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Estranhamente me sinto em casa

No Tijucas, dois irmãos mantinham cordas prontas para escapar em caso de incêndio, e faziam rapel com frequência para treinar

Por Admin
Estranhamente me sinto em casa
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Muitas histórias são contadas sobre o Tijucas. A primeira delas chegou até mim quando eu era criança e informava que meu avô tinha sido o empresário responsável pela construção do prédio, o mais alto da cidade até então. Tem até uma placa na parede da galeria em homenagem ao avô, com um texto bem bonito, inclusive.

A segunda informação: para sua esposa, minha avó, viúva, do Tijucas inteirinho havia restado apenas uma única loja no andar térreo da galeria. A loja era alugada para uma ótica.

A terceira: eis que o extravagante e extraordinário Gordo Melo, amicíssimo de meu pai, em sua juventude rebelde (influenciada pelo cinema americano à James Dean), com frequência nas madrugadas cruzava de carro em alta velocidade a galeria.

Só muitos anos depois fiquei sabendo do apelido trocadilhesco que o Tijucas tinha: Tijogas. A chave cômica do epíteto, sem dúvida, tinha a intenção de aliviar a carga trágica de ter havido pessoas que escolheram morrer saltando das alturas daquelas janelas.

Só depois tomei conhecimento dos seguranças de colete preto que ficam para lá e para cá no térreo; dos ascensoristas no elevador, sentados em seus banquinhos, sem tirar os olhos do enorme painel com os botões dos andares; dos tradicionais alfaiates (tendo inclusive encomendado terno impecável justamente com o costureiro que, segundo a lenda, nas gélidas crepusculações curitibanas se transformava em lobisomem; a presença do lendário Chacon, cover e dublador do rei Roberto Carlos; e as narrativas envolvendo loiras fantasmas e outras assombrações que percorriam os corredores de tacos de madeira.

Foi só depois também que os cineastas Rafael Urban, João Castelo Branco e o escritor e artista visual Fabiano Vianna dividiram escritório, na sala 1014 do décimo andar do edifício. Frequentei o ambiente e presenciei, manhãzinha, Urban conversar com samambaias que vazavam dos vasinhos pendurados próximos ao janelão. Urban revelava carinho e cuidado com as plantas, sempre revezando os lados para que não ficassem sem o alimento da luz matinal, fazendo uma explicação detalhada acerca da incidência do sol nas folhas.

Mas de todas as mágicas e alucinações do mastodôntico Tijucas, a que mais me impressionava era a que versava sobre os irmãos Antônio (casado com minha tia Rosa) e Diogo, ambos advogados de carreira bem sucedida. Uma vez que o Tijucas não tinha (até onde sei ainda não tem) escadas de emergência com portas anti-fogo, os irmãos mantinham grossa e longa corda, de metro em metro atada em nó, amarrada a uma pilastra. Em caso de incêndio, desceriam por ela e se salvariam. Até aí, tudo normal, afinal, quem nunca teve uma corda dessas em seu apartamento para caso semelhante?

O impressionante da coisa estava no fato de que uma vez por mês (isso aconteceu ao longo de anos) os irmãos faziam um treinamento para se manterem em dia e podiam ser vistos em seu rapel rudimentar escorregando pelas paredes externas do prédio, pendurados como dois super-herois de terno e gravata, pairando de janela em janela, passando pelas vultosas colunas revestidas com mármore branco, até pousarem na marquise, de onde homem-aranhazisticamente saltavam para a calçada.

Atualmente, trabalhando no centro, bem pertinho dali, tenho ido com assiduidade à galeria do “lugar de lameiro” (significado de Tijucas em tupi), seja para almoçar no Kibe da Boca ou me refugiar nesse horário na sobreloja do Liquori Caffe para ler.

Grande e querido Tijucas, seja em sua ala residencial, seja em sua ala comercial, estranhamente me sinto em casa.

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