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Lia – Capítulo 20

Escrito por Caetano Galindo
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Houve dias de chuva.

Claro.

*

Na primeira cena duas pessoas saem de uma loja. São duas mulheres. Estão paradas debaixo da marquise. Uma delas, a mais velha, carrega uma bolsa. A outra, nem isso. Sacolas, embrulhos, compras: não. As duas parecem ter inclusive certa aparência de decepção por estarem saindo de mãos limpas da loja. Quase se pode jurar que nem mesmo aquela bolsa contém algo que tenham comprado ali.

Mas pode ser projeção. Você pode estar atribuindo a elas essa expressão de frustração em função da chuva pesada que cai, e que elas contemplam sem fazer qualquer comentário. A mulher de seus trinta e poucos anos, a menina de seus onze, talvez doze.

A chuva é do tipo que estronda, que alaga.

As duas (você não sabe, mas) acabaram de cumprir sua última tarefa no centro da cidade. Ou “na cidade”, como dizia a mais velha. Agora é hora de voltarem para casa.

O ponto de ônibus fica a duas quadras dali, um trajeto exposto, sem marquises outras, sem proteções, quase sem árvores. Pelo menos as calçadas são largas.

As duas estão há mais de dez minutos abrigadas ali, olhando a chuva e pensando se por acaso valeria a pena esperar uma brecha. Que nem mesmo se insinua. A chuva não parece ter planos.

De início conversaram mais animadamente, apesar do barulho da chuva por tudo. Comentaram a força da água. O choque de estarem ali presas sem poder chegar ao ponto de ônibus que no entanto estava tão perto. Elas (você não sabe, mas) saíram de casa sem guarda-chuvas. Ninguém esperava aquele toró.

Depois a conversa foi morrendo, e ficaram ambas só olhando aquela verdadeira cortina d’água. Aquele rio vertical. Sabe-se lá pensando em quê cada uma. Do alto dos seus trinta e poucos, onze, talvez doze anos.

Até que a mãe olha para a filha e segura sua mão:

— Vamos assim mesmo, Lia.

Breve silêncio.

— Tá. Mas tem uma condição. Não pode correr.

E sumiram na chuva.

*

Agora Lia estava com um cachorro em casa. Décadas depois. O cachorro era de outra pessoa (filha?). O dever de ficar com o Zebedeu era dela durante uns meros poucos dias.

Estava chovendo há horas. E o bicho precisava descer pra fazer xixi.

Quando a chuva parou, no entanto, ela não quis descer imediatamente. Achou melhor apostar que o tempo ia ficar assim por um tempo. Que ia dar pra secar um tanto mais as calçadas e os gramados, pro Zebedeu não ficar todo enlameado.

Um pouco era por ela. Secar o bicho dava trabalho.

Mas um pouco era por ele. Pra ele não ficar com aquela cara de sofrimento metafísico que aparece sempre que ele fica molhado.

Esperou meia hora, em que a cada minuto a situação ficava mais favorável mas, com as nuvens ainda pesadas, ficava também mais tensa. Finalmente desceu. Projetou subir umas duas quadras, até a praça pelo menos, e voltar. E foi.

Foi tensa, pensando se sua aposta, se sua espera, não iam acabar sendo a condenação da empresa toda. Se começasse a chover agora, ela não só ia ter que voltar correndo pra casa, literalmente, mas ainda ia ter estragado o que talvez fosse a única chance do Zebedeu dar um passeio naquela segunda-feira.

Aliás, foi agora que ela se deu conta de que tinha descido sem guarda-chuva. Pela madrugada, dona Lucília.

Se chovesse, ia ter que pegar o bicho no colo (ele era gordo e lerdo) e sair correndo, literalmente, até se esconder em casa, já toda molhada, com um bicho frustrado no colo.

Ia subindo as duas quadras e olhando para as nuvens, com a coleira tensionada, sem deixar o cachorro fuçar demais pelos cantos, pelos gramados. Devia ter saído mais cedo. No tempo que ficou esperando, já tinha dado pra fazer um passeio inteiro. E se me chove agora…

Aí ela chegou à praça. O lugar mais alto do bairro.

E foi lá que ela olhou em volta. Foi lá, no ponto mais distante da rota que tinha planejado, quando estava portanto mais longe do teto de casa, quando a corrida, se necessária seria mais longa… foi lá que ela olhou de novo para o céu de nuvens pesadas e pensou que o medo da chuva estava estragando tudo. Até o céu. E era só medo. Não era chuva.

Aquele céu estava lindo.

O ar todo tinha aquela limpeza que só vem depois da tempestade.

As pessoas começavam a sair de casa. Sozinhas. Em pares. Com outros cachorros.

Era uma hora bonita. Ia chover, provavelmente. Mas não agora.

Agora não. Era questão de prestar atenção.

Mas sozinha, porque a mãe já estava morta.

Leia todos os capítulo aqui.

Sobre o autor

Caetano Galindo

Caetano W. Galindo é professor de linguística na UFPR e tradutor. Autor de "Sim, eu digo sim: uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce" e de "Sobre os Canibais" (contos, no prelo)

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