Amigos dispostos a falar de Denise não haveriam de faltar.
Calha a este texto de despedida, no entanto, ter sido apurado e escrito a partir de um lugar tristemente privilegiado. Em 30 de junho deste 2020 distópico, na presença remota da Comissão Especial da Universidade Federal do Paraná, Denise apresentou seu Memorial Descritivo como requisito à progressão de carreira para Professora Titular. De próprio punho, Denise deixou pronto o seu inventário, “como cheguei até aqui, o que determinou meu trajeto”, alinhavando “influências, escolhas e ações que deram significado à minha vida.”
A foto do rosto bonito e sorridente ilumina a frase que escolheu como legenda desse memorial, “a leitura como Norte e a Escola Pública como caminho”. Logo abaixo, na epígrafe, os versos de Milton Nascimento relacionam os materiais usados na pavimentação da sua estrada: “verdes, planta e sentimento/ folhas/ coração, juventude e fé”.
Denise, com seu ímpeto e curiosidade em permanentemente renovação, foi, de fato, produto puro sangue da escola pública. Nascida em Curitiba, em 1953, foi “a terceira de seis irmãs, primeira a chegar à universidade”. Da mãe, Wanda, herdou referências a agricultores ucranianos e um vago catolicismo ortodoxo.
A infância foi marcada pela timidez, da qual se refugiava na leitura. Portadora de um déficit de cerca de 30% da audição, o convívio lhe era custoso. Reconhece-se como tendo sido uma criança fragilizada, chamada pelo pai, Ari, de ‘manteiga derretida’. Na adolescência, o acesso à Biblioteca Pública levou-a a textos de psicologia e psicanálise que foram fundamentais na metamorfose da menina insegura e distraída em “adolescente rebelde e contestadora com coragem para enfrentamentos de ideias.”
Quis ser médica. Acabou, meio por acaso, na faculdade de Ciências Econômicas, onde se delinearia, desde o início, o que passou a ser o objeto principal de seu interesse apaixonado, “o estudo de como cada um supre a própria existência”. Um olhar para o funcionamento do mundo, para “como as pessoas interagem, se relacionam, criam expectativas, transformam a própria natureza para atender muito além das suas necessidades.” A esse recorte específico dedicou cada um dos seus dias de trabalho, pelo resto da vida.
Foi casada com dois economistas: Nei Fidelis Bichara e depois Sérgio Hardy, este último pai de seu único filho, Diogo, nascido em 1990.
Denise construiu toda a sua história de pesquisa, ensino e ativismo firmemente embasada em duas convicções. Primeiro, de que a Ciência Econômica encontra sua significação nos postulados da economia solidária, “o cooperativismo como forma privilegiada de promover o desenvolvimento humano”. Em segundo lugar, de que a pesquisa acadêmica ganha sentido na proporção em que os saberes da universidade se estendem e se misturam -em via de mão dupla- aos da comunidade.
Paulo Freire e Paul Singer foram suas duas principais referências teóricas nesse trabalho de junção da economia solidária com a extensão universitária como ferramentas de emancipação e cidadania. Oficializou esse casamento enlaçando o mestrado em Economia [O papel da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da UFPR no Desenvolvimento Humano, UFPR, 2003] com o doutorado em Educação [A Dimensão Educativa da Cooperativa Popular, UFMG, 2009]. Durante o mestrado, em Curitiba, viajava semanalmente para São Paulo para cursar, na Usp, disciplina ministrada por Singer.
Durante a graduação, nos anos 1970, atuara no movimento estudantil, na coordenação de uma cooperativa de literatura; foi pesquisadora do Ipardes (Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social); em 1980 concluiu Especialização em Economia do Setor Público pela Universidade Nacional Autónoma do México, tendo sido aluna de Ruy Mauro Marini, teórico marxista brasileiro exilado à época. No início da redemocratização, de volta ao Brasil, militou no PMDB, em seus primórdios; integrou o grupo de profissionais que constituíram o Sindicato dos Economistas. No início dos 1980 ingressou na UFPR, no departamento de Política e Programação Econômica. Participou da criação e coordenação do Curso de Especialização em Desenvolvimento Econômico na UFPR.
Na década de 1990 fez parte da diretoria da Associação dos Professores da UFPR. Abraçou definitivamente a transdisciplinaridade quando sua atuação no Conselho de Ensino e Pesquisa -na defesa intransigente do caráter público e gratuito de cursos de especialização- angariou-lhe antipatias no setor de Economia e a aproximou do setor de Educação da UFPR.
Nesse cenário, integrou o Nec (Núcleo de Educação e Cidadania), em projetos de articulação da universidade com movimentos sociais organizados a partir do Movimento de Defesa dos Favelados, ligado à comunidade de catadores da Vila das Torres, a maior favela de Curitiba. Surgiu daí o projeto de extensão ‘Os catadores de papel – Intercâmbio de conhecimento popular e científico’.
