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Dulcineia Novaes, 70, abriu caminho para muita gente boa

Ver alguém de pele negra em horário nobre era ver que, sim, havia espaço para isso, ainda que pouco, ainda que dependesse de um talento ainda maior do que se esperaria de outras pessoas

Dulcineia Novaes, 70, abriu caminho para muita gente boa
Dulcineia Novaes. Foto: Rodrigo Fonseca/CMC
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Caetano Veloso conta que, quando era garoto, sua mãe avisava toda vez que Gilberto Gil, que ele ainda não conhecia pessoalmente, aparecia na televisão. "Vem ver aquele preto que você gosta!", dizia dona Canô.

Ver negros na tevê, nessa época e mesmo depois, era raro e, em certo sentido, meio desconcertante. Quando eu era menino, talvez a única pessoa negra que aparecia com frequência na tevê de casa - pelo menos na programação regional - era a Dulcineia Novaes. Se não me falha a memória, uns anos depois apareceu o Herivelto Oliveira.

A tevê, mais do que hoje, inclusive, era o auge da glória humana. E ver alguém de pele negra em horário nobre era ver que, sim, havia espaço para isso, ainda que pouco, ainda que dependesse de um talento ainda maior do que se esperaria de outras pessoas. Ainda que dependesse de tanta coisa, que eu ainda nem fazia ideia.

Mas desde esse tempo, Dulcineia faz esse papel. E agora, quando faz seus 70 anos, ganhará da Câmara de Curitiba uma justa homenagem (aliás, patrocinada por uma vereadora negra, Giorgia Prates). Será cidadã honorária, e isso na minha cabeça faz todo o sentido.

Porque além do trabalho normal de jornalista (que eu, por outros motivos, sempre considero importante), existe essa outra faceta dela. A de pioneira. Porque muita gente (principalmente entre meus amigos, ranzinzas como eu, que gostam de jornalismo mais hardcore) pode achar que o telejornal local seja lá açucarado demais. Mas não é disso que se trata.

Dulcineia foi sempre digna em sua profissão. Além de fazer bom jornalismo, sempre apoiou colegas mais novos. E, quer as pessoas saibam ou não, ajudou a abrir caminho, inclusive na mente das pessoas, para que mais negros e negras sejam hoje vistos sem espanto na tevê e em outros lugares.

Ela abriu caminho para muita gente boa. De Herivelto a Diego Sarza, passando pela nossa Aline Reis. E inclusive para mim. E por isso fica aqui minha carinhosa homenagem à colega, à decana, à futura cidadã honorária de Curitiba. Parabéns e vida longa!

Rogerio Galindo

Rogerio Galindo

Jornalista, um dos fundadores do Plural.

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