Bia Mais Um, filme dirigido por Wellington Sari e produzido pela produtora curitibana O Quadro, estreou em festivais de cinema em 2021 e, portanto, como muitos outros filmes do período pandêmico, teve poucas oportunidades de ser visto na época. Somente agora o longa teve seu lançamento em salas de cinema, desde quinta (09/10) está em cartaz em 52 cidades de 20 estados brasileiros.
Bia (Gabrielle Pizzato) é uma adolescente que retorna ao Brasil. Ela está grávida e esse é um segredo com o qual tem que lidar, ao mesmo tempo em que se envolve em um novo relacionamento com Jean (Gustavo Piaskoski). Essa relação, envolta em medos e descobertas, típicas da passagem da adolescência para a vida adulta, é intensificada pelo segredo de Bia e pelas expectativas sobre as reações de Jean.
Bia Mais Um pode ser definido, em termo recorrente no mundo do cinema, como uma narrativa de coming of age. Especificamente no universo do cinema brasileiro, é um enredo que se distingue da média dos filmes contemporâneos por apostar em personagens de classe média e em relações que não expõem marcadores socioeconômicos mais evidentes da vida brasileira, sem que com isso deixe de ter uma visão de mundo crítica e contundente.
Um dos destaques do filme são as conexões estabelecidas com outras artes. Bia é particularmente interessada em pinturas maneiristas e pela imagem da imagem que gera uma espécie de opacidade provocativa em quadros desse movimento. Em outra chave, que contrasta e ao mesmo tempo conversa com as pinturas século XVI, estão as muitas músicas presentes no filme, especialmente no estilo shoegaze. Esses diálogos artísticos são enfatizados em Bia Mais Um pela direção de arte bastante criativa, pela excelente fotografia e pela edição de som muito bem trabalhada, que nos fazem imergir e emergir em espacialidades cotidianas e dispositivos técnicos como os celulares, frequentemente em cena nas mãos dos adolescentes.
É na confluência entre uma trama delicada, com personagens simultaneamente universais e cheios de particularidades, juntamente com o trabalho artístico e técnico original e bem desenvolvido, que Bia Mais Um ganha corpo de grande filme. O orçamento bastante limitado do projeto não é percebido, o que demonstra a maturidade da produtora O Quadro com sua filmografia de 25 curtas e cinco longas-metragens.
Vale ressaltar que Bia Mais Um está inserido em uma nova onda de longas-metragens paranaenses que vêm ganhando as telas com bastante destaque, como é possível perceber, entre outros, pelos recentemente lançados Lista de Desejos para Superagüi (dir. Pedro Giongo), Torniquete (dir. Ana Catarina Lugarini), Nem Toda História de Amor Acaba em Morte (dir. Bruno Costa), Verde Oliva (dir. Wellington Sari) e Nó (dir. Laís Melo). Este último recebeu três prêmios importantes no último Festival de Cinema Gramado e tem estreia em salas de cinema marcada para a próxima quinta (16/10).
Diante desse cenário de filmes de grande qualidade feitos em nosso estado, resta agora que eles tenham melhores condições de chegar ao público. Para isso, é preciso mais abertura por parte de exibidores, notadamente de salas públicas, como o Cine Passeio, que lamentavelmente programou apenas duas exibições do filme. Contudo, há muitas outras sessões de Bia Mais Um disponíveis em Curitiba, no Cinemark Mueller, Cinesystem Ventura e Cine Guarani. No Paraná, há sessões também em Londrina, Maringá e Ponta Grossa.
O cinema paranaense tem uma história rica e que precisa ser mais conhecida, entretanto, sem dúvidas, são necessárias mais estabilidade produtiva, constância de exibições e difusão junto ao público. Nesse sentido, Bia Mais Um nos ajuda a reclamar uma passagem para a vida adulta de nosso cinema. Ela está em curso!
Eduardo Baggio é professor e pesquisador de cinema na Unespar e desenvolve projetos com apoio da Fundação Araucária.