Mil beijos | Jornal Plural
27 ago 2020 - 21h14

Mil beijos

Encarte é outra das razões que me leva a comprar LPs. Entendo que, em geral, é uma arte à parte

Numa das visitas a um sebo que não sei qual, nem onde e sequer a data, comprei, por um real, o – disco – Long Play (LP) Miúcha, gravado em 1988. Foram quatro as razões para comprá-lo: gosto da Música Popular Brasileira (MPB); aprecio a música/canto da Miúcha; o preço irrisório; e, contém uma dedicatória assinada pela cantora.

Para P. e M.

Adorei vocês

Mil beijos

Miúcha

28/9/90

Assim que li a dedicatória me interroguei: “é um casal casado ou de namorados, amigos ou irmãos?”. Há outra alternativa além destas?

A segunda pergunta é a de sempre: “por quê se desfez do ‘objeto’, no caso o LP?”.

Acompanha este disco um encarte.

Encarte é outra das razões que me leva a comprar LPs. Entendo que, em geral, é uma arte à parte.

É do tipo (é assim que fala?) você compra a música gravada e “ganha” a arte encartada com fotos, textos, poesia, ilustrações e informações. Há LPs, como Soro (1979), que tem um volumoso e rico encarte.

O encarte deste LP é rico. É especial com “manuscritos” da Miúcha explicando a razão da existência do LP e outras informações como: “Em Cuba aprendi muita coisa além de pronunciar letras que não faziam parte de meu alfabeto. Aprendi a falar diferente, a cantar, a sentir e até a acreditar que tudo pode ser mudado, como diz Pablo Milanés”.

E de Pablo Milanés, ela grava duas músicas: “Para Viver” e “Buenos Dias, América”, esta última com a participação do próprio.

Em “Para Viver”, Miúcha canta:

Quantas vezes te disse / Que era preciso a gente pensar muito bem / Que na nossa união fazia falta / Carne e desejo também / Já não bastava que me entendesses / Mas que morresse por mim / Que não bastava que em meus fracassos / Eu me refugiasse em ti / Agora vê o que passou, enfim nasceu / Com o passar desses anos / O tremendo cansaço / Que provoco hoje em ti / É doloroso, mas tem que admitir / De minha parte esperava / Que um dia o tempo se encarregaria do fim / …”

Em “Buenos Dias, América”, com Pablo Milanés canta: … Siento que todo está cambiando al nuestro alrededor / Respiro un aire cada vez mejor / Que exalta el grito de mi corazón…

No “Saudosismo”, de Caetano Veloso, Miúcha canta: Eu, você, nós dois / Já temos um passado, meu amor /…

No encarte, Miúcha dá uma explicação da razão do disco, da escolha das músicas, participação dos músicos e dos compositores. Explica que: “pensava levar uns bons seis meses até completar o disco. Na verdade, lá se vão mais de dois anos. Acho que a certas alturas o processo se inverteu – já não era eu que estava gravando um disco, era ele que me deixava sulcos profundos”.

P. e M. (o casal?) desfez-se do disco. Foi dificuldade financeira? Não gostaram do disco? Gostam da Miúcha, mas não gostaram das músicas?

P. e M. separaram-se. Será que foi porque nessa união fez “falta carne e desejo” ou será que o cansaço provocado – “é doloroso, mas tem que admitir” – se encarregou e chegou ao fim?

Ou será que cada um deles em separado sentiu que tudo havia “cambiado ao alrededor” e que longe um do outro, ou com outro/a poderia respirar um ar melhor?

Será que cansados um do outro “criaram vida própria, se organizaram e encontraram seu verdadeiro sentido” e concluíram que – mesmo deixando sulcos profundos na alma – “tudo tem dois lados” e que cada um deveria ir para o seu?

Separaram-se?

Separaram-se porque acreditaram – em Pablo Milanés – que tudo pode ser mudado.

O disco foi vendido e dividido o recurso entre os dois ou na separação um trocou-o por outro “objeto” e depois por dificuldade financeira ou despeito vendeu?

Vendeu a que preço já que paguei um real?

Separaram-se e acredito que ambos gostavam – ou gostam – da Miucha, e para que pudessem ficar bem (?) dividiram os beijos, 500 para cada um, e saíram – cada um para um lado – cantando: Eu, você, nós dois / Já temos um passado, meu amor /…

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