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Crônicas diárias Notícias de Curitiba | Vizinhança

Encontro dos caçadores de tesouros

Moedas contam histórias de suas civilizações
Escrito por Ana Justi
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Ao alcançar o topo do primeiro lance de escadas da recepção do Mabu Curitiba Business já é possível escutar os ruídos vindos do salão no mezanino. Os visitantes devem se identificar, anotando nome e CPF ou RG, em uma lista de presença. Só depois a recepcionista lhe entregará um crachá, com os dizeres “61º Encontro Nacional de Colecionadores – Sociedade Numismática Paranaense (SNP)”.

No salão, mesas e cadeiras estão dispostas em três estreitas fileiras. De frente para a Praça Santos Andrade, as persianas brancas estão parcialmente fechadas – a luminosidade perpassa as lâminas, e a copa de algumas árvores pode ser vista nos entremeios abertos. Pouco mais de 60 pessoas, em sua maioria homens, preenchem o local com suas conversas acaloradas.

No salão, as conversas e negociações são acaloradas

Entre o carpete azul, as cadeiras de estofado vermelho do hotel, há uma centena de moedas, cédulas, e medalhas. Alguns poucos expositores trouxeram ainda fichas telefônicas, documentos antigos, cartões-postais e itens olímpicos (como chaveiros, encartes e mesmo bichos de pelúcia). Há ainda uma mesa inteira dedicada a itens de armazenamento e conservação de coleções de moedas e afins.

Um homem, trajando uma camiseta na qual pode-se ler “Clube da Moeda de Curitiba”, dirige-se, brincalhão, a um expositor de fora da cidade: “Eu quero comprar, mas você não quer me vender”, declara ao se voltar para a mesa preenchida por moedas. Do outro lado do salão, outro homem, de meia-idade, vindo de Pelotas (RS), brada entre indignação e enfado: “Vamos fazer uma coisa justa!”. A negociação com o possível cliente segue em tom provocativo: “É o preço que pago lá fora”, justifica – com a voz já meio esganiçada – o vendedor. O comprador pede calma, mas por fim se levanta, aparentemente sem fechar negócio.

As conversas parecem sempre girar entre tons de leve provocação. Quando as coisas não saem bem para alguma das partes envolvidas, sempre há algum outro item de grande valia a ser exibido e exaltado. “Você já viu isso aqui?”, pergunta um dos participantes, sentado à mesa de outro expositor, enquanto tira moedas antigas do bolso da camisa.

Afixadas ao tecido preto que reveste todas as mesas, os papéis revelam os nomes e locais de origem dos participantes: Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Goiás, São Paulo (SP) , Rio de Janeiro (RJ), Fortaleza (CE), Recife (PE), Belo Horizonte (MG). Há moedas grandes e miúdas, algumas poucas estrangeiras, a predominância é nacional – são itens da época do Império, e de tantos outros períodos históricos. Cobre, prata, ouro. Pastas plásticas, cases de plástico transparente, caixas de madeira.

Não há muitos jovens, nem muitas mulheres. Com a recepcionista, são apenas cinco – duas estão por conta em suas mesas, outras acompanham homens, como expositoras. Visualmente, a predominância é de cabelos brancos, ou da falta de cabelos. Apesar da aparentemente uniformidade do público, há um divergência perceptível de estilos e, claro, coleções. “Você pode adaptar basicamente qualquer gosto pessoal para uma coleção de moedas”, comenta Edgar Seratto, historiador e colecionador integrante da SNP. Para ele, as histórias por trás das relíquias são tão distintas quanto as muitas áreas e caminhos para se chegar à numismática.

Seja por histórias como a da “Peça de Coroação”, primeira moeda cunhada no Brasil independente cuja circulação foi suspensa por D. Pedro I – desgostoso por sua representação à moda dos imperadores romanos, de busto nu. Ou pelo simbolismo das moedas dos leprosários, criadas para evitar o manuseio do dinheiro vigente, por medo da propagação da hanseníase, pequenos fragmentos históricos circulam pelo salão, entre dedos enrugados, negociações e olhos atentos aos detalhes.

Sobre o autor

Ana Justi

Ana Justi é jornalista, graduada na Universidade Positivo (UP), e tem formação em Letras pela Universidade Estadual de Maringá (UEM).

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