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Moradia popular ajudou a criar bairros mais caros de Curitiba

Criação da Cohab, sistema trinário e o Sistema de Financiamento Habitacional ajudaram a organizar a ocupação urbana na região e estabelecer a estrutura que hoje a torna atraente

Moradia popular ajudou a criar bairros mais caros de Curitiba
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Uma das regiões mais valorizadas de Curitiba é também um exemplo do resultado de décadas de políticas públicas de moradia popular. O Plural conta aqui como o Água Verde, a Vila Izabel e o Santa Quitéria chegaram até aqui como bairros valorizados e com infraestrutura invejável, com apartamentos e casas à venda avaliados em milhões.

Esta é uma história que começou nos anos 1950, depois do fim da Segunda Guerra Mundial, quando a cidade identificou um grande déficit habitacional. O país ainda não tinha políticas habitacionais estabelecidas e a iniciativa privada estava investindo em imóveis no Centro da cidade e para a população mais rica. Sobravam os servidores públicos e trabalhadores de chão de fábrica que precisavam de moradias que não estavam sendo construídas.

No início, a construção de imóveis populares e acessíveis começou com recursos de instituições de previdência dos funcionários de instituições públicas. Segundo o arquiteto da Cohab Ricardo Serraglio Polucha em artigo científico publicado em 2019, ainda nos anos 1940 a Caixa de Aposentadoria e Pensões dos Servidores Públicos dos Estados do Paraná e Santa Catarina começou um projeto habitacional no entorno das instalações da Rede Viação Paraná – Santa Catarina (RVPSC), com parte das unidades destinada a funcionários especializados.

A Vila Oficinas acabou dando nome ao bairro que fica entre o Capão do Imbuia e o Centenário.

Na mesma época a Prefeitura de Curitiba investiu e um conjunto habitacional no Santa Quitéria para funcionários públicos construído pela Irmãos Thá. Outros projetos semelhantes foram implantados nas décadas seguintes. Se hoje a área é densamente ocupada, nos anos 1950 a 1970 boa parte da região era ocupada por chácaras ou ainda estava desocupada.

Outro grande projeto na região começou no fim da década de 1940, com o início da construção da Vila dos Bancários na região que hoje fica na divisa da Vila Izabel com o Santa Quitéria. Os dois projetos ocuparam terrenos da prefeitura, cedidos para a construção e foram financiados por instituições previdenciárias.

Com a dificuldade em fazer frente ao déficit habitacional, o Estado começou a estabelecer políticas públicas nos três níveis governamentais: federal, estadual e municipal. No Paraná, a Caixa de Habitação Popular do Paraná foi criada na década de 1950.

"O primeiro conjunto habitacional construído pela CHPEP foi no bairro Santa Quitéria, em terreno vendido por preço simbólico pela Prefeitura. O conjunto habitacional era composto de 48 casas de alvenaria de 55 m², com três quartos, sala, cozinha e banheiro. Também foi construído um armazém de produtos para abastecer a população. As obras tiveram início em 1950 e conclusão em 1951, ainda na gestão do governador Moyses Lupion", relata Polucha.

Em Curitiba, a criação de um arcabouço legislativo na área de infraestrutura e habitação começou nos anos 1960. Entre 1961 e 1967 a prefeitura criou e aprovou o Plano de Habitação e o Plano Diretor, estabeleceu a Companhia de Urbanização e Saneamento de Curitiba (URBS) em 1963, estabeleceu a Política de Habitação do Município de Curitiba em 1964 e criou a Companhia de Habitação Popular de
Curitiba (Cohab) em 1965.

Por fim, em 1970 a cidade estabeleceu o sistema trinário, com as vias exclusivas para ônibus ladeadas por vias de tráfego lento dos dois lados e vias de tráfego rápido também dos dois lados.

As políticas habitacionais, somadas a legislação de ocupação de solo e desenvolvimento urbano foram a tempestade perfeita para a região. Na década de 1970, o primeiro projeto habitacional vertical da Cohab foi construído no Água Verde: o Residencial Mato Grosso, com 80 apartamentos.

No início da Ditadura Militar o governo federal criou o Sistema de Financiamento Habitacional (SFH) que passou, a partir de 1967, ter como recurso principal as receitas do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Esse conjunto de políticas públicas permitiu a construção de inúmeros projetos habitacionais na região, o que promoveu a urbanização de uma área que ainda era majoritariamente rural.

Por um lado, a implantação de prédios e condomínios habitacionais estabeleceu um padrão de urbanização básica, com a expansão da rede elétrica, acesso a água e padrões construtivos definidos. Na divisa entre o Água Verde e a Vila Izabel, o sistema trinário criou uma área especial no entorno da via exclusiva do transporte coletivo, cercada por uma região regulamentada como Zona Residencial 3 e 4.

Na ZR-4 a legislação limitou projetos verticais habitacionais e comerciais a seis pavimentos (atualmente empreendimentos recentes utilizaram a transferência de potencial construtivo para extrapolar esses limites). Isso criou regiões menos densas próximas da canaleta.

A área em torno da canaleta dos ônibus por sua vez foi definida como Eixo Estrutural, com liberação para construção de prédios mais altos, assim como o estabelecimento de comércio e serviços.

O resultado foi uma ocupação mais ordenada da região, com estrutura e urbanização padronizada, características que hoje atraem negócios e valorizam os novos empreendimentos.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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