Pular para o conteúdo

Em meio ao tumulto da redação, o riso do Cris funcionava como um calmante

O que vi depois do crime brutal contra o Cristiano foi uma inundação de mensagens de amor por ele. E eu consigo entender

Em meio ao tumulto da redação, o riso do Cris funcionava como um calmante
Publicado:

Convivi com o Cristiano por muitos anos em uma redação de jornal. Quem está lendo talvez não saiba, mas redações de jornal, principalmente as grandes, são lugares barulhentos, cheios de gente estressada e com um grau significativo de vaidades em conflito. O lugar em que nós trabalhamos era assim, com mais de uma centena de jornalistas fazendo tumulto durante manhã, tarde e noite.

Nos anos todos em que vivi perto do Cris, nunca vi ele fazer parte dessa balbúrdia. Estava sempre tranquilo, com um rosto plácido de quem está em paz com o que escolheu fazer. Nunca vi o Cristiano gritar, levantar a voz ou mesmo parecer irritado. E isso, naquele ambiente, era um tanto raro.

Pelo contrário, quando lembro de conversar com o Cris, as frases dele vinham entrecortadas de risos. Sujeito pacato, vivia rodeado de repórteres mais jovens que tinham nele um exemplo, e da moçada que fazia parte do programa de treinamento para jornalistas mirins.

Pra mim era bem óbvio que ele tinha achado o lugar certo para estar. O Cris tinha encontrado o seu lugar no mundo. Pra mim, e acho que para tantos outros, ver aquela alegria simples no meio do tumulto era um calmante.

Enquanto para a maior parte de nós, o melhor momento do dia era colocar um político contra a parede, conseguir uma notícia que ninguém mais tinha ou fazer um texto de opinião pra mostrar quem sabia mais sobre um assunto qualquer (que normalmente seria esquecido no dia seguinte), o barato do Cris era mostrar para a meninada o quanto fazer comunicação podia ser bonito, divertido.

Não convivi com o Cristiano fora da redação, mas não consigo imaginar que ele fosse muito diferente. Um sujeito tão tranquilo que às vezes chegava a parecer ingênuo; um menino crescido que mesmo depois de ter chegado a editor, já respeitado por seu trabalho, nunca abriu mão desse lado brincalhão, nunca abriu mão de ser fã de Sandy e Júnior, nunca quis se mostrar demais.

Ontem, quando se soube da crueldade que fizeram com o Cris, o que eu vi foi uma enxurrada de mensagens de colegas não só indignados com o crime. Vi também nas mensagens uma incredulidade: as pessoas simplesmente não conseguindo entender como alguém tão dócil pôde ter sido vítima de tamanha brutalidade.

O que eu vi nas mensagens das centenas de colegas não foi só a raiva pelo assassino. Foi um amor verdadeiro pela vítima. E eu realmente consigo entender isso. Acho que todo mundo que conheceu o Cris consegue entender.

Que as vidas que ele tocou sejam um retrato da bondade que, para mim, vai ser sempre o retrato dele.

Rogerio Galindo

Rogerio Galindo

Jornalista, um dos fundadores do Plural.

Todos os artigos

Mais em Obituários no Paraná

Ver todos

Mais de Rogerio Galindo

Ver todos

De nossos parceiros