Divertir e subverter | Plural
1 out 2019 - 21h52

Divertir e subverter

Se, diante de seu bebê recém-nascido, a mãe passasse voando, esse bebê esbugalharia olhos de espanto?

Se, diante de seu bebê recém-nascido, a mãe passasse voando, esse bebê esbugalharia olhos de espanto? Desconfio que não. Se o pai atravessasse uma parede, o bebê ficaria maravilhado achando que o pai fosse super-herói? Arrisco dizer, também, que não. Se, diante do bebê, as pessoas apontassem uma cadeira e falassem “mesa”, o bebê as corrigiria? Se, embalada em carinho e afeto, o bebê recebesse palavras como: quem é a babaquinha da mamãe? quem é a tontinha do papai?, essa criança se ofenderia? Não e não. Se todos chamassem de teto aquilo que chamamos de parede, a parede seria teto, não parede (emoji pensativo).

Esses dias fui falar numa universidade. Era a primeira vez que eu entrava naquela sala específica. Logo, vi lá também pela primeira vez as suas janelas, a tomada, a cadeira, e várias pessoas. Acho que me saí bem, não cumprimentei a tomada, não pluguei meu computador na janela, nem me sentei nas pessoas. Consegui, por meio de uma ordenação que sistematizei ao longo da vida, plugar meu computador na tomada, abrir a janela para entrar um ar, cumprimentar as pessoas e me sentar na cadeira. Civilidade pra ninguém botar defeito.

Duas palavras que garantem à nossa sobrevivência um pouco menos de agonia: automatização e identificação. Não penso mais, mesmo entrando num lugar pela primeira vez, o que seriam uma tomada, uma janela, uma cadeira, umas pessoas reunidas. As coisas acontecem automaticamente, já que sou capaz de identificar elementos e atribuir um valor a cada um deles – a tomada era idêntica a tantas outras que já vi na vida, assim como janelas e cadeira e pessoas. Identidade, identificação, idêntico.

Portanto, automatizar e identificar nos poupam um grande trabalho. E permitem um pouco de comunicação – nunca integral, jamais tornamos rigorosamente comuns as coisas que queremos dizer. Comunicação é tornar comum, pero no mucho.

Quando a garganta secou, esvaziei um copo de água. E perguntei, apontando para o copo: o que é isso? Eu fiquei com um pouco de vergonha diante do silêncio e fui me apressando a responder àquela pergunta tão idiota, fingindo que era apenas retórica, mas ainda tive tempo de ouvir umas vozes rindo e soltando: um copo. Obrigado, gente. Então quer dizer que esse copo é, tipo, um copo? Faz sentido. Esse era o significante comum que parecia tornar possível a nossa comunicação. Um copo é um copo, o que mais seria? Estávamos sendo objetivos, ou seja, colocando no objeto a capacidade de ele praticamente se autonomear, precisando apenas de nossa voz, sem nos dar alternativa. A verdade estava no objeto. Mas alguém poderia ter respondido: esse objeto é plástico. Outro poderia ter respondido: esse objeto é um cilindro. Outra poderia ter dito: esse objeto é um objeto. Estariam errados? Não, e ainda continuariam a ser objetivos (dá pra problematizar isso, eu sei).

No entanto, veja só, já temos aqui nesse plástico-cilindro-objeto um deslocamento, uma forma de ver, mesmo que objetivamente, outras dimensões do copo. Se quiséssemos nos divertir mais, poderíamos colocar o sujeito na parada e assim partir para definições subjetivas, desviantes da nomeação concreta: olhar um objeto plástico-copístico-cilíndrico e dizer “isso aí é um túnel, sem saída”. Que alguém dissesse que não era sem saída porque bastaria sair por onde entrou, não seria de espantar. Vê como o sujeito vai se colocando?