Dessa experiência, e a partir de processos colaborativos com outras organizações brasileiras e internacionais, resultou a Rede de Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares da UFPR, para desembocar no seu projeto de mestrado, na própria UFPR e posterior doutorado em Minas Gerais.
De volta ao Paraná, coube-lhe coordenar o Laboratório de Ecossocioeconomia – Ecolab, aprofundando-se na experiência interdisciplinar no pensar e agir quanto à questão ambiental em sua íntima conexão com os manejos do lixo. Na última década dedicava-se à compreensão dos postulados da Não Violência Ativa, mais uma vez impregnando suas aulas de de economia com conceitos humanistas.
No decorrer de 2017, integrando o Comitê Setorial de Extensão, coordenou, em parceria com o Coletivo Feminista Daisy, o ‘Ciclo de Cinema Bela, Recatada e do Lar’. Falando dessa experiência, Denise salienta o papel da arte no aprofundamento da “consciência do quanto a mulher é esquecida ou subjugada nos espaços do mundo e nas relações”. O ciclo se fechava, teoricamente, na discussão do papel econômico do trabalho feminino doméstico, não remunerado.
Em 2018, celebrando a vida do ícone e antigo professor, organizou o curso de extensão ‘Economia e Sociedade no Brasil Contemporâneo: uma homenagem a Paul Singer’.
Ao longo de sua atividade docente, em mais de uma centena de vezes orientou trabalhos e/ou participou de bancas de seus estudantes.
Portando essa bagagem, que bem lhe poderia ter pesado e precedido, Denise foi a mais perfeita tradução da expressão low profile. Não tinha a pretensão de ser reconhecida, celebrada. Conviveu por anos a fio, em várias tribos, com pessoas com quem estabeleceu fortes laços culturais e afetivos, e que não chegaram a ter uma ideia clara da sua relevância acadêmica.
Isto acontecia, aparentemente, não porque quisesse afetar simplicidade ou humildade, mas simplesmente porque ali os interesses, os assuntos, eram outros. De Minas Gerais, por exemplo, trouxera, além do doutorado, o amor pelos adereços (eram dela, sempre, os mais bonitos colares). A depender do interlocutor, falava de ritmoprática, economia solidária, ou artesanato.
Denise colecionou, ao longo da vida, obras de arte, cestaria, bordados, panos, objetos em cerâmica, livros, discos, “um sem fim de pequenas maravilhas que trouxe de cada viagem, de cada canto”, conta Kusum Verônica Toledo, 69, amiga de longa data e instrutora de Ritmoprática, prática corporal que Denise seguiu, religiosamente, nos últimos anos. “Comprava tudo, porque gostava. Comprava para dar uma força para o artista, o artesão, a comunidade.” Com a mesma facilidade com que comprava, dava o objeto comprado ao primeiro dos incontáveis amigos que nele batesse os olhos e se agradasse. Gostava de dividir, também, o produto da horta que cultivava, seu grande motivo de orgulho.
Era genuíno o seu interesse em compreender o que o outro tinha a dizer, as coisas de universos diferentes do seu. E era com a mesma ausência de liturgia, aliada ao brilho do olhar apaixonado -nunca doutrinador- que falava de seus saberes e convicções, quando calhava de ser esse o assunto.
“Não é pretender que o outro se convença da sua ideia. Há que se interessar pelo que o outro diz, de uma forma que nos permita entender a centralidade do que ele está dizendo, para que você possa argumentar, aprimorar ou modificar a sua própria ideia”. Assim definia Denise o ato de saber ouvir, a bordo da experiência de seu déficit auditivo. “A maior revolução que se pode fazer no mundo é cultivar relações respeitosas”, completava.
Ao longo dos últimos dois anos Denise enfrentou, tratou e venceu um câncer de mama. Atravessou o ano da pandemia envolvida com a produção do seu memorial, o processo de progressão de carreira e seu derradeiro projeto colaborativo de pesquisa, ‘2020 – Demografia econômica do Covid-19 no Paraná’
No começo da última semana de novembro começou a apresentar sintomas respiratórios. No dia 24/11 o quadro se agravou. A família enfrentou dificuldades para conseguir vaga. Foi internada no Hospital de Clínicas da UFPR e logo a seguir removida para a UTI. O coração de estudante se calou na manhã de 14/12.
Denise Maria Maia, sonhadora profissional, professora titular da UFPR por 167 dias, deixou em seu entorno uma comoção perplexa, um sentimento de ‘logo ela...?’. Deixou a cargo de seus companheiros pesquisadores o rastreio e a narrativa do flagelo que a vitimou -quase como em um irônico e perverso acidente de percurso- e que segue sua trajetória de devastação. Raquel Guimarães, 35, também economista, pesquisadora parceira na UFPR, divide seu sentimento entre o luto pela perda da amiga querida e a angústia com os indícios que despontam do levantamento. “Os dados são preocupantes e apontam ainda para o aumento da vulnerabilidade dos municípios pequenos. É evidente a piora significativa dos indicadores dessa segunda onda”, conclui.