fbpx
OR
Colunistas Crônicas destaque

Lia – Capítulo 13

Escrito por Caetano Galindo
Compartilhe

Um colega de escola lembra a única cena de Lia que ficou na sua memória, tantos anos depois

Compartilhe

Quer dizer, conheci, na medida em que dá pra dizer uma coisa dessa de uma pessoa que eu nunca mais vi depois que a gente tinha, sei lá, acho que no máximo uns oito anos. Da escola. A gente estudou junto. Quer dizer, estudar, né? Não era grandes coisas que a gente estudava naquela época. Com aquela idade. Mas a gente foi da mesma escola, acho que desde o maternalzinho.

Claro que eu não lembro dela dessa fase. De pré-escola. Eu na verdade lembro de quase nada desse tempo todo. Só umas imagens meio soltas. Nem parece que era eu, às vezes. A mesma pessoa. Nem parece que eu era eu, essa mesma pessoa que eu sou agora, se é que você me entende. Acho que com ela deve ter sido igual…? Um monte de lembranças meio picotadas, em vez de uma pessoa só. Sempre a mesma. Ainda mais assim de criancinha.

Na verdade eu lembro dela só do primário. Primeira, segunda série. Nem sei direito até onde. Porque eu também nem lembro quando que ela saiu da escola. Só sei que depois desse tempo eu não lembro mais dela com a gente. Que era um grupinho meio fechado, sabe? Escola pequena naqueles tempos. Eu lembro meio que de todo mundo. Mas a Lia depois de um tempo sumiu. Não sei por quê.

Aí acho que é por isso que a lembrança dela ficou mais… ficou mais vaga. Mais desligada do resto da vida corrida, assim emendada. Quer dizer, emendada, né? Até parece… Mas eu lembro dela só aí. E pra te falar bem a verdade eu lembro só de uma cena. Só um momento com ela. Com a Lia.

E eu nem sabia o nome dela de verdade!

Assim, depois. Porque todo mundo sempre só chamou ela de Lia. E, putcha la vida, né… Naquela idade ninguém tem sobrenome. Aí ela era só a Lia. E mesmo quando me deu assim uma saudade meio esquisita dela, aquela sensação que eu te falei, de que eu tinha perdido alguma coisa grande por não ter prestado atenção nela, de que ter perdido o contato da Lia podia ter sido uma coisa triste, aí nessa hora já tinha até Orkut e tal, tinha esses jeitos de procurar as pessoas. Ainda agora, com FaceBook, eu ficava pensando que ela bem podia estar por lá. Mas que eu nem sabia como procurar. Não sabia o sobrenome, e nem sabia esse nome inteiro dela.

Lucília, então?

Eitalá.

Como é que eu ia poder imaginar… Lia. Sempre foi só Lia, a Lia.

A cena? Essa que eu lembro? Foi. Tem que ser, né? Se eu só lembro dessa cena, e mesmo assim fiquei com essa sensação de que ela… de que perder… assim, não ter mais visto ela… de que foi uma tristeza, tipo uma oportunidade perdida. Ora, deve ter a ver, né? Mas não parece. Não.
Não.

Foi só que ela penteou o cabelo pra frente, assim, com a mão mesmo. Penteou, né? Ela bagunçou o cabelo dela, que eu lembro que era bem fininho, e virou pra trás na carteira, pra olhar pra mim. Ela virou pra trás, com o cabelo todo despenteado pra cima do rosto, com uma cara meia vesga e uns beiços arreganhados, e fez uma cara de monstra. Só isso.

Monstra.

E claro que ela era bonitinha. Todo mundo era bonitinho com oito anos de idade. (Menos o Emílio… o Emílio, não…). Mas eu lembro assim do contraste. Daquela menina pequenininha, bonitinha, com cara de monstra, bagunçando o cabelo. E eu lembro que na hora mesmo eu pensei que isso não era uma coisa que a gente esperava das meninas. Esse tipo de maluquice. No meio da aula! A gente, os piás, tudo bem.

Mas as meninas não. E ela, a Lia, ela nunca tinha dado sinal de que era maluquete.

Foi só isso. Só aquele dia.

E eu nunca mais esqueci daquela carinha de monstra. Tão, mas tão lindinha… Porque ela fez pra mim, sabe? Só eu que vi. Ganhei de presente. E eu lembro que eu ri horrores, querendo não rir, querendo não fazer barulho pra Tia Roseli não ver.

E ela virou pra frente de novo e pronto. E ficou só aquilo.

E depois ela saiu da escola. Acho que saiu.

E a gente não dá valor, né, pra uma coisa dessas assim comum, assim no meio da vida toda. Mas ao mesmo tempo… se a gente não dá valor, como é que guarda? Porque que eu não esqueci esse dia?

E depois a gente nunca mais se viu.

E na minha cabeça fica parecendo que aquele dia foi o único dia que eu enxerguei de verdade a Lia. Lucília. Só ali que eu vi a Lia de verdade.

E aí ela virou pra frente e sumiu da minha vida pra sempre.

E agora morreu, então? Que horror, rapaz. Puta vida de merda.

Leia todos os capítulos aqui.

Sobre o autor

Caetano Galindo

Caetano W. Galindo é professor de linguística na UFPR e tradutor. Autor de "Sim, eu digo sim: uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce" e de "Sobre os Canibais" (contos, no prelo)

Deixe seu comentário