Onde eu quero chegar? Não sei. Mas já que vim, vou entrar nesse túnel – minha única saída agora é entrar. Se algumas linhas aí pra cima eu comemorava aliviado a existência da automatização e da identificação, agora já posso olhar para o outro lado dessa moedinha sacana. Legal ver forma e atribuir função a uma tomada, automatizando-a e identificando-a como tomada. O que acontece, porém, é que muitas vezes automatizamos conceitos nada objetivos. Uma criança que cresce ouvindo posições marcadamente fundamentalistas sobre etnia, gênero, classe social etc, tem chance grande de ser fundamentalista e explicar o mundo a partir dessas lentes. Se o entorno da criança apontar para uma mesa e disser cadeira, aquele objeto será uma cadeira (qual ponto uso aqui, final ou de interrogação?). Se o entorno passa a dizer que se armar é um modo de eliminar violência, que bandido bom é bandido morto, que há subtipos de humanos, isso vira uma verdade que, de tão repetida, massacra a capacidade de refrescar o olhar, de reinaugurar o jeito de se ver no mundo, de ver o mundo, de ver o outro. Há aqui automatização e identificação, mas de tipo diferente daquele de que falávamos acima.

Ilustração: Conde Baltazar

Preciso de identificação ao nascer, ela nos dá as primeiras ideias de quem somos (“antes de falar, somos falados”, sabe?), ela me dá um nome, sobrenome, me dá um lugar entre os demais. Se essa identificação, contudo, que me diz quem sou e quem o outro é, passar a me prender e a aprisionar em caixinhas o que me cerca (atenção ao duplo sentido desse “me cerca”), precisarei me reposicionar subjetivamente, a fim de me separar das tais identificações que funcionam mais como rótulos grudados numa embalagem, cujo conteúdo, porém, não é bem o que a propaganda diz.

Criam-se identificações rígidas que levam a associar pessoas a um catálogo de rótulos instalado desde muito cedo no sujeito rotulador. Assim é até com nós mesmos: se crescemos ouvindo que somos bonzinhos ou pestinhas, burrinhos ou geniozinhos, vamos grudando tais rótulos colados pelo Outro e depois temos uma baita dificuldade para saber o que é nosso desejo e o que é o desejo de corresponder ou frustrar o desejo do Outro, a expectativa que ele criou em nós, a narrativa que ele inscreveu em nós.

Aí, eis que me lembro desse encontro: as “definições” do José Paulo Paes (do livro Poemas para brincar):

Caveira: a cara da gente quando a gente não for mais gente

Excelente: lente muito boa

Isca: Cavalo de Troia para peixe

Rei: cara que ganhou coroa

Urgente: gente com pressa     

Zebra: bicho que tomou sol atrás das grades

É um verdadeiro dicionário, de A a Z, de que pus aqui apenas alguns vocábulos. O ranzinza (essa espécie sem graça de rã cinza, estritamente objetivo, automatizado e identificado – definição que inventei agora) vai achar isso uma grande baboseira. Ora, o que tem de mais nessa bobajada de poeta?

Muitos de nós, menos ranzinzas, vamos rir, mas achar que é “só diversão”. E é aí que eu implico. Só diversão? Sabe que minha implicância não está com a palavra diversão, e sim com o só. Diversão é dividir a versão (fonte: vozes da minha cabeça), é propor uma versão que estava escondida sob a versão oficial, portanto: subversão (prende o comunista). Então a diversão é excelente (“excelente: lente muito boa”) e isso não é pouca coisa, daí a minha implicância com o só. É pela reinvenção da palavra que a gente desautomatiza e desidentifica o mundo e a nós mesmos, que a gente arranca os rótulos que escondem mais do que mostram. A poesia expande o significante, torna-o aberto para a metáfora, torna-o aberto para novas entradas de percepção do mundo. Sem isso, seríamos um sujeito objetalizado, um sujeito sem desejos assujeitado ao que o Outro diz que somos. Seríamos muito pouco, quase nada. E o que é o nada?

“Uma faca sem lâmina da qual se tirou o cabo”.

Adoraria que fosse minha essa definição do nada, mas é do Guimarães Rosa.

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