Mas parece mais. Parece mais acabada que você. Ela foi embora. Foi indo embora, assim, a vida inteira. Teve a filha dela. Não foi mais a minha filha, a Lia. Foi ficando feia, embrutecida. Cansada. Foi me dando as costas. É assim, né. É a vida mesmo. Embrutecida. Mas às vezes me dava saudade dela. Isso antes de ela morrer. Ela morreu, a minha filha. Morreu tem anos já. Sabia? Não te disse? Não te disse… Me dá uma saudade. Ela morreu, todo mundo morreu, e eu fiquei aqui sozinho. Fui ficando. Parece maldição. É a vida. Ela quando era bem pequenininha ela não conseguia segurar a minha mão inteira, com aqueles dedinhos gordos. A gente andava pela rua. A gente andava bastante. Ela sempre ia comigo. Todo lugar. A gente andava pela rua e ela segurava só um dedo. Só aqui assim o indicador. E andava bem feliz. Eu era o pai dela. Ela era a minha filha. Isso antes de ela morrer. Quando era bem pequena. Mas não. Não. A Lia não morreu. Ela só foi embora. Quem morreu foi a mãe dela. Me deixaram aqui sozinho. De mão vazia. A Lia deve estar por aí, cuidando da vida. Quando ela foi crescendo, a gente ia aumentando o número de dedos. Ela começou a segurar dois dedos da minha mão. Depois três. Depois ela segurava os três e eu já conseguia abraçar a mão dela na minha. Mas deixava o minguinho de fora. A gente acostumou assim. O meu minguinho ficava de fora, atravessado, sentindo o pulso das veias dela. A gente andou anos assim. Até agorinha ainda. Antes de ela morrer. Tão nova. A filha dela. Eu estou lembrando é da filha dela. Tão novinha. A Lia deve estar por aí, sozinha, que nem eu. Deve estar bem velha já. Tanto tempo. Acho que a gente nunca andou de mão dada com todos os dedos. Nunca. Cuidando da vida. Porque depois um dia ela foi começando a não me dar a mão. Eu nem percebi quando ela foi indo embora assim de mim. Sei só que um dia eu percebi que a gente não andava mais de mão dada. Ainda antes de ela ir embora. A Lia. Pra longe de mim. Com aquele marido bobo. Esse não morreu. Ah, isso eu aposto. Aquilo não morre. A gente nunca mais andou de mão dada. Nem um dedinho. A minha filha, depois daquele dia que eu não lembro quando que foi, acho que a minha filha ela nunca mais segurou a minha mão. Nem quando eu fiquei velho igual ela. Nem quando eu fiquei sozinho. Nem quando a mãe dela morreu também comigo. Por isso que a minha mão foi ficando assim desse jeito. Tudo morto. Por isso que eu fui ficando sozinho aqui que nem você está vendo. Nunca mais pegou na minha mão. Embrutecida. Lia.
…
— Eu sei… Eu sei… mas senhor tem que tentar descansar um pouco. Eu estou aqui. Eu fico aqui segurando a tua mão, pai.
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