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Das rimas de protesto às histórias de vida, a poesia marginal que pulsa no bairro Portão

“Slam do Muma” reúne poetas para transformar vivências da periferia em arte

Das rimas de protesto às histórias de vida, a poesia marginal que pulsa no bairro Portão
Batalha de poesia falada em Curitiba. Foto: Eric Rodrigues/Plural
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Ao lado do Terminal do Portão, na Praça Desembargador Armando Carneiro, dezenas de pessoas se reúnem mensalmente para celebrar a poesia marginal e a arte das ruas como forma de enfrentar o cotidiano urbano. Isso é o Slam do Muma, iniciativa que fincou raízes na região desde 2023.

Inspirado pelas subculturas do rap e do hip hop, o slam — originário de Chicago (EUA) nos anos 1980 — vai além de uma competição poética. É um movimento global no qual poetas usam voz e gestos para abordar temas como racismo, violências e desigualdades.

Na zona sul de Curitiba, há mais de um ano, tudo acontece fora dos espaços do museu que dá nome ao encontro. Em março de 2024, após a intervenção de instituições municipais, o coletivo precisou deixar a marquise que servia como palco. Sem crise, migraram para a praça mais próxima, onde seguem se reunindo. A mudança não diminuiu o ânimo dos envolvidos; pelo contrário, aumentou.

Nesse curto período de atividade, o coletivo se firmou na cena cultural local e hoje reúne uma ampla rede de artistas de diferentes partes da capital e da região metropolitana. Nas noites de evento — que acontecem sempre na terceira quarta-feira do mês — o grupo mantém seus ritos: microfones abertos para recados, além de divulgações e convites para ações no esquema “faça você mesmo”.

Antes de começar os trabalhos na noite de quarta-feira, 30 de julho, Helo (@zyzamaia), mestre de cerimônia do slam, falou ao Plural sobre a sensação de pertencimento que o rap e o hip hop trouxeram para sua vida. Foi nesse ambiente que novas amizades surgiram e que ela se reconheceu como produtora cultural, poeta marginal e escritora. Dessa vivência nasceu seu primeiro livro de poesia, Enquanto Você Não Vinha, disponível em pré-venda.

Tomando a frente do público — cerca de trinta pessoas — Helo fechou a roda no meio da praça para iniciar mais uma edição. Os termômetros marcavam cinco graus quando o relógio bateu às 19h30. Após as boas-vindas, a mestre explicou as três regras básicas da disputa. A primeira: só vale poesia oral — nada de ler textos no palco. “Quem entendeu, grita ‘salve’!”, provoca, e a plateia responde em coro: “Salve!”.

A segunda regra define o tempo: até três minutos por performance. Novamente, “Quem entendeu, grita ‘salve’!” — e o coro responde. A terceira limita recursos musicais e cênicos: cada poeta tem apenas o corpo e a voz para comover. Mais um “salve!” ecoa na praça.

No decorrer da batalha, quatro jurados, escolhidos aleatoriamente na plateia, avaliam as apresentações com notas de zero a dez. “A métrica da avaliação é o que bateu no coração de vocês”, orienta Helo, entregando as pequenas lousas aos voluntários.

Na rodada de teste, o poeta se apresenta, declama e agradece. Gritos e aplausos surgem. Helo anuncia: “Temos um 9,99”. “Credo!”, reage o público. “Temos um 9,98.” “Credo!”“Um 9,85.” “Credo!”“E temos um 9.” “Credo!”. Ela orienta os jurados a não cederem à pressão, lembrando que têm uma função importante. Último aviso: se uma placa mostrar dez, todos gritam um “UOU!” animado. E se um poeta conquistar quatro notas máximas, o público canta em ritmo de funk: “tchu tcha! tchu tchu tchu tcha!”.

Sistema de votação das batalhas. Foto: Bernardo Beduino

A partir daí, silêncio para ouvir cada rima e atenção para captar expressões e movimentos. As palavras tratam das mais variadas opressões sociais, passando pelo racismo, pelo cotidiano e pela violência.

