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Mocidade Azul e o carnaval que resiste na periferia de Curitiba

Nos becos do Fazendinha, fazer samba é sinônimo de amar 

Mocidade Azul e o carnaval que resiste na periferia de Curitiba
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É no bairro do Fazendinha que mora o amor pelo carnaval curitibano. Não é por acaso que o coro é alto na hora de cantar o refrão, que diz: “É sensacional ser Mocidade”. Nascida nas margens do Rio Barigui, a Mocidade Azul é tida como uma das mais tradicionais da capital. A escola de samba, simbolizada pelo leão e pelas cores alvicelestes desde 1972, foi a mais antiga a desfilar no grupo especial deste ano.

Era uma sexta-feira, 28 de fevereiro, fim de tarde. Chegava à quadra da Mocidade com o intuito de acompanhar os bastidores dos preparativos. Na véspera da grande noite, o ar se enchia de sons: o ruído das ferramentas cortando ferros e madeiras se misturava ao zumbido das máquinas de costura das fantasias, aos acordes da bateria sendo afinada e às risadas animadas da comunidade. Muito trabalho a ser feito. Marcada para as 20 horas, a entrega das fantasias agitava o amplo terreno e o barracão. Mais de 500 pessoas vieram trabalhar nos ajustes finais e retirar as fantasias.

O corre-corre era intenso, e as contagens das peças por folião não batiam: faltava uma sapatilha ali, um chapéu aqui, mas tudo foi se resolvendo. Em quatro setores espalhados no terreno, mãos habilidosas travavam uma batalha contra o tempo para finalizar as decorações. Em um canto, alguém improvisava com pedaços de pano para criar uma camisa ou um vestido; em outro, um grupo se dedicava às grandes estruturas dos carros alegóricos; no meio, outras pessoas colavam detalhes brilhantes, visíveis apenas de perto. Conforme os processos iam sendo terminados, tudo passava de mão em mão, num fluxo quase fordista.

Foto: Eric Rodrigues

Esse sistema de trabalho, no entanto, não é movido por lucro, mas pelo amor de ver a Mocidade Azul viva e pulsante. É unânime o sentimento de que mais importa o senso comunitário em prol do carnaval, fortalecido pelas amizades e laços familiares que a folia, ano após ano, renova e celebra. Por outro lado, se dependesse de renda, nada disso existiria.

Procurada por todos no barracão, Marcia Barbosa, de 53 anos, é quem resolve os pepinos, quem diz sim ou não — e todos respeitam. Marcia é diretora de carnaval da Mocidade Azul e continua um legado de sangue, afinal, seu pai foi presidente no passado. Esse universo do carnaval, para a diretora, é algo que não se pode negar, porque vem de berço e segue nas veias no restante da vida. Além dela, a filha, o marido e outros familiares estão envolvidos ativamente no cotidiano da escola.

Para o Plural, a matriarca relatou os desafios de fazer carnaval em Curitiba, que incluem o baixo investimento do poder público — o que impossibilita melhorias — e a negligência da mídia hegemônica, que sempre incentiva a descida para o litoral. Todas essas situações convergem para o mesmo ponto: o silenciamento de um movimento histórico, grandioso e orgânico. No fim das contas, esses percalços se transformam em samba, festa e resistência. Afinal, se muitos adeptos permanecem seguindo a escola, é porque amam o que fazem. Marcia é uma dessas.

Ao lado dela está Luiz Henrique Boeira, de 57 anos, responsável pela harmonia, mas que, como todos os outros ali, faz de tudo pela Mocidade. Luiz cuida dos detalhes que fazem grande diferença no desfile e na avaliação dos jurados: cabelos, maquiagens, vestimentas. Enquanto conversávamos sobre colocar a mão na massa, tentou calcular o investimento que havia feito em tecidos, outros itens e transporte — tudo para cumprir sua função principal. Não conseguiu chegar a um número exato, mas o saldo era negativo.

Postos no mesmo ambiente de entrevista/conversa, Marcia e Luiz se mostraram esperançosos com a noite seguinte. Para eles e tantos outros envolvidos na Mocidade Azul há mais de 53 anos, ocupar a Rua Marechal Deodoro simboliza a persistência em manter acesa a chama de algo que, apesar dos pesares, realmente existe.

O trabalho seguiu firme na sexta-feira e cruzou a madrugada. Às 3h da manhã, os três carros alegóricos saíram do barracão, no Fazendinha, em direção ao Centro. Dormir era para poucos.

Foto: Eric Rodrigues

No sábado, 1º de março, às 18 horas, o Hotel San Martin — que fica na região central — abrigava uma massa de integrantes das escolas; era gente da Deixa Falar, da Leões da Mocidade, da Enamorados do Samba. Todos os acessos do hotel estavam cheios de foliões, fantasias e cores. Essa ida ao hotel vizinho da Marechal Deodoro é comum todos os anos, porque facilita a logística das alegorias que demandam cuidados minuciosos. Assim, dobram a noite e o dia para poder finalizar os acabamentos e, no grande ato, invadir a principal rua do centro curitibano.

