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Crônicas diárias destaque

Lia – Capítulo 22

Escrito por Caetano Galindo
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Oi, você não lembra de mim. Nem podia. Faz tanto tempo, né? Mas a gente estudou na mesma escola. No ginásio. Aquele tempo que chamava ginásio, lembra? Acho que a gente nem ficou junta muito tempo. Se eu bem me lembro foi coisa de dois anos, depois você saiu, e eu também nem lembro por quê. Chato, né? Dá quase uma vontade assim de dizer que é triste. Na verdade. Você passou ali pela escola. Eu passei também. Depois a gente nunca mais. Nem nada. na verdade a impressão que eu tenho é que quem estava passando era eu. Eu que era a aluna nova, afinal. Vocês na minha cabeça eram todas alunas dali desde sempre. Eu que estava chegando. Eu que era de fora. Mas o engraçado é que depois eu fiquei, e você foi embora. Mas naqueles dois anos (nem sei se chegou a dois) foi outra coisa. Especialmente no primeiro. Primeira série do ginásio. Eu vindo de outra escola. Bem menor. Mais longe. Uma escola que era meio família. Todo mundo se conhecia. Eu tava em casa. Sempre em casa. Mas não tinha ginásio. Não ia ter. A gente teve que se separar. Cada um pra um canto. Cada uma pro seu um lado. A maioria eu nunca mais nem vi. Assim, que nem você hoje. Só se por acaso. Só sem querer. Mas mesmo assim, quando eu vi, quando a gente se viu assim depois, foi de novo de passagem. Cada um indo pra um lado, voltando pro seu canto. Sem se ver de verdade. Sem ver demais depois. Fui só eu pra tua escola. Pra escola das bonitas. Acho que a mãe que conhecia alguém por lá, e ajeitou um jeito de eu entrar na escola das meninas bonitas. Todo mundo tão limpinho, tão lindinho, tão assim tão diferente de mim. Eu me achava remelenta. Magrela. Danhanha. Dentuça. Ah como eu era dentuça. E ser dentuça na frente de gente desconhecida é mais pontudo. Parecia que os meus dentes tinham crescido mais ainda nas férias. Mas eram vocês. Era o quanto vocês eram bonitas, todas amigas, todas com os dentes bem comportadinhos dentro da boca. Era o que eu achava que vocês enxergavam em mim. No fundo. Magrela, ranhenta, varapau, dentuça. A gente não tinha roupa bonita lá em casa. Eu ia pra escola de qualquer jeito. E só fui ver isso quando conheci vocês, as bonitas, as limpinhas, de saia nova e camisa engomadinha. Aí que eu fui ver o quanto eu era desmazelada. E dentuça. Mesmo sem ninguém apontar. Acho que ninguém apontou. Pelo menos eu não lembro. Era quase pior. Era como se vocês nem tivessem percebido que eu cheguei. Vocês se davam tão bem e se acertavam tanto que a dentuça nova ali na sala mal chamava atenção. Vocês conversavam comigo, até. Ninguém me escanteava não. Mas eu ficava ali atrás dos meus dentões de roceira. Sardenta que parecia até craca. Cotovelo, joelho e pé comprido, magrela e feia. Ah, tão magra e tão feia. Ossuda. Aquele primeiro ano foi dose. Eu fui ficando na minha. Fui me encolhendo na escola. A bem dizer, fui me encolhendo com vocês, porque na escola, na parte da escola mesmo, eu não tive problema, não. Ah, não. Mas entre vocês. Eu ia me sumindo, me apagando. Mas você era quem mais conversava comigo. E eu botava na conta de você ser mais educada que as outras. Eu achava que você era a que tinha sido treinada pra não olhar torto pras dentuças do mundo. Botava na conta de educação. Que os teus pais tinham te dito pra ser atenciosa com os outros. Até o dia que eu falei um negócio e duas meninas riram. Você e mais uma outra lá. A Marlene. A gente estava em pé, saindo das carteiras. Acho que era hora de ir pro recreio. E aí você, do meio do nada, você me abraçou. Eu lembro até agora. Eu sinto ainda. Os teus braços pequenininhos em volta de mim, eu toda comprida, seca de tudo, e a tua cabeça chegando no meu nariz. E você me abraçou. E eu nunca esqueci. Nem mexi na hora. Gelei mas derreti pelo meio. Travada. Depois disso a gente continuou conversando. Que nem antes. E depois depois você acabou foi saindo da escola. Logo você. Eu não. Eu fiquei ali parada. Depois disso foi tudo igual antes. Acho que foi o único abraço que eu ganhei de alguém que não era a minha mãe, naquela altura. Depois disso mudou tudo. Você nem tem como lembrar. Nem sei se eu devia. Mas queria te dizer. Tudo bem?

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Sobre o autor

Caetano Galindo

Caetano W. Galindo é professor de linguística na UFPR e tradutor. Autor de "Sim, eu digo sim: uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce" e de "Sobre os Canibais" (contos, no prelo)

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