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Lia – Capítulo 10

Escrito por Caetano Galindo
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Romances podem ser como filmes. Este é como um álbum de fotografias.
Como fotos, os capítulos podem ser lido por si sós. Como álbum, o romance pode ser lido em qualquer ordem: o que lhe dá sentido (nos dois sentidos) é a vida que registra.
Lucília Paula Kappelhoff, a Lia.

Onde Lia tenta aprender a ser como um dia foi vista; a tratar de si própria como um dia tratou sua filha.

É só o que você faz quando quer acalmar um nenê.

(Lia está sentada no chão, apoiada na porta da entrada, abraçada aos joelhos. Já passou da hora do dia em que se devia ter acendido uma lâmpada. Mas quando ela fechou a porta e se deixou ficar pelo chão o sol ainda estava na janela.)

É o seguinte. Primeiro você verifica os motivos mais óbvios. Se a criança sujou a fralda, se está com fome. Talvez tenha alguma dor, e seja melhor ir ao médico. Quem sabe seja apenas sono. Mas em alguns casos a criança simplesmente está infeliz. Descontente. Irritada, talvez?

É muito difícil saber ou supor o que se passa na cabeça de um ser sem linguagem. Lia lembrava de ter visto a filha de mãozinhas fechadas, cara quase roxa, berrando feito louca, depois de já ter (ela, Lia) verificado os motivos mais óbvios. E a menina, nada. A menina ali gritando incontida, sofrendo, sofrida. Lia lembra de ter pensado, fale, menina. Me diga. Por favor me diga o que é. Porque é muito difícil saber, enquanto elas não falam. Parece revolta.

Não é anormal que crianças de três anos, por exemplo, tenham uma compreensão súbita e muito direta da morte. Da mortalidade sua e dos pais. Que fiquem inclusive algo obcecadas por essas ideias. Pode não ser a regra. Mas não é de todo incomum que seja assim tão cedo. Quem é que pode dizer o tipo de impacto que tem uma ideia como essa num cérebro de três aninhos de idade? Quem há de imaginar o tipo de choques que esse mesmo cérebro pode ter encontrado aos três meses. Parece revolta. Mas é muito difícil saber. Às vezes a criança simplesmente chora. Qualquer criança.

Nesses casos, o que você faz é pegar no colo. Levantar a criança do berço (isso é o que você faz se for a Lia, pois era isso que ela fazia). Levar até um canto quieto, normalmente ao lado de uma janela. Ela não sabia porque a janela parecia fundamental. Mas parecia fundamental. Clareza? Frescor?

Erguia a criança do berço, punha no colo em diagonal, com a cabeça bem perto da sua, sustentada por trás por dois dedos, pela mão, a depender do tamanho da filha em cada situação. O importante é que o rosto da criança se encaixe na curva do pescoço. O importante, para as duas envolvidas, é sentir pele contra pele, calor no calor. Cheiro. Pele e cheiro. Porque é aqui, porque é a partir daqui que a própria criança, no fundo do seu desespero incompreensível, passa a ser a fonte da calma que você precisa ter para acalmar a própria criança em seu desespero profundo e inapreensível. Você respira a tua filha, inspira. E começa, Lia.

Tudo que você tem que fazer é fazer nada. É se manter calma. Respirar leve, lentamente. E não se abalar. O nenê vai gritar. Vai tremer. Mais velho, vai bater em você com aquelas mãozinhas fechadas. Vai tentar rasgar o teu mundo já que o dele está errado. E você precisa se manter calma, Lia. Calma.

Inabalavelmente calma.

Você precisa demonstrar à criança que ela não vai conseguir alterar o teu estado de calma. E você só consegue isso ficando calma de verdade. Não há como fingir. É sentir essa calma vir do fundo, vir de dentro, vir à tona, por saber que só com ela você consegue fazer a tua filha parar de sofrer com a coisa que nem ela mesma consegue entender. É o teu presente. É a tua força. Ficar calma. Respirar lenta e levemente.

E quando a criança percebe que é em vão. E quando a menina desiste, quando cede, como um cavalo xucro que roda preso à corda que nem vê que vai sendo encurtada, recolhida, com toda a paciência do mundo, dando ao mundo todo o tempo do mundo, calmamente… ela se aninha. Ela se alinha com a tua respiração delicada. Ela acata. E se acalma.

Você vence porque não tentou lutar.

Você ganha o presente que dá.

É simples. É amor. É tudo que você tem, e tudo que entrega. É não se opor, e é não tentar, é estar ali e ser, no meio do horror, aquilo que não é horror, aquilo que é doçura. É esperar. Com calma.

*

(Lia está sentada no chão, desesperada tentando aprender a fazer por si própria o que um dia fizeram por ela. O que Lia ela mesma já fez pela filha. Tentando pôr-se calma e não lutar contra a própria mente, acelerada, esperar que a mente entenda, celerada, e desista, que acate, se alinhe, alinhave, com calma.)

Respira, Lia. Leve e lenta.

Para ler todos os capítulos, clique aqui.

Sobre o autor

Caetano Galindo

Caetano W. Galindo é professor de linguística na UFPR e tradutor. Autor de "Sim, eu digo sim: uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce" e de "Sobre os Canibais" (contos, no prelo)

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