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Judeus progressistas marcam posição e lançam manifesto contra Bolsonaro: "desgoverno"

Signatários reprovam o governo em todas as áreas e lembram que um povo perseguido deve se colocar ao lado das minorias

Judeus progressistas marcam posição e lançam manifesto contra Bolsonaro: "desgoverno"
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Integrantes da comunidade judaica de Curitiba divulgaram nesta segunda-feira (4) um manifesto contra o governo de Jair Bolsonaro e suas políticas em todas as áreas da administração federal. Além de deixar sua posição clara, o objetivo dos 27 signatários é provocar uma reflexão entre a comunidade judaica: como é possível apoiar um governante que já posou para fotos ao lado de um imitador de Aldof Hitler?

O documento sustenta que a posição de um povo perseguido há milênios deve ser naturalmente contrária a qualquer perseguição étnica ou religiosa ou qualquer política de exclusão de minorias. “Não é por mero acaso que, como judeus, estamos do lado absolutamente oposto a Bolsonaro. Fomos colocados nesse lugar pela memória de nosso próprio passado. O judaísmo é todo calcado no humanismo, na solidariedade, no aprimoramento do homem”, diz o manifesto. “O bolsonarismo é o contrário disso (…). As duas posições são mútua e irreconciliavelmente excludentes.”

Tania Baibich, uma das signatárias, avalia que a comunidade judaica tem a obrigação de se manter vigilante em relação à disseminação de preconceitos e a perseguições. “A partir do que aconteceu no Holocausto, temos que enfrentar as injustiças cometidas contra qualquer minoria. Nós nos juntamos aos indígenas, aos terreiros de Umbanda e Candomblé que são atacados, aos quilombolas”, disse ao Plural a professora universitária, psicóloga e doutora em Psicologia Social.

“O espectador é cúmplice. Não existe espectador em relação ao preconceito.”

Tania Baibich, professora universitária e doutora em Psicologia Social.

A pesquisadora e professora universitária dedicou parte sua vida acadêmica ao estudo do preconceito. Para Tania, um preconceito em relação à comunidade judaica no Brasil é achar que ela é formada somente por conservadores ou apoiadores de Bolsonaro. "Caracterizar um grupo como um bloco homogêneo é a base do preconceito. Olhar para os judeus e achar que esse grupo é formado por indivíduos iguais é a base do antissemitismo", disse. "Somos plurais, queremos mostrar que em Curitiba também temos pessoas ligadas à esquerda, que entendem que a justiça social é fundamental."

O que pode estar ocorrendo entre judeus que apoiam o atual presidente é uma espécie de anestesia baseada na percepção de que somente outros grupos estão sendo prejudicados pelas políticas do governo. "Começa com o negro, o homossexual, o quilombola, mas em algum momento vai chegar ao judeu. Essa é a lição da história", alertou o advogado e escritor Marcelo Jugend, que também assinou o manifesto.

"Também vemos que muitos cristãos apoiaram o candidato que disse que a tortura é uma coisa boa. Não saberia explicar o porquê."

Marcelo Jugend, advogado e escritor.

Barbaridades no Clube Hebraica

Para Jugend, o evento em que Bolsonaro falou barbaridades no Clube Hebraica, no Rio de Janeiro, em 2017, ajudou a estigmatizar a comunidade judaica brasileira como bolsonarista. Naquele dia, o então deputado pelo PSC (o Partido Social Cristão) comparou negros a gado e disse que quilombola "não serve nem para procriar". Ele ainda criticou a demarcação de terras indígenas, o acolhimento de refugiados e prometeu facilitar a posse de armas.

"Bolsonaro foi na Hebraica, falou coisas asquerosas e o pessoal dava risada. Coisas nitidamente racistas. É uma coisa que precisa se analisada, judeu rindo de racismo", comentou o advogado. "Isso serviu para as pessoas dizerem que os judeus apoiaram Bolsonaro. Só que do lado de fora tinha muito mais judeus protestando contra a presença dele do que os que estavam lá dentro."

Membros da comunidade judaica protestam contra Jair Bolsonaro no Clube Hebraica, no Rio, em 2017. Foto: reprodução.

Bolsonaro já declarou que admira Hitler e já posou para fotos ao lado de um imitador do genocida. Em 2015, o vereador do Rio Carlos Bolsonaro convidou um clone de Hitler para participar de uma audiência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara do Rio. O imitador era Marco Antônio dos Santos, que foi impedido de falar pelo presidente da Comissão. Na saída, teve tempo para posar ao lado do então deputado federal Jair Bolsonaro. Santos foi candidato a vereador (derrotado) no Rio pelo PSC.

