A Mostra Retrospectiva Ruy Guerra, em homenagem a um dos maiores cineastas brasileiros e um dos fundadores do Cinema Novo, está em cartaz na Caixa Cultural Curitiba até domingo (23). Além de longas-metragens, estão na programação dois documentários sobre o artista e o lançamento de um catálogo digital com uma entrevista concedida por ele ao curador e organizador da mostra, Aristeu Araújo. Os ingressos são gratuitos.
Ruy Guerra
Hoje, às vésperas de completar 95 anos de idade, Ruy Guerra mantém o entusiasmo criativo que fez dele uma das figuras mais importantes da cultura brasileira. Natural de Moçambique, ele estudou cinema em Paris quando a Nouvelle Vague ganhava as telas. Em 1958, chegou ao Brasil e participou da fundação do Cinema Novo ao lado de Glauber Rocha e Cacá Diegues, entre outros.
Ao longo de quase 70 anos de carreira, construiu uma filmografia marcada pelo compromisso político, pela experimentação estética e pela aproximação com a literatura. Adaptou obras de Gabriel García Márquez, Chico Buarque e Antonio Callado, escreveu peças, poemas e letras de músicas interpretadas por grandes nomes da MPB.
"Sempre tive uma paixão muito grande pela palavra. Queria ser escritor antes de ser cineasta. O cinema acabou sendo o caminho possível para contar histórias, mas continuo lendo o dicionário todos os dias como quem lê um romance. A palavra continua sendo o centro de tudo o que faço", afirma Ruy Guerra.
A Mostra
Segundo o curador da mostra, Aristeu Araújo, a retrospectiva representa uma chance rara para compreender a dimensão da obra do diretor. "É uma oportunidade única para o público acompanhar praticamente toda a trajetória de Ruy Guerra e perceber como sua obra dialoga com diferentes momentos da história do Brasil e do mundo."
Para a programação chegar às telas, foi preciso um extenso trabalho de pesquisa e preservação do patrimônio audiovisual brasileiro. Muitas obras do cineasta estão em materiais deteriorados ou de difícil acesso, explica Araújo: "Grande parte da história do cinema brasileiro enfrenta sérios desafios de preservação. Reunir esta retrospectiva significou localizar materiais espalhados em diferentes acervos, avaliar inúmeras versões e buscar sempre a melhor cópia disponível para cada filme. Tivemos um trabalho cuidadoso de garimpo para oferecer ao público exibições com a melhor qualidade possível.”
A retrospectiva contempla desde o longa de estreia, Os Cafajestes (1962), até A Fúria (2024), produção mais recente do diretor que encerra a chamada "Trilogia dos Fuzis", iniciada com Os Fuzis (1964) e continuada por A Queda (1978). Também integra a programação o raríssimo Ternos Caçadores (1969), recentemente restaurado em resolução 4K e exibido novamente após muitos anos fora de circulação.
Programação das exibições nos próximos dias
Terça-feira – 18/08
16h30 – “Portugal S/A” (90 min)Drama político que acompanha um executivo envolvido em disputas empresariais, corrupção e conflitos familiares durante o processo de transformações econômicas portuguesas. O filme reflete sobre ética e poder.
18h20 – “Mueda: Memória e Massacre” (80 min)Primeiro longa-metragem produzido em Moçambique após a independência, reconstitui um massacre cometido pelo exército português em 1960. A obra tornou-se referência histórica ao registrar a memória da luta anticolonial africana.
20h – “Quase Memória” (94 min)Inspirado na obra de Carlos Heitor Cony, acompanha um homem que revisita lembranças da infância ao reencontrar simbolicamente o próprio pai. O filme aborda memória, identidade e afetos familiares.
Quarta-feira – 19/08
16h10 – “Monsanto” (86 min)Produzido em Portugal, acompanha um ex-combatente da Guerra Colonial que revive traumas do passado durante as comemorações da Revolução dos Cravos. A obra aborda memória, violência e os efeitos duradouros da guerra.
18h – “Erêndira” (103 min)Baseado em obra de Gabriel García Márquez, acompanha a trajetória de uma adolescente obrigada pela avó a se prostituir para pagar uma dívida. O filme reúne realismo mágico, crítica social e uma das adaptações mais conhecidas da literatura do escritor colombiano.
20h – “Ópera do Malandro” (105 min)Inspirado no musical de Chico Buarque, transporta para a Lapa dos anos 1940 uma história de contrabando, romance e corrupção. A produção combina música, humor e crítica política em um dos maiores sucessos populares da carreira do diretor.
Quinta-feira – 20/08
16h10 – “Kuarup” (119 min)Adaptação do romance de Antonio Callado, acompanha um padre enviado ao Xingu que passa por profundas transformações políticas e existenciais durante os anos que antecedem o golpe militar de 1964. É um retrato das tensões sociais e culturais do Brasil.
