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Oitenta e cinco anos de uma tradição que teima em se manter viva

De geração em geração, a Suburbana de Curitiba segue sendo esporte e tradição, representando grupos sociais da capital e levando bairros e comunidades para a glória

Oitenta e cinco anos de uma tradição que teima em se manter viva

Desde 2022, minhas tardes de sábado são ocupadas pelo torneio de futebol amador da capital paranaense: a Suburbana. Já acompanhei belas festas de torcidas e jogos emocionantes (alguns nem tanto). O apito final vem geralmente lá por umas cinco e meia da tarde. Porém, o ato de ir embora do estádio, esse não tem hora. E quase sempre o motivo é o mesmo: as histórias incríveis que escuto de personagens interessantes, entre jogadores, dirigentes e torcedores.

Afinal, é um torneio de oitenta e cinco anos de vida e oitenta e três edições realizadas, com a bola não rolando somente durante a pandemia de COVID-19. São muitas histórias a serem contadas e ouvidas. E essa transmissão oral de lendas urbanas (no caso, suburbanas) me faz perceber, por meio das histórias que unem passado e presente, que nosso principal campeonato de várzea é, sem dúvidas, uma tradição curitibana, resistindo ao tempo sem ignorar que ele passa. 

Por exemplo, a relação de amor entre jogadores e clubes. Os personagens mais antigos sempre recontam a época dos atletas que vestiam as camisas por amor. Se hoje em dia os craques não são necessariamente habitantes do bairro onde jogam, ou se recebem valores que se aproximam mais de salários do que de ajudas de custo, mesmo assim ainda vemos jogadores entregando garra. Percebo em seus rostos que muitos honestamente amam defender o escudo bordado nas camisas que vestem, mantendo vivo o vínculo atleta e clube.

Tradição também por seus estádios que insistem em não sumir entre os prédios, mercados e comércios erguidos nas últimas décadas. A valorização de terrenos e a especulação imobiliária fizeram desaparecer vários campos de terra batida e arquibancadas improvisadas. Os gramados que não existem mais sempre aparecem nas histórias contadas pelos mais antigos. Mas os estádios que seguem firmes, continuam sendo o ponto de encontro de torcidas apaixonadas, redutos da festa da representatividade que o futebol amador proporciona.

Outro tema que sempre aparece são os craques e elencos do passado. Uma lista de nomes, relembrados com brilhos nos olhos. Cada faixa etária com seus ídolos, os mais velhos relembrando jogadores dos anos 60, os mais novos, das décadas de 90. Por vezes, os próprios craques do passado recontam suas glórias do passado. E ao assistir aos jogadores atuais da Suburbana, vejo uma boa safra de artilheiros, goleiros e zagueiros paredões, camisas 10 com toque refinado, e sinto que a tradição do avô contando ao neto escalações clássicas do time do coração perdurará por um bom tempo ainda.

O futebol mudou, de verdade. No nível global e no municipal. Na Suburbana não seria diferente. Contudo, o fio que liga passado e presente na várzea curitibana equilibra as relações entre tradição e modernidade. Ser tradicional e ser estagnado não são sinônimos. Os mitos, as identidades, se transformam e ainda estão presentes em quem faz parte desse campeonato quase centenário.

E as tardes de sábado seguem sendo o auge semanal dessa tradição. A cada apito inicial adicionamos mais capítulos a esse patrimônio cultural curitibano. A várzea curitibana, no fundo, é um belo pretexto para nos sentirmos parte de algo maior.

Daniel Palma

Daniel Palma

Jornalsta formado pela Universidade Tuiuti do Paraná. Integra o portal DRAP desde 2023.

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