Já no cargo de presidente, Bolsonaro bebeu leite em uma transmissão ao vivo e um assessor do governo, Filipe Martins, fez um gesto com os dedos que representa as letras WP ("white power") durante uma sessão do Senado. Os dois gestos são usados por supremacistas brancos norte-americanos. Em janeiro de 2020, Roberto Alvim, secretário da Cultura do governo Bolsonaro, gravou um vídeo imitando o ministro nazista da Propaganda, Joseph Goebbels. Ele acabou demitido.

Em julho do ano passado, o presidente recebeu no Palácio do Planalto representantes do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), que foi colocado em vigilância pela polícia do país europeu. Bolsonaro recebeu dois representantes do partido racista em agenda secreta, que só veio a público porque a deputada alemã Beatrix von Storch divulgou o encontro nas redes sociais.

Beatrix von Storch é neta de Johann Ludwig von Krosigk, que foi ministro das Finanças de Hitler durante todo o regime nazista, de 1933 a 1945.

Bolsonaro com imitador de Hitler em 2015 (Reprodução)
Bolsonaro com neta de ministro de Hitler em 2021 (Reprodução)

Leia a íntegra do manifesto

Os abaixo assinados, judeus ligados afetivamente à cidade de Curitiba, tornam público, neste momento, seu absoluto e total repúdio ao desgoverno comandado por Jair Bolsonaro.

Entendemos que é indispensável manifestar por escrito que nos alinhamos inteiramente com todos quantos o condenam, porque ele envergonha o Brasil perante si próprio e o mundo.

A enorme tragédia que estamos vivendo não constitui nenhuma surpresa. Bolsonaro faz exatamente o que toda a sua vida anterior mostrava escancaradamente que ele faria.

Jair Bolsonaro representa o ser humano em profundo estado de degradação.

Mas o que se poderia esperar de alguém que, ao longo de toda a sua vida pública, enalteceu torturadores e defendeu a tortura física de adversários?

No poder, Bolsonaro, como era de esperar, levou o Brasil à Idade das Trevas.

Instalou uma corrupção generalizada e baixa, típica da ignorância parva e da pobreza espiritual que acometem a si e a todos os seus.

Emoldurado permanentemente por um perverso discurso de ódio, e escorado em fraudes de todos os naipes, este governo destruiu a Cultura, arruinou a Educação, queimou a Amazônia, assassinou indígenas, e transformou o Brasil, outrora nosso orgulho perante o mundo, em pária internacional.

Na área da Saúde, revelou sua faceta mais cruel. Ao desdenhar da pior crise sanitária internacional dos últimos cem anos, foi o responsável direto pela morte desnecessária de centenas de milhares de brasileiros, por conta do descaso, da incúria, da falta de empatia e da desumanidade de Bolsonaro, seus ministros e asseclas, e que ainda hoje, 660.000 mortos depois, se repetem sem pudor, remorso ou arrependimento.

O menosprezo pela gravidade da pandemia de Covid-19; a tenaz oposição a todas as medidas preventivas recomendadas pelas maiores autoridades científicas mundiais; a defesa escabrosa das condutas condenadas; as mentiras assacadas diariamente; a propaganda reiterada de medicamentos comprovadamente ineficazes; a displicência canalha, que culminou na tragédia de Manaus; a demora na aquisição das vacinas disponíveis, coroada pela exposição vergonhosa da tentativa de obtenção de vultuosa propina – tudo se fez, e ainda mais um pouco, para matar e deixar morrer a população.

Com boa-fé e objetividade, não há escapatória possível: Bolsonaro é, sim, um genocida.

A súcia que assaltou Brasília, envolvida até o pescoço em políticas que glorificam a morte, despreza solenemente os valores mais caros ao que o homem construiu por milênios, e denominou civilização: cultura, educação, saúde, direitos humanos, ecologia, justiça, respeito à diversidade. Isto para citar apenas alguns.

Tudo aliado a uma política econômica ultraliberal verdadeiramente degenerada, cujo resultado, também previsível, é o sofrimento cruel de milhões de brasileiros. Desemprego recorde, informalidade atroz (jornadas de até 16 a 18 horas diárias em total desamparo, e sem perspectivas de uma aposentadoria digna), miséria avassaladora, fome exposta de maneira vergonhosa nas esquinas de todos os recantos do país.

Bolsonaro não apenas enalteceu a violência, como muitos são enganadoramente levados a pensar, mas guindou-a ao centro do poder. Hoje pouca dúvida resta de que as milícias assassinas que dominam o Rio de Janeiro influenciam decisivamente os destinos do País.

