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Notícias de Curitiba | Vizinhança

Lia – Capítulo 14

Escrito por Caetano Galindo
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— Então cês vêm também?

— Oi?

— A gente tá descendo aqui. Vocês vêm também?

— Quando que ele disse?

— Ontem. Ontem, ainda.

— Mas, pera, Diogo, ontem quando?

— Sei lá, antes da reunião, acho.

— Olha, eu não sei vocês, mas pra mim deu por hoje. Vocês estão vindo ou não?

— Não. Espera. Deixa só eu…

— Vão vocês, deixa a gente rever essa história aqui ainda direito.

— Então tá. Tchau pra vocês, gente.

— Só se cuida com esse indivíduo no elevador!

— Pode deixar que me garanto com o meliante!

— Tchau, então.

— Tchau. Tchau, gente.

— Olha, chegou.

— Segura então.

Paraíso. Isolamento.

Fazia agora duas semanas que a relação dos dois tinha virado outra coisa. E uma coisa grande demais, que quase dava medo. Tão grande que nem bem um com o outro eles discutiam a sensação. Que era dos dois, e eles suspeitavam. Mas ninguém sabia de verdade.

Ninguém ainda sabia. E por alguma razão… ok, não era alguma razão, eles tinham grandes motivos para preferir que ninguém do trabalho ficasse sabendo por enquanto. Todo mundo lembrava muito bem do clima que o pessoal criou na última vez em que um “casalzinho” se formou no escritório. Especialmente a Wanda. Ah, a Wanda… Parecia que nada mais era importante, que mais nada tinha precedência. Por uns quinze dias a vida de todo mundo girou em torno da maravilha que era o fato de o Alex e a Julinha terem “se encontrado”. “Eu tava até desconfiada.” “Eu sempre soube que eles eram meio a cara um do outro, assim, de jeitinho de ser mesmo, sabe?” “Nossa, pra mim foi uma puta surpresa; ela vivia falando mal dele e tudo… bem por isso, decerto…”

Não durou um mês, o casal. A Júlia inclusive foi embora do escritório naquele ano mesmo. Tudo azedado. Melhor deixar a coisa na surdina, eles pensaram sem nem precisar discutir. E mantiveram em segredo. E foram se escondendo, correndo um para a casa do outro à noite, nos fins de semana. Aproveitando momentos isolados de paraíso no trabalho.

Ficou mais fácil esconder dos outros porque a revelação, o relâmpago que caiu na cabeça dos dois foi uma coisa totalmente inesperada (dissessem as comadres o que quisessem) e que por sorte das sortes grandes aconteceu fora do escritório. Quando os dois se encontraram por acaso numa sessão de cinema na hora do almoço. Sala quase vazia. Viram o filme juntos, saíram pra almoçar. Passaram a tarde trocando ideias. Batendo papo. Ficando encantados. Isso no sábado. Segunda cedo ele correu em casa trocar de roupa e eles chegaram separados no trabalho.

Ainda entravam e saíam separados. Ainda ninguém sabia de nada.

Assim, de uma hora pra outra, aquele elevador só pra eles, numa hora em que ninguém mais devia estar no prédio, virou oportunidade (isso foi antes de todos os elevadores terem câmeras). Virou paraíso. Mal puderam esperar a porta fechar. Felizes: tão felizes. Isolamento.

Mas na altura do 14, o elevador parou. A porta se abriu enquanto eles iam cada um para um canto, resfolegantes, e menos de dez segundos depois fechou de novo. Tempo suficiente apenas para eles tentarem se recompor, e verem um corredor vazio. O corredor vazio ainda iluminado, por onde se afastou rapidamente a pessoa que aparentemente havia apertado o botão.

— Nossa! Foi de ver a gente aqui dentro?

Elisa estava lívida. Impressionada com a cena, ainda com o coração acelerado de antes…

— Parece que foi, amor…

— E aquela cara de choro?

— Vi. Toda borrada e tudo.

— Não era a dona Lia lá do 21?

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Sobre o autor

Caetano Galindo

Caetano W. Galindo é professor de linguística na UFPR e tradutor. Autor de "Sim, eu digo sim: uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce" e de "Sobre os Canibais" (contos, no prelo)

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