23 ago 2021 - 9h00

A voz interior

Homenagear vítimas sempre dá a impressão de algo humano e solidário, afinal é o reconhecimento que um determinado número de pessoas foi vítima de algo, de alguma ação ou ausência de ação

Com culpa por não cumprir – falhei no dia 9 passado – a agenda assumida com o Plural sentei-me à frente do computador. Mas o que escrever quando se carrega uma culpa?

Alguns já escreveram sobre a própria culpa e muitos sobre a culpa, e entre eles, Moacyr Scliar.

No livro Enigmas da Culpa, Scliar escreve que Culpa é uma palavra de amplo significado. Podemos falar da culpa no sentido moral, incluindo aí a moral religiosa. Podemos falar da culpa neurótica, da culpa jurídica, da culpa existencial.

A culpa está ligada a uma peculiar forma de audição: a audição da implacável voz interior, que acompanha o culpado ainda que ele se enfie em qualquer buraco.

No meu caso não há nenhum dedo em riste cobrando pela falta. Só a voz interior, e é mais que suficiente, é sufocante.

Dependendo do fato, da ação ou do que eu fale, às vezes a voz me sufoca, exagera em gritos e faz com que eu perca o sono. Muitas horas ou até mesmo noites passei acordado por cobranças desta ensurdecedora voz, que imagino ser da consciência.

Acredito que há ausência desta voz em algumas pessoas, como por exemplo alguns governantes, e aqui cito o alcaide – uso a palavra no sentido antigo que significa governador de castelo – Rafael Greca.

Ah! Desculpe, é provável que a questão do Greca seja outra. A voz da consciência de classe que falta a muitos trabalhadores e trabalhadoras, não falta aos burgueses, e creio ser este o caso do Greca. A sua voz interior só cobra quando, por descuido, ele pratica alguma ação contra os privilégios dos ricos.

Dia desses o alcaide Greca inaugurou um “Memorial da Saúde” para homenagear as vítimas da Covid-19. Generoso, não?

Homenagear vítimas sempre dá a impressão de algo humano e solidário, afinal é o reconhecimento que um determinado número de pessoas foi vítima de algo, de alguma ação ou ausência de ação.

No caso, de acordo com o discurso do alcaide, as vítimas foram produzidas só pelo coronavírus não pela ausência de políticas públicas. A voz interior dele nada cobrará sobre isto.

Homenagear as pessoas que morreram tendo como agente causador da morte única e exclusivamente o vírus e ignorar os governantes e suas políticas públicas destrutivas é consentir com o genocídio e homenagear os genocidas.

A praça de 200 metros quadrados construída pela prefeitura para homenagear as vítimas Covid-19 gerou – segundo “conceituado” veículo de comunicação – muita polêmica pelo alto custo (cerca de 500 mil reais) da obra. Lendo este informativo conclui-se que não houve polêmica em torno de quem, além do vírus, foi o causador de tantas mortes.

Ideias “mirabolantes”, “criativas”, que estão na “moda” são com o nosso alcaide. Com a ideia na cabeça deu a ordem: “vamos construir um ‘Memorial da Saúde’. Encontrem o local. Será uma homenagem às nossas [lá deles] vítimas”.

O informativo oficial trouxe que por ser uma pequena área onde ficará a praça não haverá mobiliários e sim um grande mural de 25 metros de extensão por sete metros de altura, com a reprodução de uma obra do pintor, gravurista e ilustrador Antonio Maia (1928-2008), que não morreu de Covid-19.

Peço desculpas a Antonio Maia, entendo que o mais correto seria constar neste painel o nome de todas as pessoas que viviam em Curitiba e morreram de Covid-19.

No mesmo sentido peço desculpas ao escritor, poeta e humanista Eduardo Galeano, que com certeza se vivo não concordaria com a manipulação do Greca. Minha sugestão, e creio que Galeano concordaria, é que no espaço do poema fosse colocado o nome dos algozes.

Explicitasse também que pessoas morreram nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) por não haver leitos hospitalares para serem internadas e quando tinha leito no hospital não tinha na UTI. Morreram por que faltou – não por culpa dos e das profissionais – atenção à saúde. Morreram porque faltou vacinas e medicamentos para que fossem entubadas. Morreram porque faltou política pública de atenção social.

É provável que os espaços dos painéis com todas essas informações não desse conta. Mas, como o esnobe prefeito já criou espaços minúsculos – como os faróis do saber – para serem bibliotecas, poderia ali, naquele canto, construir um pequeno edifício e dentro teríamos computadores e documentos com o registro de todas as vítimas, sua história de vida e o que faltou para salvar a vida.

No atual holocausto pandêmico não há só vítimas há também algozes e, no memorial do alcaide, não consta o nome deles. Sendo assim nos resta a história e nela Greca não será salvo por uma Praça.

A voz interior me cobra a crônica que não fiz e me faz outra cobrança: “você iniciou esta série de crônicas para escrever sobre dedicatórias em livros e LP e fugiu do assunto”.

Desta vez tive resposta: está crônica é (in memoriam) dedicada a todas as pessoas que foram vítimas dos governantes e do coronavírus. Mais, aponto o dedo para os que por não executarem políticas públicas são responsáveis por grande parte destas mortes os algozes Bolsonaro, Ratinho Jr. e Rafael Greca.

Estes algozes apesar de citarem cotidianamente o nome de Deus são surdos à voz interior. Não sentem a culpa moral (incluindo a moral religiosa), neurótica, jurídica e existencial.

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