Foz do Iguaçu - Foz do Iguaçu registrou 5.230 ocorrências de violência doméstica com vítima mulher em dois anos, segundo dados oficiais do CAPE/SESP-PR. Foram 2.640 registros em 2024 e 2.590 em 2025. A média é de pouco mais de sete ocorrências por dia.
O levantamento revela dois traços recorrentes nos registros. A maior parte das ocorrências é registrada em residências. O volume também se concentra no início da noite. Em 2024, o CAPE aponta 2.158 registros em residências e 351 em locais públicos. Em 2025, foram 2.143 e 315, respectivamente.
Embora a maioria dos registros esteja ligada a ocorrências dentro de residências, a violência doméstica não se limita ao espaço da casa. Pela Lei Maria da Penha, o enquadramento depende do vínculo entre vítima e agressor, em contexto doméstico, familiar ou de relação íntima de afeto. Por isso, pode envolver não apenas companheiros e ex-companheiros, mas também familiares como pai, padrasto, filho e irmão.
O CAPE/SESP-PR não detalha o vínculo entre vítima e agressor nos registros consolidados. Esse recorte aparece em um estudo baseado em atendimentos do CRAM (Centro de Referência de Atendimento à Mulher) de Foz do Iguaçu entre 2018 e 2021, produzido por Audri Josefa Challco Mercado (UNILA).
No conjunto do período, 79,9% dos casos acompanhados envolveram violência praticada por parceiro atual ou ex-parceiro. Outros 15,2% foram atribuídos a vínculos familiares (como pai, filho, irmão, avô, tio, cunhado e sobrinho). As demais categorias aparecem em proporção menor. Amigo respondeu por 2,7% dos casos. Colega/patrão/chefe somou 2,1%.
Sem testemunhas
A predominância de episódios ocorridos no ambiente doméstico, no entanto, tem reflexo direto na apuração. A delegada-chefe da Delegacia da Mulher de Foz do Iguaçu, Giovana Antonucci, afirma que casos dentro de casa costumam ser um obstáculo central para a responsabilização. “É justamente isso. A falta de testemunhas”, afirma.
Segundo ela, embora haja entendimento jurídico sobre a relevância do relato da vítima, “quando a vítima está sozinha, é muito pouco provável que haja uma condenação”. A delegada acrescentou que os casos exigem ao menos “um mínimo de elemento que corrobore” a versão apresentada.
Antonucci também pontua que parte dos episódios está inserida em um ciclo que dificulta rupturas. “Há muitos casos em que há um retorno da vítima com o agressor”, pontua. Para a delegada, esse movimento pode comprometer o andamento do procedimento. “É muito difícil romper esse ciclo”, resume.
Início da noite concentra registros
Os dados do CAPE também apontam concentração por horário. Em 2025, o maior volume ocorreu entre 18h e 20h. O pico foi às 19h, com 174 registros. Em seguida, aparecem 20h (158) e 18h (150).
A delegada relaciona esse padrão ao período de convivência familiar. “Durante o dia as pessoas costumam estar trabalhando e à noite elas se encontram dentro de casa”. Antonucci também citou o uso de bebidas alcoólicas e outras substâncias como elemento presente em parte dos casos.
Segundo ela, a noite é um momento em que as pessoas “costumam relaxar no sentido de fazer uso de bebidas alcoólicas”, o que aparece associado a episódios atendidos pela rede de proteção às mulheres.
Violência democrática
O levantamento também permite recorte por bairro. Em 2025, as regiões com mais ocorrências registradas foram Três Lagoas (398), Porto Meira (382) e Morumbi (306).
Antonucci explica que o mapeamento territorial permite visualizar as áreas onde os registros se concentram e onde é possível direcionar atuação preventiva e operacional.
No levantamento, os três bairros com maior número de ocorrências estão em áreas periféricas da cidade. “Os dados revelam essa concentração, mas é muito importante deixar claro que a violência doméstica e familiar contra a mulher é muito democrática. Ela acontece em todas as regiões”, destaca.