Ser mulher negra é enfrentar preconceitos mascarados | Plural
20 jul 2019 - 9h24

Ser mulher negra é enfrentar preconceitos mascarados

A naturalização do machismo e do racismo colocam em risco reais possibilidades de mudanças sociais

Em sala de aula, quando entrei na primeira turma, as alunas vieram correndo em minha direção, negras, pardas, dizendo: “Até que enfim uma professora negra!”. Fiquei muito feliz. Curiosamente, o estranhamento acontece em sala de aula, mas só num primeiro momento. Os alunos, talvez pela idade, agem com mais naturalidade. Logo, já não se importam mais com minha cor, ou idade. Às vezes, parecem que esquecem que estou em sala e, desta maneira, pude ver situações que acreditava terem acabado.

As injúrias raciais e as piadas racistas são constantes, proferidas por brancos a negros. Mas, meu maior espanto surgiu quando chegou uma menina negra, vinda de outra escola. Muito inteligente, nitidamente de uma condição financeira um pouco melhor que a média dos outros estudantes e excelente aluna.

Os colegas levantaram-se numa revolta inacreditável contra essa menina, tinham raiva de seu tênis, de seu tablet, do que ela contava que fazia no final de semana com seus pais, de suas notas. As meninas que num primeiro momento se aproximaram dela, depois se afastaram. Os meninos xingavam-na em todas as aulas: “cabelo de bombril”, “preta fedida”, “nega macumbeira”, “mentirosa”, “metida”; faziam piada sobre quem namoraria com ela. E tudo foi se agravando porque ela reagia muito. Isso acontecia em todas as aulas e, para minha surpresa, também na minha. Claro que eu não deixava por menos, mandava os meninos para direção. Em outras aulas, os professores tinham que deixá-la na mesa do professor para poderem dar aula.

A direção não sabia o que fazer, a pedagoga dizia que isso era assim mesmo, que todo mundo sofre bullying, que ela provocava. Chegou ao ponto de pedirem para a mãe mudá-la de escola. Eu mandei um bilhete para a mãe dela, pedindo que viesse reclamar; um professor chegou a fazer uma reclamação na ouvidoria. Essa posição da escola mascara um processo destrutivo. Como dizia Abdias do Nascimento, afro-brasileiro que foi professor e também artista e ativista, “há uma fachada despistadora que oculta e disfarça a realidade de um racismo tão violento e destrutivo. […] não se resolve problemas utilizando-se o método avestruz: o método de ignorar a realidade concreta metendo a cabeça na areia”. O método avestruz produz certo alívio, deixando a população – racista – livre de suas responsabilidades pelos problemas sociais que os negros vivem.

Lembrei-me de meu tempo na escola, me vi no lugar daquela menina, me identifiquei. Não “ficava” com nenhum menino, como todas as outras meninas, tampouco era escolhida para brincar de “casamento atrás da porta”. Ouvi dizerem para ela o que diziam para mim. Concluí que as coisas não mudaram nada.

Voltei a um momento da minha vida, mesmo período em que essa minha aluna estava, 7° ano. Certo dia em meu aniversário, meu pai me deu uma bicicleta nova. Linda. Fui com ela para a escola, toda feliz. Foi o pior dia de minha vida. Na saída, reuniram-se quatro meninos da minha sala, me xingaram de coisas que nem me lembro.

Na época também não sabia o porquê, sei que foi pior para mim, e que chutaram minha bicicleta, entortaram o aro novo. Foi a pior coisa que já tinham me feito. Às injúrias já estava acostumada, mas aquilo foi demais. Nunca me senti tão mal, tão aviltada, gritei com eles a todo pulmão, chorei horrivelmente por horas. Fui para casa com a maior indignação da minha vida, contei tudo para minha mãe. Nunca tinha contado nada do que se passava antes, porque tinha vergonha. Neste dia foi meu limite.

Dia seguinte, minha mãe foi à escola e os meninos nem tiveram coragem de aparecer, de tanto medo que tiveram. Para minha surpresa, um professor disse a minha mãe que viu a situação – afinal, foi na frente do portão da escola. Pergunto-me: “então, por que não interferiu?”. A direção chamou os pais dos meninos, assinaram termos de compromisso, enfim, as coisas melhoraram. Mas, em mim, tudo se quebrou, e venho juntando os pedaços até hoje.

Percebi que de fato, algumas vezes a escola não sabe o que fazer, não porque não exista lei, cursos etc. Mas, porque acham realmente que essa vivência das meninas negras, é assim mesmo, é normal. Nunca tomam medidas mais drásticas. A vítima se torna culpada. Não percebem a dimensão dessa violência e como ela traz efeitos maléficos em longo prazo. E, em última análise, como ajuda a manter a desigualdade.

Mas também há casos em que simplesmente agem como avestruzes. Odiei meu tempo de escola, ainda luto para vencer minha timidez, minhas inseguranças e feridas que, hoje sei, vieram desse tempo, que deixou marcas contundentes em mim.

Notei que os meninos negros também sofrem, mas é mais leve, afinal, “jogam bola”, “namoram loiras”. Também há mais professores negros, do que mulheres; creio que estão mais bem representados. Desde menina, percebi que teria que enfrentar o machismo, além do racismo – mesmo que dissessem que eles não existem.

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