Gemma | Jornal Plural
2 jun 2021 - 8h05

Gemma

Porque tem vidas que mal cabem dentro de uma oração

Essa é a história de uma mulher chamada Gemma. Imagino que você leia o nome e já imagine que ela veio de outra geração, porque não parece um nome que você daria pra uma criança hoje. Mas no Brasil dos anos 30, numa pequena cidade do interior de Santa Catarina, daquelas que tinha mais descendente de italiano que alemão, esse nome era até bem normal. Mas a dona do nome não.

Quando ela era um bebê, envolta em fraudas de pano e roupinha feitas de maneira caprichosa, reza a lenda que suas primeiras palavras, no colo do pai, foram mais ou menos assim:

– Diz “papai”, Gemma.

– Pa… Pá…

– Isso! Diz “papai”. “Papai”.

– Pá… Pááááá…

– Tá quase! Diz “papai”. Diz “papai”.

– Pá… Páááááááá… Pa-pa-i.

– Isso!

– Pa-pa-i.

– Isso, filha!

– Pa-pai-… filho, espírito santo, Amém!

-… Oi?

Desde então a pequena Gemma nunca mais parou de rezar. Ela rezou pela vida toda – a vida toda dela e mais umas outras vidas.

Não vivia só de rezas, é claro. Teve uma vida árdua, cheia de afazeres. De tanto praticar virou uma excelente cozinheira e, no tempero, todo mundo sabia que ia alguma coisa a mais pra ficar daquele jeito, algo quase milagroso, que ninguém sabia exatamente o que era. Ninguém nunca ficou sabendo também, porque Gemma fazia em silêncio, dentro de si, um pedido

– Valei-me, São Benedito, que o ponto da polenta não me escape! – e nunca escapava.

Na sua cidade era comum as pessoas saberem dos santos básicos, especialmente a turma dos dias das festas juninas. Mas, muito antes do Google, quando alguém precisava de um santo específico, iam lá e perguntavam pra Gemma.

– Não, não, pra dentista tem que rezar pra Santa Apolônia! São Lucas é dos médicos.

– Ele é ainda uma criança, Gemma.

– Ah, mas aí reza pros gêmeos, São Cosme e Damião. Aí não tem como não ouvir.

Ela tinha um terço diferente pra cada dia da semana, inclusive um terço pra terça – que ela gostava de repetir porque achava divertido. Quando chegou na idade de casar e não casava, logo veio uma amiga atazanar as ideias:

– Você não é a mulher que reza pra tudo? Reza duma vez pra Santo Antônio que ele acha marido pra você.

– Não, não, não. Vocês, que só rezam domingo, precisam começar a perturbar o santo muito antes. Eu vou falar com ele na hora certa.

– Mas quando vai ser a hora certa?

Quando ela achou um pretendente, um moço com cara de trabalhador, boa pinta, um belo dente de ouro (que era, praticamente, o piercing dos antigos), ela comentou com as amigas que aquele iria ser seu marido. Todas pediram pra Gemma esquecer, que “aquele ali” não ia casar logo, que ia tentar morder muita gente ainda com aquele sorriso dourado. Ela balançou a cabeça, como quem entende os argumentos apresentados, fechou os olhos, juntou as mãos perto do peito, levou os lábios entre os dedos indicadores e médios e disse:

– Querido Santo Antônio…

Nem bem ela terminou a frase o homem já estava lá, ao seu lado e mostrando o belo dente de ouro.

Quando era solteira, Gemma rezava pra si e pra família. Com o casamento começou a rezar por mais um. Com as filhas, e vieram quatro, tinha que organizar direitinho pra dar tempo pra todos. E sempre dava tempo.

– Gemma, como é que você consegue fazer tudo o que você faz e ainda rezar pra tanta gente?

– Olha, se você começa rezando pra São Judas Tadeu, o impossível deixa de existir.

Ela rezava também pros vizinhos, pros filhos dos vizinhos, pros amigos dos filhos dos vizinhos. Rezou tanto, tanto, que num dia, depois de sei-lá-quantas novenas seguidas, algo estremeceu. E ela viu, porque todos os santos que estavam em sua frente balangaram, mas terminaram ainda mais direitinhos do que estavam antes. Gemma até estranhou o pequeno terremoto, mas depois de tanto oração nada de mau poderia acontecer. Decidiu só dormir e deixar nas mãos de Deus – como sempre.

Foi no dia seguinte que alguém num carro, com placa de fora da cidade, parou do lado de Gemma e perguntou:

– Senhora, pra que lado fica a estrada que leva pra capital?

– Ah, moço. É só virar ali, na venda da esquina, e seguir reto. No trevo, uns 9 quilômetros pra frente, é só virar à esquerda que vai ter placa.

– Tá bom, muito obrigado.

– Imagine… Vá com Deus!

Uma explosão aconteceu nos céus e, caindo feito um míssil, um anjo veio e pousou ao lado do carro.

– Boa tarde, senhor, Meu nome é Arrutzael. Queira me acompanhar, por favor, só pra gente evitar um possível acidente uns 600 metros após o trevo.

