Aceno à paternidade | Plural
11 ago 2019 - 22h47

Aceno à paternidade

Filhos e filhas não nascem para costurar nossas fissuras, afirma Guilherme Bucco

Dora veio para mim e minha esposa tal qual um pacotinho surpresa. Como todo bebê, sua espera instigou anseios e promessas. Será miniatura de qual dos pais? Preferirá navegar pelos mares ou se aventurar em trilhas florestais? Compartilharemos filmes, comidas, gostos, trejeitos?

Algumas dúvidas foram contempladas logo ao ser desembrulhada. A mãe se mostrou no formato da orelha, o pai no desenho da boca. O avô, vivo na saudade, se fez presente nos dedos de unhas longas. Porém, a maioria das curiosidades ficaram incubadas, a esperar o momento de serem atendidas. A calma da avó, o olhar curioso da tia, o jeito materno de dormir com as mãos unidas ou a preguiça matutina do pai.

Uma criança nasce e não somente concretiza diversas possibilidades, como também carrega uma responsabilidade vã, imposta a ela muito antes de sua existência sequer ser colocada em prática.

Se as palavras me fugiam quando criança, criarei minha filha para ser oradora. Se eu me escondia dentro do agasalho em locais públicos, eu a incentivarei a não ter medo de holofotes. Se meu sonho era ser atleta, eu lhe comprarei todo o equipamento necessário para praticar seu esporte favorito. Tocarei clássicos da música para seu ouvido aprender desde cedo a identificar notas, e lápis coloridos estarão ao seu alcance para sua criatividade abrir portais nas paredes de casa.

No ímpeto de vê-la descobrir o já descoberto por mim, tomo dela seu viver e lhe confisco a autonomia. Na esperança de vê-la exceder meus temores, outorgo-lhe a tarefa de resolver minha vida pregressa. Torno-a refém de minha história, na intenção de que suas conquistas sejam a redenção de minhas fraquezas. Idealizo vivências e planejo situações, faço da expectativa a gêmea de minha filha. Expectativa que nasce como o fardo de ser ela a agulha a costurar as minhas feridas.

E com muitos avisos e poucas surpresas, Dora se apresentou única. Como qualquer outro bebê, surgiu ansiosa para ser heroína de sua própria narrativa. Ela não portava consigo uma lista de afazeres para me redimir, e sim um bilhete com palavras riscadas e rasuradas.

Dora teve uma hipóxia perinatal. Por consequência, tem paralisia cerebral. Terapias, consultas e remédios foram peças encaixadas e assentadas no quebra-cabeça da rotina, tirando lugar daquelas premeditadas. As impossibilidades de minha filha abraçaram-se com uma certeza criada por mim. Ela seria incapaz de trazer resoluções para meu ser.

Mas Dora não se mostrou interessada em minhas inquietações. Ela avançou pelos dias, semanas e meses. Suas feições, ora mãe, ora pai, ora tio, ora avó, passaram a se aventurar em busca da própria identidade. E nisso, o bilhete, outrora incompreensível, passou a ser decifrado.

Dora não era uma caixinha de costura para dar pontos em minha falhas. Só uma pessoa tinha as ferramentas para reparar tais fissuras: eu mesmo. Mas, para isso, eu preciso aceitar o pedido trazido por minha filha ao nascer: ser seu pai, para florescer em parceria.

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