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Crônicas Cultura

Lia – Capítulo 8

Escrito por Caetano Galindo
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Lia joga corrida com amigos nos anos 60 e descobre algo sobre ela mesma

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Romances podem ser como filmes. Este é como um álbum de fotografias.
Como fotos, os capítulos podem ser lido por si sós. Como álbum, o romance pode ser lido em qualquer ordem: o que lhe dá sentido (nos dois sentidos) é a vida que registra.
Lucília Paula Kappelhoff, a Lia.

Capítulo 7

[X]

Capítulo 8

As meninas brincavam sempre no terreno da frente da casa da Wanda. As meninas e os meninos. Às vezes num grupo só, às vezes num conjunto que ia se mitosando, e aos poucos lascando pedaços soltos de um mesmo bando. Pares, trios.

Naquele dia (devia ser sábado, quando o tempo era mais longo) o grupo não já era dos maiores, fim de tarde, e estavam todos juntos decidindo. Não queriam jogar betes, ainda por causa do “incidente” de uns meses atrás. Lia inclusive achava que eles de fato queriam todos jogar betes, mas olhavam desconfiados para ela e mudavam de ideia. 

Deve ter sido lá por 66, talvez 67 então. 

Na falta de ideia melhor, alguns se esfiaparam do grupo e saíram à toa para a praça a algumas quadras dali. Umas expedições que eram só jogar conversa fora, mas que ainda pareciam vagamente transgressoras. Como bem deviam, na verdade. O terreno da frente da casa da Wanda era solo seguro. E só.

Os que sobraram não conseguiam encontrar grandes projetos. Para Lia, tudo devido ao fato de que o jogo normal, a alternativa de sempre estava naquele momento eliminada como possibilidade. Mas não foi ela quem acabou sugerindo a corrida. Jogar corrida, como eles diziam. Deve ter sido a própria Wanda, com aquelas pernas compridas.

O espaço era grande, uma linha reta de uns setenta metros se você ficasse sempre pertinho do meio-fio para evitar o mato que às vezes lançava braços mais audazes e o resto das coisas (cacos, tijolos, pedaços de mesa, um saco de cimento) que com os anos foram indo parar naquele terreno. Ratos? Talvez.

Foram todos para a esquina, seis ou sete àquela altura, dar a largada. É até passar o muro da casa da dona Luz, tá bom?

Um… 

Dois…

Três…

Não. Não. Não. Era pra esperar dizer Já. Alguma risadinha solta, mas no fundo todo mundo sabia que o Nilton fazia de propósito. Fazia pra chamar atenção, pra irritar. Ou pra ganhar a corrida mesmo.

Depois disso, a primeira foi como sempre… e o Nilton ganhou. Se eram mesmo sete, a Lia deve ter chegado em quinto. Alguma coisa assim. Ela não tinha muito fôlego. Meio gordinha na época, e por mais uns anos ainda.

Mas ninguém queria que o Niltinho ganhasse. E decidiram transformar aquilo de corrida em campeonato. Meninas contra meninos (estava só o Niltinho e aquele irmão mais bobo). Ou cada um por si. Não ficou muito claro. E toca andar de volta pra esquina, porque correr no sentido contrário não passava pela cabeça de ninguém.

Segunda bateria. A Wanda, que era a mais velha, ganhou com algum esforço. Mas teve gritaria porque o Nilton disse que seguraram a camisa dele. Era desempatar então. Quiseram correr só os dois, mas as regras do tal campeonato não eram tão claras, e todo mundo quis entrar. O dia estava acabando. Logo as mães iam começar a chamar de volta. Ninguém queria ficar olhando à toa. Só o mais bobo do irmão do Nilton, queu disse que ia cronometrar de cabeça.

Ah, a Lia, nessa segunda corrida, se deu um pouco melhor. Mas não muito. E ninguém nem percebeu. 

Terceira corrida. Leste-oeste. Junto ao meio-fio. Tudo de novo. Um, dois, três… já. O irmão do Niltinho dispara a contagem.

E a Lia começa a correr. É estranho. Mas a lembrança que ela tem dessa corrida é distentida, dilatada, como se tivesse durado uns quinze minutos. A primeira metade foi igual às outras, ela caindo de posição. O Niltinho e a Wanda na frente, aos poucos abrindo distância. Mas foi aí, foi mais ou menos na metade do caminho, respirando pesado, bufando, suada, que a Lia percebeu que aquilo não era correr de verdade. Que estava todo mundo repetindo os mesmos movimentos, respirando do mesmo jeito, querendo chegar antes, mas todo mundo detido por alguma coisa ainda. Algum tipo de amor-próprio. Como que um freio-de-mão. E ela não. A partir dali, não. E pelo resto da vida. Ela decidiu abrir aquela válvula que faltava, correr aquele tanto a mais, aquela velocidade que restava de reserva, sentir os pés quase sem tocar o chão, a cabeça se inclinar um tanto pra trás, as pedras soltas passarem voando por baixo dela, prestes a cair de verdade, prestes a decolar, solta da terra, flutuando livre do cuidado de se prender ao chão do mundo, irresponsabilissimamente acelerada, mais do que todos, mais que qualquer outra pessoa, passando quase sem notar pelo Niltinho e pela Wanda ainda a quilômetros da linha de chegada, perdendo-se dos outros, perdendo-se sozinha, simplesmente porque não cuidava de mais nada, não zelava por mais nada. 

Ela estava correndo de verdade, sem pensar na própria pele; era corpo sem ossos que pudesse quebrar. E o vento. Ah, que maravilha o vento que ela mesma fazia na pele…

As meninas ganharam o dia.

Lia não deixou o Niltinho escrever no gesso.

Leia todos os capítulos já publicados aqui.

Sobre o autor

Caetano Galindo

Caetano W. Galindo é professor de linguística na UFPR e tradutor. Autor de "Sim, eu digo sim: uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce" e de "Sobre os Canibais" (contos, no prelo)

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