Nó, longa-metragem dirigido por Laís Melo e produzido pela Grafo Audiovisual, estreou na quinta (16/10) nas salas de cinema brasileiras. Chegou com respaldo de ter ganho três prêmios importantes em um dos mais tradicionais festivais de cinema do Brasil: melhor direção (Laís Melo), melhor fotografia (Renata Corrêa) e o prêmio do júri da crítica no Festival de Cinema de Gramado.
Glória (Saravy) é uma mulher recém-separada e que acaba de se mudar com as três filhas, saindo de um bairro e indo para a região central de Curitiba. Esse deslocamento, familiar e urbano, é o mote inicial que desencadeia novos desafios, alguns financeiros, outros de relações pessoais próximas e ainda os oriundos da violência silenciosa imposta pelo ex-marido da protagonista, que tenta tirar dela a guarda das filhas.

Com a nova moradia e novas demandas, Glória se vê impelida a buscar melhor remuneração em seu emprego em uma fábrica de alimentos processados. Para isso, aceita participar de um processo seletivo interno para um cargo de supervisora, o que a faz concorrer com sua melhor amiga, Magali (Fernanda Silva). As relações pessoais muito próximas e intensas entre Glória e Magali e também entre Glória e Sabrina (Sali Cimi), filha mais velha da protagonista, são uma das marcas mais contundentes do filme. Vale ressaltar que o enredo de Nó é todo imerso no universo de mulheres da classe trabalhadora e isso é reverberado também na conformação da equipe de realização do filme, majoritariamente formada por mulheres.
Em muitos momentos da narrativa, Glória está em deslocamento, de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Esses deslocamentos, apesar de mostrarem pouco a cidade, exibem uma Curitiba que não é aquela mais vista e que está em certo imaginário que a administração pública gosta de propagar. Os ônibus não são os grandes e velozes biarticulados da publicidade oficial e as casas e os prédios não têm fachadas de vidros espelhados como em fotos de divulgação.
Entre um deslocamento e outro, na maior parte do tempo a protagonista está em casa ou na fábrica. Esses ambientes são compostos no filme de formas bem diferentes. As cenas na fábrica são marcadas pela amplitude dos espaços, pela frieza e pelo ruído torpe do maquinário manipulado por operárias e operários. Já as cenas na casa da família de Glória são marcadas pela intimidade, uma intimidade muito potente, seja no afago e no carinho predominantes, seja nos momentos de tensão e discussão. Esse jogo cênico é um grande destaque do filme, notadamente marcado pelo belíssimo trabalho conjunto de atuação, direção, fotografia e direção de arte.

Nó trilha um caminho duplo que já vem aparecendo em longas-metragens recentes do cinema curitibano. Um desses caminhos é o do olhar para uma cidade que não seja aquela imaginada e exibida em meios de comunicação predominantes e que, na prática, não é a vivenciada pela maioria das pessoas, como também visto em Ursa (dir. William Oliveira, 2021), Mirador (dir. Bruno Costa, 2022) e Coração de Neon (dir. Lucas Estevan Soares, 2023), entre outros. Em outra via que vem ganhando destaque está o protagonismo de mulheres, tanto no enredo como no fazer fílmico, como em A Mesma Parte de um Homem (dir. Ana Johann, 2021), Solange (dir. Nathália Tereza e Tomás von der Osten, 2023) e Torniquete (dir. Ana Catarina Lugarini, 2025).
Nó realça esses rumos com muitas particularidades e potências próprias, nos insere com impressionante intimidade em uma família da classe trabalhadora e seus conflitos internos e externos. Desta forma, o filme também nos chama ao deslocamento, enquanto espectadores, para a intimidade da sala de cinema.