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Lia – Capítulo 21

Escrito por Caetano Galindo
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O nome dele é Nélio. Ele não conhece a Lia, e nunca mais vai vê-la. Ele está simplesmente voltando para casa, de uma visita ao sobrinho no hospital. Está saindo de uma gripe pesada, o Nélio. Já vai melhorando, tanto que decidiu que dava pra ir tentar ver o Tuta no hospital. Mas ainda sente uma fraqueza generalizada, um peso nos membros e na cabeça. O médico do Tuta, aliás, não concordou com a decisão. Disse que era melhor ele voltar outro dia.

A verdade é que o menino não tem muita esperança, embora a família ainda não saiba. Ou não queira saber.

O Nélio vem caminhando para o centro, porque aí pega um ônibus só direto pra casa. Anda devagar, meio arrastado, vontade de voltar é pra cama. É um sujeito grande. Alto, largo. Quadrado. Um pouco acima do peso, até, mas ele parece mais imponente do que gordo. Sempre pareceu. Isso mais a cara, a expressão sempre meio fechada, sempre fez com que as pessoas pensassem duas vezes antes de falar com ele. Antes de se dirigir a ele. Como se ele fosse agressivo, áspero, perigoso.

Longe da verdade. Bem longe.

A mulher dele que o diga. Sempre ela quem precisa resolver qualquer coisa que acarrete conflito. Mão-de-obra, serviço. Qualquer um que precise tomar uma bronca pra fazer direito um serviço que está sendo pago pra fazer pra gente, Nélio. Ele não leva jeito pra isso. Uma flor. Grande daquele jeito e manso. Todo molenga.

Se meter com encrenca na rua, então, é tipo a última coisa que o Nélio ia procurar. Ele não briga no trânsito, não levanta a voz pra ninguém. E muitíssimo menos é que ia se meter em alguma rusga que nem lhe dissesse respeito. Procurar as brigas dos outros. Não é a cara dele.

Mas ele não teve como evitar. Não teve como fingir que não percebeu que quando a senhora ali do outro lado da rua dobrou a esquina, o pivete que estava sentado no pé do murinho olhou todo interessado pra ela, levantou e foi atrás, com aquele pescoção de periscópio olhando em volta pra ver se a barra estava limpa. Pouquíssima gente na rua. E o diabo do guri era tão encostado que nem se deu ao trabalho de olhar direito em volta, senão teria visto o brucutu do Nélio na outra calçada, uns oitenta metros mais atrás.

Mas não viu. Vagabundo.

Não tinha como não entender.

A mulher ia caminhando sem nem perceber, preocupada com as coisas lá dela. E o pivete já ia se aproximando dela e metendo a mão no cós da calça pra catar alguma coisa. Faquinha de pão, caco de vidro. A tia ia dançar.

Aquela bolsa ia rodar.

E se fosse só isso…

Mas não havia como saber. O menino estava doidão. Todo sujo, gosmento. Olho estanhado. Não era um assalto “normal”. Era coisa de comprar droga. Não dava pra confiar que naquele desespero ele não acabasse fazendo uma bobeira que um assaltante mais “profissional” nunca ia arriscar a não ser que fosse necessário. Ele podia machucar a mulher.

Que ainda não tinha percebido nada.

Ela atravessou mais uma rua.

No fim da próxima quadra tinha a saída de uma escola. Ali ia ter gente. O menino percebeu que tinha que ser logo e aproveitou o passo de atravessar a rua pra dar uma acelerada e ir chegando de vez na mulher.

A sorte é que era descida.

Com aquele peso nas pernas. Aquela lerdeza na cabeça.

O Nélio não precisou pensar direito. Só olhou por cima do ombro pra ver se vinha carro e começou a dar uma trotada com aquele corpanzil pesado pra tentar encostar nos dois antes que alguma coisa acontecesse. Assaltante é predador. Eles medem os riscos. Ele não sabe que o Nélio é um molengão. Só vai ver que é um cara enorme emparelhando com a mulher. Melhor fingir que conheço ela. Chamar por um nome qualquer pra ela olhar. Assaltante também tem medo. Mesmo armado. Mesmo armado, ia pensando o Nélio na carreira. Ia pensando enquanto percebia que o que o menino tinha no cós da calça não era faquinha. Foi bem quando o pivete olhou pra ver de onde vinham aqueles passos pesados na rua que o Nélio percebeu que era um revólver mesmo. Foi bem quando o menino parou estacado na calçada. Bem quando o Nélio encostou na mulher e disse bem alto, Júlia, quanto tempo!

A Lia quase morreu do coração quando viu aquele crioulo enorme correndo pra cima dela.

Leia todos os capítulos já publicados aqui.

Sobre o autor

Caetano Galindo

Caetano W. Galindo é professor de linguística na UFPR e tradutor. Autor de "Sim, eu digo sim: uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce" e de "Sobre os Canibais" (contos, no prelo)

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