Tenho procurado escrever sobre a vida, as pessoas, as cidades. Sobre a minha vida dentro disso, minhas andanças, perambulações. Sobre os encontros e o me perder em sítios que não conheço bem, que ainda não experienciei. Me interesso pelo que me ensinam e pelo que me ocultam. Pelo que está, pelo que foi, pelo vir a ser.
Nas frestas das agendas de trabalho, no tempo que sobra do tempo corrido, no espaço possível, faço uma intuitiva programação paralela à oficial. Gosto, claro, de conhecer os lugares elegantes, os prédios públicos de morbífica beleza. Mas também gosto de conhecer os lugares simples, os cantos comuns, as áreas menos privilegiadas, os centros antigos e abandonados lindos de feios.
Peço dicas, acato ou não as sugestões. Vou tateando no escuro, chego e me informo. Se estou quieto estou admirando ou estudando se é seguro. Procuro não trazer preconceitos na mochila. Acho bom ser um desconhecido a conhecer: a cultura de um povo. A cultura me atrai mais do que a política (claro que no conceito amplo de cultura a política não só está como é impossível desviar dela).
Pois é, a serviço passei a semana lá no topo da República Federativa. E fiquei estupefato com a monumentalidade do projeto arquitetônico e de engenharia que ali se realizou em 1960. A Catedral Metropolitana, os Palácios do Planalto e da Alvorada, o Congresso Nacional (ainda mais por tudo que representam para nossa democracia) são realmente primores irretocáveis, maravilhas das mais luzentes que há no planeta.
(Quero aproveitar para lembrar aqui o nome de Joaquim Cardozo que, além de ter sido um estupendo poeta (pouco citado), também foi o engenheiro responsável pelos projetos estruturais que permitiram a construção destes notáveis e complexos monumentos desenhados por Niemeyer. Pois bem, foram os revolucionários métodos de cálculo para a concepção estrutural do concreto armado desenvolvidos por Cardozo, que permitiram a realização daquelas formas. Assim, o engenheiro contribuiu genialmente para a renovação da arquitetura mundial).
Ao mesmo tempo que tudo isso me arrebatou, não deixei de prestar atenção no taxista contando sobre seu avô, candango cheio de orgulho que, além de participar da construção dos monumentos, ainda expressou o seu talento de tal maneira que ficou conhecido como o melhor forrozeiro da história de Candangolândia, cidade satélite.
Da mesma forma, em visita institucional à Biblioteca Nacional, me emocionei com a bibliotecária que, quando criança, vivia entre os operários acompanhando o pai (era um deles, e viúvo precoce), que não deixava a filha longe de sua vista e foi responsável por sua formação cidadã. Quando o prédio ficou pronto, ela profetizou: “um dia vou trabalhar aqui, fazendo uma coisa importante para as pessoas. Eu não queria ser importante, queria fazer algo importante para os outros. E é o que faço.”
Os antepassados de tantas dessas pessoas estiveram entre os trabalhadores que levantaram não só o Eixo Monumental, mas também as Asas Norte e Sul. Saber disso fez toda a diferença quando percorri a pé os amplos bosques da Norte, entre predinhos sem grade de três andares, com seus pilotis vazados. O bairro todo parece um parque, e as pessoas moram num patrimônio universal tombado pela Unesco. Mas esse título vultuoso não me impediu de andar por ali até dar no Sebinho (406, Bloco C, Comercial, entre quadras — não deixem de ir conhecer).
Trata-se de uma livraria com excelente curadoria, que fez quarenta anos nessa semana. Começou numa portinha, hoje é um complexo com restaurante e café (contando com generosa área externa onde há lançamentos de livros), loja com mimos literários (camisetas, bolsas, broches, bonés, cangas com motivos de retrato de escritores e suas frases) e até um auditório no subsolo (a propósito, os subsolos projetados por Niemeyer, ao contrário de serem caixas escuras, recebem boa luz natural).
Ainda na Asa Norte houve a oportunidade de, numa das noites, irmos beber no Traçado. Simpatizei com um drink que estava na página brasileira do cardápio: Geraldinho, feito à base de cachaça de jambu. Um regalo de combinação adaptada a partir de outra de nome F. Scott Fitzgerald, que eu até teria provado com a reverência devida, afinal foi parte importante da minha formação literária, não fossem os encantos irrecusáveis do nosso.
Tomei três Geraldinhos, um melhor que o outro, um descendo mais pomada que o outro, a produzir mais e mais sonhos de saudade, justo quando seus amores estão em casa e a casa está longe. Conclusão: Brasília é uma cidade dura.