No primeiro andar do imóvel, uma pequena sala virou vestiário e um refeitório improvisado. O hotel disponibilizou uma garrafa de café, um galão d'água e copos descartáveis. Por vezes, apareciam umas latas de cervejas, refrigerantes e uns lanches rápidos para beliscar — essas trazidas pelos integrantes da escola. As três mesas de canto serviram para alinhar os comes e bebes, as coroas das passistas e alguns materiais das fantasias.

O outro lado da parede dava em um pequeno corredor, onde uma maquiadora recebia uma mulher por vez na cadeira. Mais de 20 passaram por ela. Ali, usava uma mão para buscar os pós na grande mala; e, com a outra, passava o pincel nos rostos.

Foto: Eric Rodrigues

Ser passista de escola de samba não é uma tarefa fácil. É preciso sambar sem parar enquanto usa um salto alto, manter o carisma na pista e ignorar as dores e incômodos. A paixão pelo carnaval ajuda a superar. Nesta alegoria, a maioria delas são mulheres com idades e tipos de corpos variados. No grupo da Mocidade, tinha crianças de 10 anos e experientes de 30… 40 anos.

No meio dessa alegoria, está a Cris Dias, de 25 anos. É a sua estreia como passista. Ficou ansiosa quando se viu toda produzida no espelho. Desde quando ingressou na Mocidade, em 2024, segue acompanhada do seu par no amor, Uli Robert, de 25 anos. Entre tantas coisas que compartilham na vida, dividem a paixão pelo carnaval curitibano. Antes de chegar na grande noite, assistiam tudo das arquibancadas.

Uli cuida da harmonia da ala das passistas. Nos bastidores, resolve todos os tipos de questões que aparecem nas fantasias e na organização do grupo. Quando a contagem começar na avenida, vai auxiliar no andamento das integrantes, evitando a desorganização no desfile. Não pode ter “buraco” entre as alas, nem rosto fechado, nem tempo a ser desperdiçado. Vai ser sua primeira noite também.

Foto: Eric Rodrigues

Minutos antes de deixar o primeiro andar, uma reunião de vestiário das passistas. Palavras motivacionais, pedidos de atenção, avisos paroquiais e um Pai nosso que estás no céu, santificado seja o vosso nome… A reza acabou com uma salva de palmas e gritos de euforia. Para descer as escadas, tiveram que andar agachadas; caso contrário, a coroa azul grande e cheia de enfeites seria destruída pelo teto.

Às 23h, o grupo de passistas deixa o hotel para se juntar às outras alegorias na concentração. Para não se perderem no meio da multidão, as passistas dão as mãos para guiar o caminho. A experiente Nara Souza, de 45 anos, caminha ao lado das duas filhas, ambas vestidas com o mesmo traje. Elas têm 12 anos. Há tempos, Nara e sua família vão do Sítio Cercado até o Fazendinha para o encontro da Mocidade. Além das crias, seu marido é ritmista da escola. O filho mais velho, de 22 anos, ajudou na maquiagem das passistas. Ele não vai desfilar junto, mas será destaque em outra escola de samba na noite seguinte.

Foto: Eric Rodrigues

Às 00h40, o cavaco chamou, a bateria aceitou o convite e, assim, a festa começou. As passistas cruzaram Marechal Deodoro com sorriso no rosto, enredo no gogó e samba no pé. A letra deste ano falava sobre a influência do povo preto na formação da cultura brasileira e de pegar o que foi perdido no tempo para reconstruir um novo presente-futuro. O refrão é forte, daqueles que pegam… “Luz na escuridão, amor sem igual, é sensacional ser Mocidade, potência maior do carnaval”.

O trajeto do desfile pega 500 metros da extensão da Rua Marechal Deodoro, começa na esquina da Travessa da Lapa e termina no encontro com a Alameda Doutor Muricy. Conforme o regimento, as escolas devem fazer o percurso em 1h10. Parece muito, mas é apertado. Para conseguir conciliar tempo e padronização com perfeição, são muitas as pessoas anônimas que regem as massas, empurram os grandes carros, carregam fios, gritam para se comunicar no meio do caos. Ao cruzarem a linha de chegada, perto de 1h40 da manhã, as passistas se reúnem com abraços, risos de alívio, emoção e choro pelas dores no corpo. São tantos os sentimentos embrulhados… é difícil descrever. O que se sabe é que no próximo carnal tem mais.

Na segunda seguinte, 3 de março, meio da tarde, o barracão do Fazendinha voltou a ser cenário de festa. Deu tudo certo. A Mocidade Azul se consagrou campeã do Carnaval de Curitiba de 2025. Segue isolada no quesito títulos com 23 troféus.

Foto: Eric Rodrigues
Eric Rodrigues

Eric Rodrigues

Repórter, fotojornalista e documentarista. Mestrando em comunicação pela UFPR. Participante do 15º Curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Autor de "Comadre São".

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