Entre a rebimboca e a redondilha | Plural
5 jun 2019 - 6h00

Entre a rebimboca e a redondilha

Cezar Tridapalli fala sobre um Chevette 84 e sobre a volta ao Hauer da infância

Esse texto será cheio de voltas.

Eu voltei ao meu bairro de origem. Voltava volta e meia, com meus filhos, para almoçarmos na casa de meus pais. Eu o laço e o nó entre duas gerações. Agora voltei mesmo, para morar, re-morar. E rememorar. Não tenho vocação para as grandiloquências, de modo que não vou fazer comparações exultantes com o retorno de Ulisses, nem vou para a autocomiseração do fracasso, do sujeito que tentou voo para no final voltar ao ninho, debaixo de asas. Eu mudei, mas as mudanças convivem – se bem ou mal eu não sei direito – com minhas mesmices. Tem sido possível costurar a incoerência aparente.

Estou morando a três quadras da casa de meus pais. Eles moram na mesma casa onde eu morei desde o nascimento até o casamento.

E agora, voltar, o que significa? Nascido ainda estou, casado não mais. Mas de volta, sabendo que a volta é superpovoada de memórias acessíveis ou não àquilo que chamamos de consciência e de recombinações daquele que eu fui, daquele que eu sou e de suas intercambiáveis permanências e mudanças – as memórias não acessíveis, inscritas como agulhinhas no corpo, são as que mais me intrigam. Há algo que fica, sempre, não sai nem com buchinha, é marca encardida.

As ruas do bairro para onde voltei também são assim, as placas com os nomes das ruas continuam lá, como meu nome nos documentos de identidade. As ruas são as mesmas? Sim ou não? Sim e não.

Esse texto aqui, uma vez a salvo no computador ou na nuvem, vai envelhecer, dois dias vão se passar, dois anos, duas décadas, mas o texto escrito continuará, o mesmo, as mesmas exatas palavras, na memória da inteligência artificial. Já na memória nossa, recuperar um passado (arquivo > abrir > memórias do passado), passar por uma rua da infância a que retornamos (ruas e infâncias permanecem e mudam dentro e fora da gente), significa trazer uma memória que não chega intacta, que vem feita de cortes e acréscimos, de esquecimento e invenção.

Aos sábados, na nova rua em que moro, tem uma espécie de oficina mecânica, uma oficina dessas coisas de que não entendo – e são tantas –, de retífica de motor, ou lataria e pintura, sei lá. Passei na frente e minha arrogância sem razão de ser (existe arrogância com razão de ser?) quase começou, em pensamento, a ridicularizar a cena: marmanjos em volta de carros antigos, rodeando-os, vendo seus motores, rindo e tomando cervejas. No átimo pedante de superioridade, achei tudo muito primitivo.

Até que vi um Chevette idêntico ao que ganhei de meu pai em meados dos 1990. Era um Chevette 84, bege, a álcool, que precisava ser empurrado no inverno para pegar no tranco. Eu o recebi como quem tem todos os desejos satisfeitos para sempre, era quase um beijo de príncipe a encerrar o conto de fadas (a fase da vida em que ainda achamos que um objeto do mundo externo pode nos aquietar).

As sinapses, lentas ultimamente, funcionaram: Sándor Lénard, O Vale do Fim do Mundo: “As memórias aderem aos objetos”.

Eu estava no meu bairro, onde a marca da primeira infância até a dos primeiros amores ressoa em mim a cada conexão com o que eu vejo fora. E o que vi fora foi um grupo de pessoas, homens sobretudo, admirando carros antigos, rindo e comentando sobre alguma rebimboca dos motores de antanho.

Eu, que tenho me ocupado mais de redondilhas do que de rebimbocas, baixei a crista, envergonhado e comovido (movido com). A memória adere aos objetos. Aqueles homens memoravam. Rememoravam e, no auge, comemoravam. Comemorar é memorar com, é memorar junto, e eles não memoravam juntos os motores, as rebimbocas, eles memoravam juntos um tempo que se perdeu, que não é mais possível achar e que só dá pra trazer pela lembrança, em pedacinhos. Lembrar junto faz-nos sentir aconchegados na recordação compartilhada, é insistência que nos dá existência, um pensamento não pensado: e não é que eu existi e existo? Existi e existo no outro, espelho que me devolve quem fui e sou. Vejo o outro olhando os mesmos objetos que eu, partilhando seu pedaço de lembrança, ajudando a compor o painel desse tempo que não é mais, que só chega em nós por tijolinhos cuja argamassa pode ser meio inventada. Ninguém sabe se era mais feliz “naquela época” (mais sinapses: Fernando Pessoa: “E eu era feliz? Fui-o outrora agora”).

Eu não era especialmente feliz na época do Chevette, a não ser pela juventude e pelos últimos resquícios de imortalidade que obscenamente assola quem começa a vida, muito mais futuro no horizonte que passado no retrovisor.

Entre a rebimboca e a redondilha, não há hierarquia objetiva. Elas, no mundo concreto dos objetos, ganham importância conforme a capacidade de deslocar, vasculhar e descobrir como vibram, como acendem os quartos de penumbra fosca cá dentro de mim, aí dentro de ti, aqui dentro de nós, capazes de nos fazer memorar juntos, comemorar.

Então tudo vem cheio de voltas, as voltas da memória e a volta para casa, para o espaço no mundo que me acolheu.

Certa vez, viajando sozinho para Florença, fui a um jogo da Fiorentina. Cheguei cedo, estádio ainda vazio, encontrei meu assento (110C) em meio a um mar de outros, idênticos, e lembro de dizer a mim e ao banco: pô, quem de nós poderia imaginar que um sujeito lá da Vila Hauer sentaria em você um dia?

Quem diria que um sujeito que já pisou em tanto lugar do mundo voltaria ao berço, hein, Vila Hauer (desculpe pelo Vila, Hauer, sei que ninguém mais te chama de vila, mas, ah, vai, nós somos íntimos).

***

Última sinapse funcionando, a frase que li certa vez em alguma rede social:

“Quando uma porta se fecha, outra se abre: eu tinha um Chevette que era assim”.

Para ir além

O Vale do Fim do Mundo, Sándor Lénárd, Cosac & Naify, 224 págs.

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