Você acha que o motorista ficou chocado? Não. Ao escutar a voz do anjo, ele achou tudo normal e tranquilo. Mas Gemma, que viu tudo aquilo, estava boquiaberta. Ela virou pra dentro de casa, num misto de pedido de socorro e júbilo. O marido, com cara de brabo por causa de um atraso, foi logo cortando o assunto:

– Depois você me conta. Tenho que ir no banco e não acho a chave do fusca, você viu?

– Na prateleira.

– Não, não tá. Você tirou de lá?

– Eu não mexo na chave do fusca!

– Onde está essa porco di…

– Não fala esses palavrões em italiano que Deus não merece. Eu vou pedir pra São Longuinho que…

Do chão, surgiu São Longuinho já com a chave do fusca na mão.

– Você não precisa nem mais pular, Dona Gemma. Está aqui a chave.

Gemma deu um berro de susto, mas o marido pegou a chave agradecido como se a coisa mais normal do mundo tivesse acontecido e tomou o rumo do banco. Gemma sentou estarrecida, caindo com cabeça nas mãos e pensando que tinha enlouquecido.

– Não enlouqueceu não – disse uma menina de 14 anos que surgiu ao seu lado, em túnicas verde-irlanda.

– Quem é você?

– Sou Dimpna.

– Santa Dimpna? A da saúde mental? Eu rezei pra você quando a Leonice teve uma tristeza que não passava.

– E eu ouvi. Vim só pra te dizer que você está bem. Aliás, muito bem.

– O que tá acontecendo?

Um anjo muito alto, com pele negra e dreads, surgiu carregando um livro aberto.

– Gemma, pelos nossos registros, você acaba de passar para uma categoria especial de orações.

– …Gabriel?

– Eu mesmo. Desculpe eu não me apresentar, mas pelo tanto de orações, já imaginava que nos conhecíamos muito bem.

– Não consigo entender ainda…

– É fácil – disse Santa Dimpna, com um sorriso em seu rosto sardento – imagine que alguém treina algo a sua vida toda e que, em algum momento, isso é tão intenso que se transforma.

– Você rezou tanto, a vida inteira, que agora as suas orações chegam diretamente para nós – disse Gabriel, fechando o livro que desapareceu em suas mãos como mágica – A única outra vez que algo similar aconteceu foi com um rapaz chamado Siddhartha Gautama e ele nem é do nosso panteão.

– Minhas orações… vão direto?

– Direto.

– Mesmo as minhas orações… pra Ele?

– Especialmente pra Ele.

– Minha nossa Senhora…

– Pra ela também.

– E o que eu posso fazer agora com isso?

– Agora você pode… Tudo!

– Tudo?

– Absolutamente Tudo.

Gabriel e Santa Dimpna saíram e deixaram Gemma ali, sozinha em sua cozinha. O silêncio só era quebrado pelo bater das horas em um relógio cuco, na sala. Enquanto pensava, Gemma pôde imaginar tudo que desejou em algum momento: o retorno de sua juventude, riqueza infinita para a família, e tantas, tantas outras coisas que nunca teve durante uma vida dura e batalhada. Só saiu do transe quando escutou a porta do fusca batendo e o marido entrando.

– Véio, deu tudo certo no banco?

– Tudo certo no banco, tudo nos conformes.

– … Ótimo.

– E com você, tudo bem?

– Sim… Tudo bem. Tudo sempre esteve bem.

Se você, lendo essa história, está pensando “ué, por que a fome mundial não acabou?” é porque você ainda não entendeu quem é Gemma. Depois daquele dia, nada mudou. Ele continuou a rezar com o mesmo fervor, da mesma forma, porque a certeza da graça alcançada não mudou o que ela sentia ser a sua parte do acordo. Só de vez em quando, quando algum dos netos precisavam de uma ajuda extra, ela caia na tentação de oferecer um apoio divino, mas nada além disso. E, ainda hoje, ela tem terços e rezas para quem quiser.

Epílogo

Lúcifer e Jeová se encontram. Lúcifer está puto:

– Eu não acredito que essa mulher não fez pedidos estapafúrdios! Que raiva.

– Lulu, eu tinha dito que ela não ia pedir.

– Não me chama de Lulu!

– Aposta é aposta. E, pelas regras, eu posso te chamar de Lulu por um milênio. Se eu perdesse você ia me chamar de Jejê, lembra?

– Foi completamente sem graça. Com aquela do Jó, pelo menos, eu pude curtir a tortura, aquela violência delícia. Nem teve isso pra mim, agora.

– Eu só aceitei aquilo porque era uma outra fase da minha vida. Depois que tive filho e mandei pra Terra, eu tenho outra concepção sobre sofrimento humano.

– Saco… Te vejo no milênio que vem!

– Vou fazer questão da gente se ver várias vezes nesse milênio, Lulu.

– Não! Eu vou me esconder.

– Você ainda não entendeu o significado de onipresença?

– Argh! Te odeio, Pai.

– Talvez você me goste menos ainda agora, Lulu.

*****

P.S. Essa crônica é um pequeno registro do meu amor pela minha vó, dona Gemma, que sempre orou pelos outros de forma muito fervorosa. A gente deveria ter feito uma grande festa ano passado e não foi possível por causa da pandemia. Este ano, de novo, não será possível pelo mesmo motivo. Então a gente fica pedindo pra todos os santos cuidarem dela porque, assim que for possível, essa grande festa sai.

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