fbpx
Colunistas Crônicas diárias destaque Notícias de Cultura em Curitiba

Lia – Capítulo 15

Escrito por Caetano Galindo
Compartilhe

Ela acordou mais cedo. E foi por isso. A cortina do quarto daquele hotel mal valia o nome: era uma vergonha para a raça das cortinas. E dos hotéis. E depois de ter chegado cansada na noite anterior (mas chegado de onde?) Lia não pensou direito, não cuidou direito, a tonta, e deixou uma fresta gigante entre os painéis. O que na hora, claro (e que hora era, Lia?), não fez grande diferença.

Mas hoje o sol chegou, entrou sem mais nem bem porquê, e ela acordou mais cedo. Tão, mas tão mais cedo do que devia, ou pretendesse.

Foi quando estava esperando no caixa da farmácia, uma, duas quadras distante do hotel (tinha que comprar alguma coisa para aquela dor de cabeça. Logo cedo) que ela começou a ouvir uma música linda. Pelas frestas, pelas frinchas, pelas brechas da dor de cabeça. Uma música reconhecida, mas não. Familiar mas escapada: perdida. Piano.

Um piano tocando sozinho. Linda, a música, ainda que Lia não pudesse definir bem os detalhes. Mas parecia linda.

Ela abriu um sorriso, o primeiro daquele dia de frustrações precoces, e, chegando sua vez de ser atendida, disse à mocinha do caixa: são vocês que escolhem a música que toca na loja? Ao que a mocinha, pela primeira vez também erguendo os olhos para ela, depois de receber o blíster de comprimidos, dizer o valor, aceitar o dinheiro, sem nem lhe mostrar o rosto… A mocinha enfadada, cansada já tão cedo, a mocinha que ainda nem fazia questão de grandes engajamentos pessoais, disse na lata: não tem música aqui, dona.

Ah, não? Mas eu estou ouvindo. Você não está ouvindo?

De novo o olhar que desce para as mãos, a transação somente na boca do caixa. E nada mais.

Lia não tinha motivos para duvidar da informação da menina. Mas ao se aproximar da porta, percebeu que a música ficava ainda mais nítida. Seria alguém tocando num apartamento do prédio em ciminha da farmácia? Ela entra e explica, e… Não, dona. Até tem a Bel do primeiro andar, que estuda piano sim. Mas ela agora está na escola, e não toca bonito assim que nem a senhora está falando. Mas não mesmo.

Mas Lia continua ouvindo a música. E depois de tudo que tinha acontecido (e de tudo que não tinha acontecido) na noite anterior, depois da irritação de ter acordado ainda antes do que horário que tinha de mau grado marcado no despertador, depois de um começo de dia tão pouco, tão… rouco, tão azedo, aquela música que lhe apagava a dor de cabeça, que lhe dava um alento novo, de repente parecia central. Parecia a única verdade da sua vida. E talvez justamente por isso ela não conseguisse encontrar a tal da música.

Uma igreja do outro lado da rua.

Lia atravessa e entra. Silêncio relativo, isolados os ruídos de carros, passantes, certo silêncio, a não ser pela música agora muito mais nitidamente percebida. Limpidamente ouvida. Ficou parada no centro da nave, ouvindo a música que ainda era baixa, mas que agora era presença. Inconteste. Som real. E de onde estava ela via, por trás de um quadro de avisos (festa da paróquia, doação de roupas para o inverno, santa rita de cássia…) o que definitivamente era a cauda curta de um piano antigo. E depois de se deixar ficar por uns segundos ouvindo um pouco mais (ainda surpresa com o volume tão baixo daquele piano ali tão perto, com a delicadeza do toque daquela pessoa), decidiu dar os passos que faltavam para desvelar o teclado, desviar o quadro de avisos e enxergar a pessoa que naquela manhã tão improvável lhe dera um presente tão grande.

Andou, pescocinho esticado para ver mais cedo, ouvir melhor. E a tampa do teclado estava fechada. E a música continuava no ar. Continuava sendo a única coisa boa, a única coisa que ela queria. Inatingível. Salvação: salvação. Ela não queria desistir.

Mas tinha compromissos. Não podia ficar mais tempo caçando a fonte do piano. Procurando a música que a cercava por toda parte, mas aparentemente não existia. Não tinha esse tempo. Abriu a bolsa para pegar o celular e ver as horas.

Ele não estava ali.

Depois de um brevíssimo momento de preocupação, lembrou que tinha colocado o telefone no bolso do casaco pesado ao sair do hotel. Mão bolso adentro. E estava ali com ela.

Na tela o aplicativo do despertador pedindo para ser desligado. O despertador que outra pessoa, num outro momento (mas quando?) havia configurado para tocar não um alarme, mas música. Oferenda Musical, Lia. Oferenda.

Para ler todos os capítulos clique aqui.

Sobre o autor

Caetano Galindo

Caetano W. Galindo é professor de linguística na UFPR e tradutor. Autor de "Sim, eu digo sim: uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce" e de "Sobre os Canibais" (contos, no prelo)

Deixe seu comentário