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Ensinar música foi um chamado na vida de Adriana Chiarelli

A musicista, que com 8 anos entrou na Escola de Música e Belas Artes para estudar piano, agora leva seu método inovador de ensino para pessoas

Adriana Chiarelli em seu estúdio. (Foto: Acervo Pessoal.)
Adriana Chiarelli em seu estúdio. (Foto: Acervo Pessoal.)

Adriana Chiarelli, a menina prodígio que começou a estudar piano aos oito anos, na Escola de Música e Belas Artes do Paraná (Embap/Unespar), é hoje, autora de um método inovador para o estudo da música. Seus alunos são estudantes de diversos instrumentos — alguns já com alguma experiência em instituições públicas ou privadas e aqueles sem nenhuma experiência no estudo da música. Instrumentistas das cordas, metais, teclados, sopros recebem uma espécie de reconversão na hora de utilizar as ferramentas que a mestra apresenta para a gravação de um disco, ensaio de orquestra, concertos e apresentações solo. 

Músicos, atores e bailarinos também se candidatam para as suas aulas. O mais singular da técnica empregada por ela é que cada aluno ou grupo recebe um cuidado particular. “O início de tudo é observar como está a percepção da pessoa, temos que partir do silêncio absoluto” relata Adriana, “para depois entender a sua musicalidade”. Além das aulas, todos podem fazer um trabalho individual sob sua mentoria. O método que recebeu o nome de MACh (Método Adriana Chiarelli) existe há 26 anos e é como se fosse o crossfit do som.

O começo de tudo

Ainda na Belas, a criança foi uma revelação. Os professores quando perceberam o seu talento pediam que ministrasse aulas de reforço para os colegas, no que ela se saia muito bem. Com a perda da mãe, aos 11 anos, uma vizinha de 30, “chamada Maria e que falava espanhol”, bateu na casa dos seus pais e pediu para ser sua aluna de piano. Adriana mostrou espanto, afinal como ela iria ensinar alguém 20 anos mais velha que ela?

A primeira ideia que lhe veio à cabeça foi que a moça da casa geminada, com sotaque latino, penalizada com a sua orfandade, queria lhe fazer companhia. Não era só isso, a insistência continuou, a professorinha deu conta do recado e o resultado foi surpreendente. Nunca mais ela soube da Maria. E nunca mais parou de dar aulas. “O segundo pupilo, bem mais novo, eu o considero o meu grande laboratório para criação do método que hoje desenvolvo. O primeiro passo foi ele repetir os sons da música que tocava. Havia ausência total de afinação. Fui então pro piano e o fiz ouvir o som que ele tinha feito”. A partir daí, ela utilizou a desafinação em próprio benefício do aluno. 

Segundo Adriana, o começo de tudo se revela com a voz. “O solfejo é a fórmula mais eficaz para esse aprendizado. A compreensão deste movimento primordial provoca um efeito quase mágico, como se um fio invisível entrasse no próprio ser ativando as cordas internas da sensibilidade, forma-se então um ciclo de cantar (as notas), ouvir, tocar, e a partir daí se estabelece um pensamento racional.”

Além do bacharelado em piano, Adriana revela que sua segunda Escola foi cantar e tocar nos corais da Igreja Batista. “Aqueles sons entravam na minha alma e ressoam até hoje”. Na pandemia, após participar do Edital Aldir Blanc, lançado pelo Ministério da Cultura, recebeu o título de Mestre, pelo reconhecimento de carreira. A partir de julho, o MACh pode ser acessado no sistema on-line, pela plataforma Hotmart, para atingir um maior número de interessados. O curso, gravado pela própria criadora do método, inclui pilares onde o aluno vivencia os fundamentos da Música (solfejo, percepção auditiva, leitura, improvisação, composição e teoria) até a História da Música.

Arcádia e o chamado

Adriana revela que quando a Arcádia nasceu em 1997 – idealizada e administrada por ela e seu marido, João Nei de Almeida Barbosa – a ideia foi transformar aquele espaço (Rua 13 de Maio, 601) num local aconchegante com livros, LPs, CDs e DVDs. O café e todo o cardápio são feitos pela dupla. O sebo se tornou logo um ponto de encontro de intelectuais, acadêmicos e estudantes. O nome, originário da antiga Grécia  representa na literatura e na mitologia, um lugar imaginário onde pastores viviam em paz em harmonia com a natureza e simplicidade. O termo também derivou para um movimento literário, o Arcadismo. Foi com essa aura mítica que o casal instalou, onde ela sonhava em trocar, temporariamente, as suas aulas, pelo balcão, e desfrutar de uma pausa na sua rotina de professora e musicista.

No início da Arcádia, aconteciam no andar superior cursos de Artes Plásticas, Música, Literatura, Teatro e Dança coordenados pela titular do espaço. Foi nessa época que Adriana assumiu o curso de Música do segundo piso, após outra professora do espaço, Daniella Gramani não poder dar continuidade à turma em andamento. “Eu precisei assumir o grupo ajustando com ele a nova metodologia. Naquele momento a chama acendeu novamente, concluí que a música era a minha essência e não parei mais”. 

O método

Quando desenvolvia sua dissertação de mestrado em música, na USP, Cristiane Otutumi, hoje professora na Embap, conheceu o trabalho de Adriana e ficou tocada pela inovação. E se referiu a ele da seguinte forma: “Como um método empregado fora das paredes da Universidade pode ser tão eficaz?” Chiarelli explica que a fórmula começa a surtir efeito quando a mesma pessoa aplica a mesma técnica em todas as matérias do curso: Solfejo, Teoria Musical, Percepção Auditiva, Improvisação, Harmonia, Leitura Musical e História da Música. Instala-se no cérebro uma linha direta de assimilação.

Um exemplo foi o caso do grupo vocal curitibano As Noivas do Allfredo, quando foi gravar o primeiro disco em São Paulo, com composições à capela de José Eduardo Gramani, para a preparação do repertório. “Apliquei diversos fundamentos do MACh para obter o melhor resultado no menor espaço de tempo. Dentre as técnicas de trabalho que adoto, está a leitura no sentido retrógrado, uma verdadeira revolução na compreensão do músico. Literalmente isso significa inverter o sentido das notas e construir uma nova música”. Chiarelli completa: "Quando isso acontece, outros reflexos são ativados, o corpo recebe uma reeducação cognitiva e motora”.

E não são poucos os outros alunos que endossam a técnica de Adriana. Entre os nomes estão a cantora, atriz e professora Iria Braga; o regente Gabriel Correa; a cantora, atriz e professora Annanda Samarine; o ator, diretor e cantor Márcio Juliano; e a cantora, compositora e professora Janaína Fellini.

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