Motivada por um interesse jornalístico e pessoal, Heloisa Nichele, de 29 anos, passou a se perguntar quem eram as fotógrafas que haviam ocupado o espaço público e profissional de Curitiba e região em outros tempos. O estalo foi em 2017, enquanto cursava jornalismo na Universidade Federal do Paraná.
Na época, notou uma ausência feminina em suas referências profissionais e resolveu apurar. Entre contatos e apurações, encontrou histórias de mulheres que abriram os caminhos na imprensa paranaense. Esse estudo virou TCC em 2019 e ganhou corpo dois anos depois em formato de livro “Elas em foco: algumas das primeiras fotojornalistas paranaenses”, lançado pela Editora UFPR.
Composta por relatos e imagens de acervos, a publicação reúne sete pioneiras apresentadas em formato de perfis: Lucília Guimarães, Lina Faria, Vilma Slomp, Fernanda Castro, Karin van der Broocke, Luciana Petrelli e Nélida Rettamozo. Em comum, todas haviam participado do circuito fotográfico de Curitiba nas décadas de 1970 e 1980.
Uma delas é Lucília Guimarães, que entrou ainda jovem no fotojornalismo. Após fazer um curso de iniciação à fotografia no Museu da Imagem e do Som do Paraná, começou, aos 18 anos, como estagiária no Correio de Notícias e acabou incorporada à equipe do jornal. Em 1979, acompanhou as greves que tomaram as ruas e praças do centro curitibano, fotografou trabalhadores em manifestação e a repressão policial durante a ditadura militar. A fotografia se tornaria sua principal atividade profissional nas décadas seguintes.



Apesar do uso do termo “fotojornalismo”, Heloisa considera insuficiente enquadrar todas essas trajetórias apenas nesse segmento. As produções das fotógrafas ultrapassaram as redações de jornais e revistas e passaram também pela publicidade, comunicação institucional, fotografia documental e produção artística. “Para algumas, o jornalismo era o destino; para outras, serviu como trabalho capaz de sustentar projetos autorais”, explica.
Enquanto investigava como outras mulheres haviam atuado décadas atrás, Heloisa continuava construindo a própria maneira de ser uma fotógrafa na capital paranaense. Nasceu e cresceu no bairro do Umbará — posicionado no limite do mapa no sentido Sul — e concentrou seu olhar no cotidiano e no ambiente da região. Esse mapa foi se ampliando gradualmente até chegar à vida universitária, em 2014, quando imagem e cidade se tornaram uma coisa só. “Sinto que a minha fotografia em relação à Curitiba vem muito dessa minha descoberta da cidade”, compartilha.
Na graduação, uma câmera Nikon analógica emprestada lhe ajudou a transformar essa descoberta em experimento. O equipamento tinha um recurso que permitia manter o filme parado e fazer duas exposições sobre o mesmo fotograma. A partir disso, passou a sobrepor monumentos, pontos turísticos e fragmentos urbanos.
As exposições duplas e triplas tentavam retirar esses lugares do registro mais reconhecível e devolvê-los à cidade em imagens menos literais, mais próximas de uma interpretação.

Dupla exposição analógica em uma estação tubo de Curitiba. Foto: Heloisa Nichele / @helonichele

Nichele chegou à Cachimba por intermédio de um projeto articulado com Gustavo Queiroz. Um jovem chamado Alisson queria ser modelo e não tinha dinheiro para produzir um portfólio. O grupo reuniu maquiagem, cenografia e fotografia para montar o book.
Em alguns retratos, abriu o enquadramento para aparecer a rua de chão batido e a vizinhança. O figurino, a iluminação e a pose continuavam ali, mas a fotografia mostrava também o lugar de onde vinha aquele desejo.
A imagem criava, segundo ela, um jogo entre uma fotografia produzida — “que poderia ser feita em qualquer estúdio” — e a realidade concreta da Cachimba — inclusive as possibilidades que aquele jovem encontrava para tentar realizar o desejo de ser modelo.

Ainda hoje, reconhece pontos em comum nas trajetórias das fotógrafas que pesquisou, embora considere que as experiências não tenham sido homogêneas. Feminista declarada, ela conta que, desde o início da pesquisa, buscou compreender de que maneira as hierarquias de gênero atravessavam a profissão e influenciavam a entrada e a permanência das mulheres no campo fotográfico.
Ao comparar essas experiências com o próprio caminho como fotógrafa, percebe uma mudança significativa desde a entrada das pioneiras no mercado, nos anos 1970. Nas últimas décadas, compartilha que as mulheres conquistaram mais espaço na fotografia e no jornalismo, processo que não consegue dissociar das mulheres que perfilou e de outras mais pelo país. “Eu entendo que elas abriram um caminho”, resume.
Heloisa Nichele é pesquisadora no campo das artes visuais e audiovisuais e desenvolve projetos relacionados à imagem, escrita, publicações e curadoria. É doutoranda em Arte, Memória e Narrativa pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e integra os grupos de pesquisa Núcleo de Artes Visuais (NAVIS), da UFPR, e ESCUTAS – Laboratório de Investigação e Experimentação Curatorial em Artes Visuais, Cinema e Vídeo.
Atualmente, pesquisa temas ligados à cultura visual, à história da fotografia no Brasil, aos estudos de gênero, à história das mulheres, ao arquivo e à curadoria. É autora do livro Elas em foco: algumas das primeiras fotojornalistas paranaenses (Editora UFPR, 2022), resultado de suas pesquisas sobre trajetórias, experiências e sociabilidades de mulheres na fotografia brasileira.
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Este texto integra o projeto Periferias Plurais, uma parceria entre o Plural, o Gasam e a Itaipu Binacional