O Operário Ferroviário, atual campeão paranaense, está novamente na final do estadual. A vaga veio após eliminar o Coritiba nos pênaltis, em duas partidas eletrizantes. O equilíbrio foi total: dois empates por 2 a 2, com emoções e reviravoltas que confirmam por que o derby “Vovô” – confronto oficial mais antigo do futebol paranaense – é, de fato, um clássico.
A classificação para a final de 2026, porém, tem significado especial para o Fantasma: é a primeira vez que o clube – que completa 114 anos em 1º de maio – disputa a decisão para defender o título estadual. Também é a primeira vez em décadas que o time participa de duas finais seguidas. Nas outras 16 vezes em que chegou à final, o Operário alcançou finais consecutivas em três ocasiões, sendo vice-campeão em todas as disputas: em 1924, 1925 e 1926, contra Palestra Itália, Athletico e novamente Palestra Itália; em 1929 e 1930, diante do Athletico; e, na década seguinte, contra o Athletico (1936), contra o Ferroviário (1937-38).
Entretanto, o controvertido campeonato de 1926 poderia ter mudado esta história, caso o regulamento tivesse sido aplicado corretamente e o tapetão não beneficiasse o clube da capital.
Naquela época, os finalistas do Campeonato Paranaense eram definidos após disputas regionais: os campeões das ligas do interior, do litoral e da capital se enfrentavam, às vezes em partidas eliminatórias, às vezes em torneios todos contra todos, com o melhor dos três levantando a taça. As regras confusas sempre privilegiaram os clubes de Curitiba, que venceram todas as edições até 1955. Houve momentos em que times do interior, por razões diversas – quase sempre envolvendo regulamentos que davam vantagens explícitas aos clubes curitibanos –, desistiram da disputa ou abandonaram o campeonato. Entre 1915 e 1922, nenhum clube do interior havia participado da competição; apenas equipes da liga curitibana e do litoral. O Operário Ferroviário foi o primeiro clube do interior a chegar a uma final, em 1923. Ainda assim, levaria 92 anos para erguer a taça de campeão, em 2015, após 14 disputas finais – a última delas, em 1961, quando perdeu o título para o Comercial de Cornélio Procópio. A primeira agremiação do interior a sagrar-se campeã foi o Clube Atlético Monte Alegre, o CAMA, de Telêmaco Borba, que venceu o Ferroviário em 1955.
14 vices e um título “roubado”
Controvérsias e curiosidades marcam as ocasiões em que o Fantasma disputou finais consecutivas. Uma delas é que, à exceção de 1925 – cuja partida ocorreu em junho daquele mesmo ano –, todas as outras decisões da época foram disputadas no ano seguinte ao da competição oficial: a final de 1924 aconteceu em fevereiro de 1925; a de 1926, em janeiro de 1927; a de 1929, em fevereiro de 1930; a de 1930, em março de 1931; a decisão de 1936 realizou-se em fevereiro de 1937; a de 1937, em abril de 1938; e as finais de 1938 foram decididas em maio e junho de 1939. Em 1936, depois de perder a primeira partida por 1 a 0 para o Atlético, em Curitiba, o Operário desistiu de jogar o segundo jogo, em Ponta Grossa – não se sabe o motivo dessa desistência, mas isso frustrou a chance de o Fantasma decidir um título em seus domínios, o que somente ocorreria em 2025, quando o clube sagrou-se campeão estadual pela segunda vez em sua história.
O Alvinegro da Vila Oficinas também amargou duas derrotas humilhantes para o Ferroviário, seu coirmão da capital: perdeu o título de 1937 por 3 a 2 em Ponta Grossa e 5 a 2 em Curitiba; no ano seguinte, foi novamente derrotado por 3 a 1 em Ponta Grossa e por um acachapante 9 a 2 na capital, ficando com o vice-campeonato de 1938 – a maior goleada sofrida pelo Fantasma em toda sua história.
A mais controversa de todas essas partidas, entretanto, foi a final de 1926, contra o Palestra Itália. Em 31 de janeiro de 1927, ocorreu em Curitiba o que seria o primeiro jogo entre os finalistas. As regras do campeonato estabeleciam que o vencedor da primeira partida, por qualquer placar, sagrar-se-ia campeão estadual, sem necessidade de um segundo confronto. Em caso de empate, uma segunda partida deveria ser agendada em Ponta Grossa. Persistindo o empate, haveria uma terceira disputa, em campo “neutro”. A partida inicial terminou empatada em 2 a 2, o que, pelo regulamento, forçaria um segundo jogo nos domínios do Operário. Alegando “compromissos” jamais esclarecidos, o Palestra Itália nunca se preocupou em agendar essa segunda partida. Uma decisão arbitrária da Associação Sportiva Paranaense – entidade que precedeu a Federação Paranaense de Futebol –, tomada à revelia do Operário Ferroviário, acabou declarando o Palestra Itália campeão daquele ano.