18h30 – “O Homem que Matou John Wayne” (70 min)Os diretores Bruno Laet e Diogo Oliveira utilizam uma curiosa metáfora para apresentar o pensamento e o universo criativo de Ruy Guerra, reunindo depoimentos de personalidades como Gabriel García Márquez, Chico Buarque e Werner Herzog.
20h – “Os Deuses e os Mortos” (97 min)Ambientado na região cacaueira da Bahia nos anos 1930, retrata disputas por terras, poder e vingança em meio ao coronelismo. Considerado pelo próprio diretor seu melhor filme, reúne elementos épicos, políticos e poéticos característicos de sua obra.
Sexta-feira – 21/08
16h – “Os Cafajestes” (100 min)Longa de estreia de Ruy Guerra, o filme acompanha dois jovens da elite carioca que planejam chantagear uma mulher após fotografá-la nua. A obra marcou época ao apresentar o primeiro nu frontal do cinema brasileiro e inaugurar temas centrais da filmografia do diretor, como a crítica às desigualdades sociais, à violência e às relações de poder.
18h – “Estorvo” (95 min)Baseado no romance de Chico Buarque, apresenta a fuga de um homem perseguido por ameaças reais e imaginárias. A narrativa mergulha em um universo de paranoia e fragmentação psicológica.
20h – “A Bela Palomera” (78 min)Também inspirado na obra de Gabriel García Márquez, narra o romance proibido entre um empresário e uma jovem casada que se comunicam por meio de pombos-correio. O filme mistura paixão, lirismo e elementos do realismo mágico.
Sábado – 22/08
14h30 – “Tempo Ruy” (72 min)Dirigido por Adilson Mendes, o documentário percorre a trajetória artística de Ruy Guerra como cineasta, escritor, poeta e dramaturgo, revelando os bastidores de sua criação e sua influência sobre o cinema brasileiro.
16h – “Os Fuzis” (80 min)Vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim, acompanha soldados enviados ao sertão nordestino para impedir que retirantes famintos invadam um depósito de alimentos. Considerado um dos maiores clássicos do Cinema Novo, o filme denuncia a desigualdade social e a omissão do Estado diante da fome.
17h40 – “A Queda” (120 min)Segundo capítulo da Trilogia dos Fuzis, acompanha um operário da construção civil que enfrenta a exploração do trabalho após a morte de um colega em um acidente. O filme amplia a crítica social iniciada em “Os Fuzis”, deslocando o foco para o ambiente urbano.
20h – “A Fúria” (101 min)Mais recente filme de Ruy Guerra, encerra a Trilogia dos Fuzis. O personagem Mário retorna como uma figura fantasmagórica para enfrentar corrupção, autoritarismo e violência política no Brasil contemporâneo, combinando elementos de fábula, sátira e crítica social.
Domingo – 23/08
14h50 – “Ternos Caçadores” (115 min)Recém-restaurado em 4K, o raro longa francês acompanha uma família isolada à beira-mar cuja rotina é transformada pela chegada de um prisioneiro fugitivo. A tensão psicológica e o simbolismo fazem da obra uma das produções menos conhecidas e mais singulares da carreira de Ruy Guerra.
17h10 – “O Veneno da Madrugada” (118 min)Outra adaptação de Gabriel García Márquez, retrata uma pequena cidade tomada pelo medo após a circulação de bilhetes anônimos que revelam segredos e escândalos. Suspense e crítica social conduzem a narrativa.
19h30 – “Aos Pedaços” (93 min)Livre adaptação da tragédia “Medéia”, de Eurípides, apresenta um homem dividido entre duas mulheres chamadas Ana que passa a viver uma espiral de paranoia após receber um bilhete anunciando sua morte.
Curadoria
Aristeu Araújo é cineasta, com passagens pelo teatro e pela literatura. Graduado em Cinema pela UFF e em Jornalismo pela UFRN, fez curadoria de dezenas de mostras cinematográficas, dirigiu doze curtas e montou cerca de 40 filmes. Assina as edições dos longas "Mães do Derick”, de Cássio Kelm (Prêmio de Melhor Montagem no 14º For Rainbow), e “A Mesma Parte de Um Homem”, de Ana Johann (finalista no Prêmio Abcine de Melhor Montagem de Ficção). No momento trabalha na montagem de "1989", dirigido por Juliana Sanson, e está finalizando seu primeiro longa, o filme "A Ponte".
Serviço: Mostra Retrospectiva Ruy Guerra
Quando: Até 23 de agosto de 2026
Onde: Caixa Cultural Curitiba (Rua Conselheiro Laurindo, 280 – Centro)
Ingressos: Gratuitos, com retirada de ingressos 60 minutos antes de cada sessão, na bilheteria do teatro.
Verifique a classificação indicativa de cada filme.
Capacidade máxima: 123 lugares + 02 espaços para cadeirantes