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Fotógrafas em foco: uma cidade registrada por diferentes gerações de mulheres

Em alusão ao Dia Mundial da Fotografia, celebrado em 19 de agosto, série especial reúne reportagens sobre a relação de Curitiba com a imagem

Fotógrafas em foco: uma cidade registrada por diferentes gerações de mulheres
Capa do livro-reportagem "Elas em foco", apresentado por Heloisa Nichele como Trabalho de Conclusão de Curso em Jornalismo pela UFPR em 2019.

Motivada por um interesse jornalístico e pessoal, Heloisa Nichele, de 29 anos, passou a se perguntar quem eram as fotógrafas que haviam ocupado o espaço público e profissional de Curitiba e região em outros tempos. O estalo foi em 2017, enquanto cursava jornalismo na Universidade Federal do Paraná.

Na época, notou uma ausência feminina em suas referências profissionais e resolveu apurar. Entre contatos e apurações, encontrou histórias de mulheres que abriram os caminhos na imprensa paranaense. Esse estudo virou TCC em 2019 e ganhou corpo dois anos depois em formato de livro “Elas em foco: algumas das primeiras fotojornalistas paranaenses”, lançado pela Editora UFPR.

Composta por relatos e imagens de acervos, a publicação reúne sete pioneiras apresentadas em formato de perfis: Lucília Guimarães, Lina Faria, Vilma Slomp, Fernanda Castro, Karin van der Broocke, Luciana Petrelli e Nélida Rettamozo. Em comum, todas haviam participado do circuito fotográfico de Curitiba nas décadas de 1970 e 1980.

Uma delas é Lucília Guimarães, que entrou ainda jovem no fotojornalismo. Após fazer um curso de iniciação à fotografia no Museu da Imagem e do Som do Paraná, começou, aos 18 anos, como estagiária no Correio de Notícias e acabou incorporada à equipe do jornal. Em 1979, acompanhou as greves que tomaram as ruas e praças do centro curitibano, fotografou trabalhadores em manifestação e a repressão policial durante a ditadura militar. A fotografia se tornaria sua principal atividade profissional nas décadas seguintes.

Imagens de Lucília Guimarães no livro “Elas em foco: algumas das primeiras fotojornalistas paranaenses”. Imagem/Reprodução: Heloisa Nichele / @helonichele-repo
Na esquerda, registros de Fernanda Castro. Na direita, foto da primeira Mostra Fotográfica do Shopping Pinhais. Imagem/Reprodução: Heloisa Nichele / @helonichele
Artigo sobre a mostra “Mulheres fotógrafas anos 80”, promovida pelo Instituto Nacional de Fotografia da Funarte em 1989, no Rio de Janeiro. Imagem/Reprodução: Heloisa Nichele / @helonichele

Apesar do uso do termo “fotojornalismo”, Heloisa considera insuficiente enquadrar todas essas trajetórias apenas nesse segmento. As produções das fotógrafas ultrapassaram as redações de jornais e revistas e passaram também pela publicidade, comunicação institucional, fotografia documental e produção artística. “Para algumas, o jornalismo era o destino; para outras, serviu como trabalho capaz de sustentar projetos autorais”, explica.

Enquanto investigava como outras mulheres haviam atuado décadas atrás, Heloisa continuava construindo a própria maneira de ser uma fotógrafa na capital paranaense. Nasceu e cresceu no bairro do Umbará — posicionado no limite do mapa no sentido Sul — e concentrou seu olhar no cotidiano e no ambiente da região. Esse mapa foi se ampliando gradualmente até chegar à vida universitária, em 2014, quando imagem e cidade se tornaram uma coisa só. “Sinto que a minha fotografia em relação à Curitiba vem muito dessa minha descoberta da cidade”, compartilha.

Na graduação, uma câmera Nikon analógica emprestada lhe ajudou a transformar essa descoberta em experimento. O equipamento tinha um recurso que permitia manter o filme parado e fazer duas exposições sobre o mesmo fotograma. A partir disso, passou a sobrepor monumentos, pontos turísticos e fragmentos urbanos.

As exposições duplas e triplas tentavam retirar esses lugares do registro mais reconhecível e devolvê-los à cidade em imagens menos literais, mais próximas de uma interpretação.

“Curitiba postal” — Série fotográfica de duplas ou triplas exposições analógicas. Foto: Heloisa Nichele / @helonichele

Nichele chegou à Cachimba por intermédio de um projeto articulado com Gustavo Queiroz. Um jovem chamado Alisson queria ser modelo e não tinha dinheiro para produzir um portfólio. O grupo reuniu maquiagem, cenografia e fotografia para montar o book.

Em alguns retratos, abriu o enquadramento para aparecer a rua de chão batido e a vizinhança. O figurino, a iluminação e a pose continuavam ali, mas a fotografia mostrava também o lugar de onde vinha aquele desejo.

A imagem criava, segundo ela, um jogo entre uma fotografia produzida — “que poderia ser feita em qualquer estúdio” — e a realidade concreta da Cachimba — inclusive as possibilidades que aquele jovem encontrava para tentar realizar o desejo de ser modelo.

Retrato de Walisson Omena no bairro Caximba. Produção: Gustavo Queiroz, Maria Miqueletto e Marina Mori. Foto: Heloisa Nichele / @helonichele

Ainda hoje, reconhece pontos em comum nas trajetórias das fotógrafas que pesquisou, embora considere que as experiências não tenham sido homogêneas. Feminista declarada, ela conta que, desde o início da pesquisa, buscou compreender de que maneira as hierarquias de gênero atravessavam a profissão e influenciavam a entrada e a permanência das mulheres no campo fotográfico.

Ao comparar essas experiências com o próprio caminho como fotógrafa, percebe uma mudança significativa desde a entrada das pioneiras no mercado, nos anos 1970. Nas últimas décadas, compartilha que as mulheres conquistaram mais espaço na fotografia e no jornalismo, processo que não consegue dissociar das mulheres que perfilou e de outras mais pelo país. “Eu entendo que elas abriram um caminho”, resume.


Heloisa Nichele. Imagem: arquivo pessoal

Heloisa Nichele é pesquisadora no campo das artes visuais e audiovisuais e desenvolve projetos relacionados à imagem, escrita, publicações e curadoria. É doutoranda em Arte, Memória e Narrativa pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e integra os grupos de pesquisa Núcleo de Artes Visuais (NAVIS), da UFPR, e ESCUTAS – Laboratório de Investigação e Experimentação Curatorial em Artes Visuais, Cinema e Vídeo.

Atualmente, pesquisa temas ligados à cultura visual, à história da fotografia no Brasil, aos estudos de gênero, à história das mulheres, ao arquivo e à curadoria. É autora do livro Elas em foco: algumas das primeiras fotojornalistas paranaenses (Editora UFPR, 2022), resultado de suas pesquisas sobre trajetórias, experiências e sociabilidades de mulheres na fotografia brasileira.

Confira os trabalhos de Heloisa e, se preferir, adquira o seu exemplar neste link.

Este texto integra o projeto Periferias Plurais, uma parceria entre o Plural, o Gasam e a Itaipu Binacional

Eric Rodrigues

Eric Rodrigues

Repórter, fotojornalista e documentarista. Mestrando em comunicação na UFPR. Participante do 15º Curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Autor de "Comadre São".

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