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Degolado!

Achar a plaquinha dos degolados era uma brincadeira bem divertida que nos rendia bons momentos de felicidade na minha infância na Lapa

Por Admin
Degolado!
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Uma grande diversão da minha infância era procurar, em meio às dezenas de placas com os nomes dos mortos na guerra que rolou na minha cidade, os *ATENÇÃO* degolados.

Sim.

Os degolados.

É o seguinte... Na minha cidade natal (a Lapa), rolou um cerco de uma guerra.

E morreu uma galera, sabe?

Muita gente mesmo. Pode procurar.

Tristeza, né?

Só que quando a gente era criança, a gente não entendia essa tristeza toda.

Basicamente (e eu posso provar com várias fotos tiradas em máquinas com rolo de filme), eu brinquei muito subindo em canhões.

Muito mesmo.

Porque eles ficavam ali, do lado dos parquinhos, em todas as pracinhas da cidade.

Eu juro!

Pra minha versão criança, parquinhos eram formados por balança, escorrega e canhão.

- Ai, AB, você tá exagerando.

Eu juroooooo! Chama qualquer lapiano dos anos 80/90 que eles te confirmam isso.

Lógico que estavam desativados (eu acho). Mas canhões eram uma espécie de símbolo da cidade. Acho que ainda são.

Tem artesanato de canhão. ARTERSANATO DE CANHÃO!

Então meio que canhão era algo que eu gostava bastante porque me lembrava passeio e parque e talvez um sorvetinho depois.

Referências.

E eu também amava visitar o museu de armas e tirar foto trepada em todo tipo de armamentos bélicos enormes e nas balas de canhão que pesam toneladas.

Tem muitas fotos da pequena Aline criança, sorrindo inocente com um vestido florido e cabelo desgrenhado, atrás de instrumentos mortíferos que, muito provavelmente, destruíram famílias inteiras.

Assim... Uma diversão normal, sabe?

Uma paz, uma tranquilidade, uma bênção.

Minha cidade é um imenso cemitério de guerra, eu não tenho culpa.

Então, a gente ouvia sobre isso desde que nasceu, e fazia trabalhos na escola, sobre o Cerco da Lapa, desde o pré.

E ninguém falava dos horrores da guerra. Nada disso.

É uma visão meio mágica da coisa toda.

São nossos heróis! Nossos orgulhos!

General Carneiro, pra mim, tava ali entre Papai Noel e Jesus. Muito bondoso e salvador.

E aí tem o Panteão dos Heróis, uma espécie de mausoléu de homenagem, com os restos mortais de alguns dos “grandões” e com dezenas de plaquinhas de bronze com o nome dos heróis que lutaram na guerra, e... por algum motivo bem esquisitinho... a forma que morreram.

A grande maioria não se sabe, então a placa traz só o nome. Devem ter virado gosma humana em meio a alguma explosão. Guerra, gente. Guerra.

Outra imensa quantia morreu por ferimento. Normal. Bem normal. Rotineiro, sem graça, sem criatividade, sem talento pra entretenimento.

E aí tem eles: os degolados.

Os degolados eram nosso tesouro escondido entre as dezenas de placas de bronze anunciando a morte por motivos clichês.

Eles eram poucos, mas os mais especiais.

Porque, exatamente por serem poucos, achar a plaquinha dos degolados era uma brincadeira bem divertida que nos rendia bons momentos de felicidade gritando: ACHEI UM DEGOLADO!!!

Enfim a infância, né?

Sempre mágica.

Saudade.

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