Casa do Terror

Minha cabeça nunca mais foi a mesma depois do AVC. Ela começou a ser habitada por muitas coisas, inclusive fantasmas. Todos reais e imaginários

Todo mundo tem medo. Não adianta dizer que não. Eu mesma era muito insegura na minha primeira vida. Tinha medo de um monte de coisa. Hoje fico até abismada com os antigos motivos por que, depois do meu acidente, a minha mente ficou tão perturbada que os enredos de filme de terror viraram fichinha. Tudo porque um cérebro machucado não pensa da mesma maneira. Ele constantemente é invadido por catástrofes.

Além da nossa realidade mudar da noite para o dia, as próprias sequelas começam a nos pregar certas peças: zumbidos imaginários (ocasionados pela falta de equilíbrio), aparições de vultos (perda da visão periférica) e sensações de ter a alma fora do corpo (ocasionada pela diminuição da propriocepção, que é a capacidade de se reconhecer no espaço).

Todas essas sequelas invisíveis me atormentaram muito nos primeiros anos pós-AVC. Elas me traziam uma sensação de pré-morte, como se parte de mim não estivesse mais aqui. E até aceitava isso de bom grado, porque nos primeiros meses eu tinha certeza de que iria ter outro AVC, o que as vezes me deixava ansiosa, e outras me acalmava. Era uma alternância de emoções. Ter uma lesão cerebral mexe muito com a cabeça.

Apesar de os especialistas em cérebro saberem que a instabilidade emocional é comum em pacientes neurológicos, acredito que isso não é divulgado o necessário, porque as pessoas ao nosso redor nos culpam muito pelos nossos excessos. “Excesso” é um bom termo porque realmente todo o pensamento passa a ser muito exagerado. Crises de choro e de riso são constantes, assim como muitos erros em poucas tentativas e começar mil coisas sem terminar. O cérebro quer, mas nem ele dá conta! Se ele não tem consciência de que está incompleto, imagina a gente, que vive à mercê dele? É desgastante!

Além das sequelas do próprio corpo, há os fatores externos. A dependência é uma delas. Por motivos pessoais, precisei ser independente muito cedo e tinha muito orgulho disso. Ter consciência de que precisava de ajuda de terceiros para tudo me deixou desesperada. Foi o início dos “pensamentos catastróficos”, um termo da neuropsicologia que tenta explicar o “deus nos acuda” de uma lesão cerebral.

Pensamentos no estilo “o que vai ser de mim” são comuns, principalmente porque a parte financeira é sempre atingida. Não importa a área e abrangência de uma lesão, ela sempre assustará o bolso. Assim que saímos do hospital, começamos a viver do auxílio do INSS e passamos a receber menos do nosso salário habitual. Não é a gente que determina o tempo disso, é o próprio instituto, cujo local muito se assemelha aos portões do inferno. O clima de lá é péssimo, cheio de medo e sofrimento. lá que muitos de nós batemos o primeiro ponto da nossa tenebrosa jornada.

Apesar de muitos leigos terem o pensamento de que pessoas afastadas pelo órgão estão de férias remuneradas, a verdade é que a maioria dos beneficiados querem desesperadamente voltar ao mercado de trabalho, seja por causa das dívidas acumuladas (advindas dos medicamentos e da reabilitação) como para alimentar a esperança de ter a sua vida de volta. Apesar da ansiedade, todos nós temos medo de constatar que não daremos conta de voltar para o mesmo ritmo de antes. Infelizmente, essa é a verdade da maioria: não será mais possível.

Mesmo sendo liberado para o retorno ao trabalho, tendo o período de auxílio postergado ou lidando com a terrível aposentadoria por invalidez (esse nome é outro mostro), o caos no setor financeiro já está instaurado, então é preciso colocar os poucos neurônios para funcionar e encontrar um meio de sair do vermelho. Tal estratégia é muito difícil porque ainda estamos lentos das ideias, em um período em que estamos muitos confusos e ingênuos ao ponto de cairmos em diversos golpes. Eu mesma passei por isso.

É mais um susto, mais um medo na rotina neurológica. Fica difícil dormir sem remédio, porque o sono só traz sonhos ruins. Acorda-se de madrugada aos prantos e com medo de ter uma convulsão, e assim, voltar para o início desse trem fantasma: a internação hospitalar. Em um cérebro machucado tudo pode ser motivo para o quadro piorar: estresse, exaustão, preocupação e sensação de abandono. E todas essas sensações são consequências de motivos reais, não são delírios da nossa cabeça.

Ainda não existe uma ajuda financeira específica para auxiliar sobreviventes de lesão cerebral. Tudo é muito confuso e genérico. Não temos acesso a vários benefícios, porque AVC, TCE, concussão ou aneurisma não são casos considerados aptos para recebê-los. Nossa vida para bruscamente na estação do “Deus dará”. Também não somos informados dos motivos de nossa instabilidade psicológica e de que precisaremos de um bom terapeuta, já que os neurônios não serão realinhados apenas com remédios controlados. A consequência disso é sermos cada vez mais afastados do mercado de trabalho e do convívio social. Como consequência, é comum pensar em tirar a própria vida. Infelizmente faz parte do processo. Pois é, ficar frustrado só porque não conseguiu cumprir a listinha de desejos do final do ano anterior virou bobagem. Bons tempos aqueles!

Assim que sobrevivi ao AVC fui chamada por muitos de “guerreira”, um termo que me dá calafrios até hoje, porque na minha cabeça nunca escolhi guerrear tudo isso, eu apenas fui vivendo porque não tinha outra escolha. O meu único caminho era me reabilitar, um dia de cada vez, e fazer de todo o possível para fazer “o tico e o teco” se reconectarem cognitivamente, ainda que eles sentissem falta do restante da família de esquilos.

Até isso acontecer, para mim, em meados de 2022, foi um inferno. A única coisa que tinha ao meu favor era a minha coragem, e isso me surpreendeu, porque desconhecia esse meu lado corajoso até então. Hoje, ao olhar alguma foto antiga, não me reconheço, não apenas pela prosopagnosia, mas porque aquela menina insegura não existe mais. Ela morreu naquele catorze de maio.

A minha experiência com o AVC me fez amadurecer muito, me fez enfrentar os fantasmas visíveis e invisíveis da vida. Descobri que, independentemente de corpo ou cidade, todos nós vivemos na nossa mente. Ela é a nossa casa! Tudo o que vivemos é filtrado por ela, e isso pode ser acolhedor ou uma verdadeira casa dos horrores. Depende de como nos tratamos diante das injustiças da vida.

Acredito que errando e acertando, fiz tudo o que podia em cada etapa da minha segunda vida, assim como na primeira. E sempre serei julgada pelos meus erros, mas o único julgamento que importa é o meu, pois ele construirá as minhas memórias. Nossas lembranças são tudo o que nos resta no momento da nossa morte, é como vemos o trajeto da nossa vida independente de quantos horrores a cercarem. É preciso muita coragem para enfrentar os monstros da vida, e isso todo sobrevivente tem de sobra. Somos repletos de excessos.

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