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COP30, Boiadas e a Luta nos Territórios

Os povos originários seguem resistindo às invasões, ao desmatamento ilegal, à cooptação e à demora na demarcação de suas terras

COP30, Boiadas e a Luta nos Territórios
Indígenas na COP. Foto: Bruno Peres/EBC
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A escolha da Amazônia como sede  da COP30 parecia, à primeira vista, apontar para uma tentativa de diálogo com os povos indígenas — afinal, a existência e permanência da maior floresta tropical do mundo é fruto direto da relação dessas populações com seus territórios, de seus modos de vida baseados na preservação e no cultivo sustentável. No entanto, a construção de uma agenda política verticalizada, com pouca ou nenhuma participação das lideranças indígenas, deixou claro que os interesses neoliberais seguem determinando o rumo do enfrentamento às emergências climáticas.

Enquanto chefes de Estado e autoridades internacionais debatem mercados de carbono e apresentam soluções paliativas, evitando assumir compromissos firmes contra os combustíveis fósseis e o desmatamento, a crise climática continua vitimando populações periféricas, indígenas e quilombolas — vítimas diretas do racismo ambiental. Às vésperas da COP, assistimos ao tornado de nível 4 que devastou Rio Bonito do Iguaçu, no oeste do Paraná, e ainda temos na memória as enchentes gaúchas. Esses eventos, longe de exceções, tornaram-se parte do cotidiano de quem vive em áreas vulnerabilizadas: são sempre os que têm menos proteção e menos recursos que sofrem mais. A realidade exige o óbvio: Justiça Climática.

Um episódio revoltante — e revelador do abismo entre discurso e prática — foi o assassinato de um indígena guarani por jagunços do agronegócio no Mato Grosso do Sul, em pleno andamento da COP. Infelizmente, não é um caso isolado. Mortes como essa, assim como ataques registrados no oeste do Paraná e na Bahia, tornaram-se frequentes, mas raramente aparecem na grande mídia ou geram comoção nacional. A sociedade naturaliza a violência contra povos que lutam pelo direito básico de existir. E quando não são mortos ou invisibilizados, muitos têm sua história e cultura apagadas pela cooptação do agronegócio, abandonando o nhandereko em troca das promessas de “dinheiro fácil” e do mantra neoliberal do acúmulo de riquezas e poder para poucos, deixando um rastro de violência nos territórios, destruição da nossa casa mãe e perda da nossa identidade. Tão triste quanto a morte de um corpo é a morte de uma cultura — porque, quando isso acontece, morremos todos um pouco por dentro.

Apesar disso, os povos originários seguem resistindo às invasões, ao desmatamento ilegal, à cooptação e à demora na demarcação de suas terras — territórios que, historicamente, garantem não apenas a continuidade de seus modos de vida, mas também a existência das maiores áreas preservadas do país. A ciência já provou: onde há terra indígena demarcada, há floresta em pé — e onde há floresta, há capacidade real de mitigar a crise climática.

Houveram avanços, é verdade. Os povos indígenas marcaram presença nos debates, uma marcha popular levou 70 mil pessoas às ruas de Belém cobrando soluções reais para o colapso climático, e o governo anunciou progresso em 10 processos de demarcação. Também pela primeira vez foram destinados recursos públicos na Amazônia para sistemas agroflorestais — modos de produção inspirados nas agriculturas ancestrais, fundamentais para restaurar áreas desmatadas — além de um fundo para florestas financiado pela Alemanha.

Mas é preciso relativizar esses avanços. Eles são mínimos diante do poder econômico do agronegócio e do volume de recursos que recebe anualmente enquanto se investe pouco na transição para uma agricultura regenerativa. Vemos também iniciativas como a exploração de petróleo na foz do Amazonas avançarem, mostrando que o velho modelo de desenvolvimento ainda rege as decisões. A derrubada dos vetos ao PL da Devastação logo após a COP reforça essa contradição: mesmo com Bolsonaro preso e inelegível, seus aliados  seguem impondo “boiadas” que aceleram a destruição dos biomas e empurram nossa sociedade para o colapso.

Nos territórios, seguimos vendo governos decidirem contra a preservação. No Paraná e no Brasil, o desmatamento avança sem trégua — são hectares e mais hectares destruídos todos os dias. De que valem os pactos climáticos quando, na “capital ecológica”, se propõe derrubar mata nativa para acumular lixo? De que serve o discurso de “estado sustentável” quando se fecha os olhos para o avanço do desmatamento e não se faz regeneração?

A verdadeira resposta à crise climática não virá dos grandes palcos diplomáticos, mas da coragem de enfrentar interesses que lucram com a destruição e de fortalecer quem está na linha de frente da proteção ambiental. A COP30 ainda pode ser decisiva — mas só se reconhecermos que o tempo da Terra não acompanha o ritmo lento e burocrático da política.

Lutar por 100 árvores é essencial — por cada uma delas. Mas a crise é tão profunda, e os territórios tão atacados, que às vezes parece que apenas as árvores das áreas centrais importam. É urgente ampliar movimentos, vozes e iniciativas de proteção e regeneração. Devemos jogar luz para evidenciar toda a devastação de corpos e territórios — venha de onde vier — e fortalecer a resistência em cada canto do país.

Precisamos lutar pelos bosques urbanos e também por todas as florestas. Defender a mata em pé e reflorestar o que já foi destruído. Documentos e pactos só terão valor se ecoarem no chão dos territórios. Para isso, precisamos virar a mesa e colocar representantes corajosos conectados à população nos espaços de representação , capazes de questionar tudo isso e impulsionar mudanças reais, resgatando a sabedoria ancestral e abandonando velhas fórmulas que já não servem.

É hora de uma força de transformação que plante sementes no coração de cada pessoa e prepare o terreno para que todas ouçam o chamado. A Mãe Terra está chamando — gritando. Não são sinais sutis.

O que ainda falta para finalmente ouvirmos esse chamado?

Eloy Nhandewa

Eloy Nhandewa

Ativista indígena Guarani Nhandewa, liderança do Território Sagrado Floresta Estadual Metropolitana, membro do Conselho Estadual dos Povos Indígenas e atual suplente de vereador em Curitiba.

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