“Negro que pelo senhor do engenho foi chicoteado. Eles argumentaram, estruturaram, relativizaram e, no final de tudo, na história ficaram apenas como senhores do mato. Todas nossas lutas pela história são relevantes, diferentes: Machado de Assis, Zumbi dos Palmares e Luiz Gama, sempre na linha de frente. Pra, no final, a princesinha branca ficar famosa por ter dado de presente. (...) E, graças à luta e à humilhação, eu pude finalmente trazer a superação para os meus irmãos. Eu podia enfim levantar as minhas questão. E vale só lembrar que a carne mais barata do mercado já não é a carne negra, porque nós estamos fazendo ela passar por inflação”, declamou Brutos (@bruthalidade).

Poeta Bruthalidade. Foto: Bernardo Beduino

Entre falas da mestre, avaliações e reações do público, poetas entram e saem do palco sem microfone nem pedestal. É um fluxo democrático e plural. Os gêneros se misturam. “Sinto que não estou sozinha”, disse a poeta Veja Além (@veja_alem), prosseguindo: “Mas se a Babilônia me confina, para ser feliz, aonde eu vou? Paredes e muros de ilusão me fazem esquecer o movimento da vida. Vender meu dia a dia, todo dia, para o patrão não pagar nem meia passagem para perto da saída. O caminho é de concreto, coberto por lixo, mijo e morte. Tem criança brincando com a fome, tem jovem e velho cantando com a sorte”.

Poeta Veja Além. Foto: Bernardo Beduino

No meio dos presentes no Slam do Muma estava NH (@nhvaldeir), frequentador desde 2023. Com 31 anos, há mais de 14 divide o tempo entre a poesia marginal, o rap, o cuidado com o filho pequeno e o trabalho como assalariado. Ainda sonha em viver do que ama e oferecer uma vida melhor ao menino dessa forma.

Sua trajetória começou nas ruas do Tatuquara, onde cresceu e mora até hoje. Na época, conheceu esse mundo ao descobrir a música e as batalhas de rima da região. Atualmente, grava seus próprios sons e se apresenta, de vez em quando, em espaços independentes da cidade. O processo de compor é natural, mas trabalhoso. Tudo é escrito em cadernos ou no bloco de notas do celular.

Na praça que hoje abriga o slam, NH foi o penúltimo a se apresentar na noite de quarta-feira, 30 de julho. Assim que chegou sua vez, mandou brasa:

Aí, não é pelo algoritmo que nós prega, é pelo sentimento que nós carrega. O sistema é uma cobra cega que ainda brinca de pega-pega. Isso aqui não é Las Vegas, olha bem o que cê faz. As lembranças não cabem na estante, por isso o restante deixamos pra trás. É que eles querem matar os nossos sonhos, depois de enterrarem nossos dons, vendo o futuro da humanidade caminhando na mão desses maçons.

Nunca foi fome de vingança, irmão, tá mais pra sede de justiça. Vendo a mentira indo para o espaço, de mãos dadas com a preguiça... É divertido o samba no enredo, esse desfecho virou rotineiro; é os bicho solto lá da sul, que eles não conseguem por por dinheiro. Tô enjoado desse labirinto, arreganhado de tanto palpite. Eu tô com os versos, eu tô faminto, então me manda mais uns beat. (...)

É que eles estão correndo ao contrário, atrás do seu erro hereditário. Onde eu vejo a rota e o rato ruim é do mesmo vocabulário. Só planejo o que interessa, desse teu resto eu quero distância, disposição a todo vapor, filho, que para vocês manda lembranças. (...)

Vejo o segredo sendo exposto, explodindo suas manchetes. Nossa quebrada esburacada, que eles adoram tampar com chicletes. Não manuseio o seu receio, eu bombardeio sua amnésia. O misterioso é perigoso, é que a vaidade caminha com pressa. 

Amor ao próximo? Tá escasso. Bajuladores? Tão na escala. E os digitais não ajuda mais, se não tiver com uma câmera na sua cara. É preciso unir os fãs, como se fosse um only fans, mas a regra é acertar uma pedra e quem mandou morder a maçã? E esse mundo é um moinho e a beleza exposta à mesa, só nem veste no tigrinho, irmão, deixando de lado tua tigresa. 

Paz, família.

Poeta NH. Foto: Bernardo Beduino

Este texto faz parte do projeto Periferias Plurais, em que jovens de Curitiba e região são convidados a falar de suas vidas e suas comunidades. O projeto tem apoio do escritório de advocacia Gasam e da Itaipu Binacional.

Eric Rodrigues

Eric Rodrigues

Repórter, fotojornalista e documentarista. Mestrando em comunicação pela UFPR. Participante do 15º Curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Autor de "Comadre São".

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