Esse episódio é um dos mais amargos e controversos da história do Fantasma. Caso tivesse ocorrido a segunda partida, conforme previa o regulamento, jogando em casa e com a torcida a seu favor, teria conseguido o Operário vencer o clube curitibano? Haveria outro empate e uma terceira partida? O Palestra teria conquistado o título de forma legítima? Difícil especular, 100 anos depois. O fato é que se o jogo tivesse ocorrido em Ponta Grossa, aquela teria sido a primeira decisão do Campeonato Paranaense fora de Curitiba — o que, por si só, equilibraria parte das vantagens a que estavam acostumados os clubes da capital. Poderia, também, ter resultado no primeiro título do Alvinegro da Vila Oficinas — nove décadas antes da conquista de 2015.
De todo modo, como não houve segunda partida, pelo regulamento, deveria ser considerada vitória do Operário por W.O. — observe-se que, exatos 10 anos depois, o Athletico foi declarado campeão após o próprio Operário desistir de jogar a segunda partida da final de 1936. Mas a regra, na ocasião em que o Fantasma seria beneficiado, não foi aplicada, o que leva a uma conclusão inescapável e provocativa: o título de 1926, legal, histórica e moralmente, deveria ter sido atribuído ao time da Vila Oficinas, jamais ao Palestra Itália.
O episódio, por sua gravidade, nunca deveria ter caído no esquecimento. Há, naturalmente, uma questão prática: seria possível, hoje, uma contestação legal? O fato ocorreu há exatamente um século, e o próprio Palestra Itália deixou de existir em 1971. Ainda assim, o episódio é digno e legítimo de contestação – seja por parte do departamento jurídico do Operário, de sua Torcida Organizada Trem Fantasma, ou mesmo de qualquer torcedor individualmente interessado.
Independentemente do tempo decorrido, a documentação da época comprova o descumprimento do regulamento e a decisão arbitrária dos cartolas da Associação Sportiva Paranaense, o que torna perfeitamente plausível uma ação contestatória ajuizada nos tribunais desportivos competentes, como o Tribunal de Justiça Desportiva do Paraná ou o Superior Tribunal de Justiça Desportiva. O efeito prático de uma eventual decisão favorável seria o reconhecimento oficial do Operário Ferroviário como legítimo campeão estadual de 1926, acrescentando um terceiro título à sua trajetória — ao lado das conquistas de 2015 e 2025 — e reparando, tardiamente, uma das maiores injustiças da história do futebol paranaense.
O passado e o futuro do Operário Ferroviário
Controvérsias à parte, desde o título estadual de 2015, o Operário Ferroviário deixou pra trás o papel de "coadjuvante" ou "primo pobre" dos clubes da capital. O tempo em que era visto como participante quase folclórico, time pequeno, sem competitividade, com uma organização quase amadora, mudou radicalmente nos últimos dez anos: o Fantasma criou uma estrutura técnica, de marketing e profissional de qualidade, conquistou dois campeonatos paranaenses, dois brasileiros (Série D e Série C), participa da Série B desde 2019 (com um breve retorno à Série C em 2023) e, agora, chega à sua terceira final estadual em uma década – feitos que o consolidam como um dos clubes mais competitivos do Paraná. Ninguém mais duvida: o Fantasma voltou a assombrar seus adversários de forma categórica.
Fantasma x Tubarão: uma final histórica
Um dia após carimbar sua vaga na segunda final consecutiva – quebrando um tabu de quase 90 anos e, desta vez, indo a campo para defender o título conquistado em 2025 –, o Fantasma conheceu seu adversário: o Londrina Esporte Clube. No dia seguinte à classificação do Operário, o Tubarão eliminou o Athletico em plena Arena da Baixada com um gol logo aos cinco minutos do primeiro tempo; durante o resto da partida, soube se defender dos ataques do Furacão, que ainda desperdiçou um pênalti e perdeu a chance do empate.
De um lado, o time mais antigo do interior, que ajudou a fundar o futebol no estado. Com sua apaixonada torcida, o peso da tradição e uma trajetória ascendente nos últimos dez anos, o Alvinegro da Vila Oficinas vem com a força de quem aprendeu a vencer, depois de décadas de espera. Do outro, a expressão dinâmica do futebol interiorano, um clube que também passou por reestruturação nos últimos anos, com cinco títulos estaduais na bagagem e a confiança de quem chega à final estadual invicto.
O Fantasma perdeu para o Tubarão na primeira fase, por 2 a 0. Ao lado do Operário, o LEC disputará a Série B em 2026 – portanto, este é apenas mais um capítulo da rivalidade que promete pegar fogo ao longo do ano. Mais do que um título, está em jogo o orgulho de duas torcidas apaixonadas. As torcidas alvinegra e alviceleste podem apostar: depois desta final, não sobrará pedra sobre pedra, nada será como antes, para as duas equipes, independente do vencedor.