Não é por mero acaso que, como judeus, estamos do lado absolutamente oposto a Bolsonaro. Fomos colocados nesse lugar pela memória de nosso próprio passado. O judaísmo é todo calcado no humanismo, na solidariedade, no aprimoramento do homem. Por exemplo, ele privilegia o Tikum Olam (“consertar” o mundo), e isenta de culpa por furto de alimento viúvas e órfãos necessitados. O bolsonarismo é o contrário disso.

As duas posições são mútua e irreconciliavelmente excludentes.

Ao nosso ver, portanto, é rigorosamente impossível ser, ao mesmo tempo, judeu e bolsonarista.

O mais eloquente exemplo disso é a descarada idolatria não só do fascismo como do próprio nazismo, tão evidentes neste governo.

O presidente posou orgulhosamente ao lado de um imitador de Hitler, declarou-se admirador deste, apoiou por escrito pelo menos um grupo neonazista e, como se não bastasse, recebeu em seu gabinete, com honras de estado, uma política alemã de extrema-direita umbilicalmente ligada ao nazismo, por convicção e até laços familiares. Seu secretário de cultura foi à televisão imitar desavergonhadamente o tenebroso Ministro de Propaganda nazista Joseph Goebbels, e vários de seus assessores mais diretos foram flagrados praticando ou endossando símbolos de supremacismo branco.

Claro que o resultado, mostrado em pesquisa de 2021 da antropóloga Adriana Dias, é o crescimento significativo (de 334 para 530) do número de células neonazistas no Brasil somente nos 2 anos anteriores.

Tudo isso assombra qualquer pessoa civilizada. Mas, quando se é judeu, a mais notória vítima do nazismo, ao assombro deve se associar um permanente estado de alerta.

Nossa postura se origina de um lugar especialmente singular. A comunidade judaica brasileira tem sido vista, de maneira genérica e equivocada, como conservadora. E Curitiba, por sua vez, é considerada – infelizmente com alguma, mas não toda, razão – como a capital símbolo do reacionarismo no Brasil.

Somos judeus, com nitidez e orgulho. E temos, cada um a seu modo, uma ligação amorosa com esta cidade. Inobstante, nos entendemos inequivocamente progressistas.

Não são poucos, em Curitiba, os progressistas que lutam e resistem, bravamente. Pois é com a cabeça erguida e o peito estufado que afirmamos que entre eles há, sim, judeus. Artificialmente colocados nas sombras, agora estamos vindo à luz.

E vamos lutar, até o limite das nossas forças, pelo fim do retrocesso e do obscurantismo obscenos que hoje desgraçam o Brasil, pelo pleno restabelecimento do Estado Democrático de Direito, e por um país soberano, justo, fraterno e generoso para com todos os seus habitantes.

O momento político exige grandeza e coragem. É preciso derrotar Bolsonaro e seu projeto fascista de poder!

Curitiba, 4 de abril de 2022.

1 – Tânia Maria Baibich – Professora Titular da UFPR
2 – Débora Iankilevich – Jornalista
3 – Jaime Cohen – Professor Associado, Universidade Estadual de Ponta Grossa.
4 – Peggy Distefano – Tradutora e intérprete de conferência
5 – Marcelo Jugend – Advogado e escritor
6 – Gitel Bucareski – Professora aposentada
7 – Thaís Kornin – Pesquisadora de temas urbanos e metropolitanos
8 – Marcelo Gruman – Antropólogo
9 – Sarita Warszawiak – Psicóloga sanitarista aposentada
10 – Rebeca Sachs Iankilevich – Pedagoga
11 – Renata de Sant’Anna – Antropóloga
12 – Ilan Kuczynski Kessel – Educador Físico
13 - Michel Ehrlich – Historiador e professor
14 – Eliane Berger – Diretora e atriz
15 – Konrad Yona Riggenmann – Pedagogo e escritor.
16 – Sérgio Feldman – Professor Titular da UFES
17 – Paula Distefano – Jornalista
18 – Noemi Osna – Jornalista e radialista
19 – Iara Feldman – Psicopedagoga
20 – Horácio Sendacz – Aposentado e acordeonista
21 – Bruno Hendler – Professor Adjunto da UFSM
22 – Aritanan Osna Carriconde – Biólogo
23 – Rudá Osna Carriconde – Técnico eletrônico
24 – Marli Osna – Professora aposentada
25 – Élio Luiz Mauer – Médico Psiquiatra – ex-professor da UFPR e PUCPR
26 – Gabriel Paciornik – Programador
27 – Tali Warszawiak Miranda – Jornalista e cozinheira

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